segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Rio Sustentável: lei define diretrizes

Prestes a ser palco da Rio +20 no ano que vem, quando a Rio 92 completará 20 anos, a cidade do Rio de Janeiro deu mais um passo para se tornar referência em sustentabilidade. Na quinta-feira, dia 27 de janeiro, o prefeito Eduardo Paes sancionou a Lei nº 5.248/2011, que instituiu a Política Municipal sobre Mudança do Clima e Desenvolvimento Sustentável. A Lei Aspásia Camargo, nome da sua autora, estabelece metas gradativas para a redução das emissões de gases de efeito estufa no município, sendo 8%, em 2012; 16%, em 2016; e 20%, em 2020, com base no inventário de 2005. A legislação leva em conta os princípios da prevenção, mitigação e adaptação.

Para atingir as metas estabelecidas, a lei busca fomentar o desenvolvimento de projetos de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL); o incentivo ao estudo e à pequisa  de tecnologias sustentáveis; o estabelecimento de um programa de ecoeficiência; a gestão e o uso racional dos recursos naturais; a gestão dos resíduos sólidos; o planejamento do setor de transporte e de mobilidade urbana; e a criação de incentivos para a geração de energia descentralizada, a partir de fontes renováveis; e a criação de incentivos fiscais e financeiros para pesquisas relacionadas à eficiência energética e ao uso de energias renováveis em sistemas de conversão de energias.


domingo, 30 de janeiro de 2011

A importância do cerrado


O cerrado se constitui no segundo maior bioma brasileiro, ocupando uma área de aproximadamente 21% do território nacional. Este bioma é considerado a savana mais rica em biodiversidade de todo o mundo, maior até do que as típicas savanas africanas. Ao todo, possui cerca de 10.000 espécies de plantas, sendo que destas, 4.400 são endêmicas, ou seja, só existem nestes locais, além da fauna ser bem diversa, com destaque para as aves e os animais de grande porte. 

Sua vegetação é caracterizada por arbustos retorcidos e, em sua maioria, de médio e pequeno porte como forma de adaptação ao solo ácido e pobre em nutrientes, o que pode transmitir uma ideia de deficiência hídrica, como na caatinga. Mas é apenas uma falsa ideia.

Neste domínio há a maior riqueza hídrica, principalmente em termos de importância socioambiental, para o Estado nacional e pro povo brasileiro, ao meu ver (rs). O regime de chuvas anual é bastante característico, apesar de haver variações, às vezes normais outras vezes não, são fartas de setembro a março, sendo até raro, nos outros meses, ela vir. Contudo, apesar de ficar quase metade do ano sem chover, a presença de rochas sedimentares, e o relevo de planaltos e chapadões planos em quase a totalidade de sua extensão, permite que a água da chuva infiltre no solo e fique retida nos horizontes subterrâneos. Um exemplo disso é a presença dos dois maiores aquíferos do país lá – O Guarani e o Urucuia, onde este se localiza no oeste baiano.

Os afluentes dos principais rios brasileiros nascem no cerrado, isso significa dizer que ele é o grande distribuidor e abastecedor deles, especialmente o Rio Amazonas (em porções da margem direita), o Rio São Francisco (onde este possui 47% de sua área neste bioma, sendo que do total de sua vazão, 94% da água vem do cerrado), o Rio Paraguai e Paraná (este com 75% da vazão se originando no cerrado), que são importantes para escoamento da produção de grãos e da produção de energia elétrica, respectivamente, o Tocantins-Araguaia, um dos principais rios da região norte, entre outros.


Estima-se que 95% de toda a energia hidrelétrica produzida no nosso país depende das águas do cerrado. Número extremamente alto, que demonstra o enorme potencial deste domínio de natureza.

Pena que seja muito negligenciado pelas autoridades governamentais, que não dedicam esforços suficientes para a sua conservação e mesmo de nós, habitantes “comuns” desse país, que esquecemos de biomas paisagisticamente (em termos visuais somente) mais pobres colocando-os em patamares menores se comparando com as florestas equatoriais e tropicais do Brasil.

Acredito que este post seja importante para mostrar a importância de outros biomas brasileiros, inclusive para estudantes, que, acredito, possam compreender melhor o importante papel que o domínio do cerrado exerce, positivamente, para a sociedade. Em outro post falarei um pouco sobre o intenso processo de destruição do meio ambiente deste bioma, especialmente com a expansão das fronteiras agrícolas de latifúndios monoculturas.

Esse monocromatismo da natureza, ou seja, só o verde, “nada tem a ver com a variedade de cores que a natureza, em qualquer período [e espaço], tem” (Wendel Henrique). De uma forma ou de outra, precisamos abrir mais nossas mentes e discussões para outros espaços tão importantes quanto às belas florestas verdes (?) do nosso mundo.

Casca de banana pode despoluir água


“Yes, nós temos banana!” Engana-se quem pensa que esta fruta tropical serve apenas para matar a fome e é rica em potássio e fibras. A casca da banana, esnobada por muitos, tem um valor inimaginável.
Um projeto da doutoranda da Ufscar (Universidade Federal De São Carlos, no interior de São Paulo) Milena Boniolo demonstra que a partir de um pó feito com a casca da fruta, é possível descontaminar água com metais pesados.

Boniolo teve a ideia após assistir uma reportagem sobre o desperdício da fruta no Brasil. “Só na Grande São Paulo, quase quatro toneladas de cascas de banana são desperdiçadas por semana. E isso é apenas nos restaurantes”, diz em entrevista para a Folha.com.

A pesquisadora já trabalhava com estratégias de despoluição da água, porém todos os métodos sempre foram muito caros, como as nanopartículas magnéticas, inviabilizando o uso em pequenas e médias indústrias.
Como a casca da banana tem pouco interesse comercial, existem empresas dispostas a até doá-las. “O volume de sobras de banana é muito grande, as empresas têm gastos para descartar adequadamente esse material. Isso é um incentivo para que elas participem das pesquisas”, afirma Boniolo.

O método de despoluição se baseia no seguinte princípio: os opostos se atraem, pois na casca da banana existe grande quantidade de moléculas carregadas com carga negativa. Elas atraem os metais pesados, positivamente carregados.

“Eu comecei fazendo em casa. É realmente muito fácil“, diz a pesquisadora. As cascas de banana são colocadas em assadeiras e ficam secando ao sol durante quase uma semana. O material é triturado e, depois, passa por uma peneira especial. Isso garante que as partículas sejam uniformes. O resultado é um pó extremamente fino, que é adicionado à água contaminada. Para cada 100 ml a serem despoluídos, usa-se cerca de 5 mg do pó de banana.

Já em laboratório, o índice de descontaminação foi de 65% a cada vez que a água passava pelo processo. Logo, se for colocado em prática repetidas vezes, é possível chegar a altos níveis de “limpeza”.

O projeto, que foi apresentado na dissertação de mestrado da pesquisadora no Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares), foi pensado com urânio, mas, segundo Boniolo, é eficaz também com outros metais, como cádmio, chumbo e níquel, muito usados na indústria.

Boniolo ganhou o Prêmio Jovem Cientista e recebeu convite para apresentar a ideia no Brasil e na Inglaterra.

Ano Internacional da Floresta – 2011


Em 2010 comemoramos o Ano Internacional da Biodiversidade, que contou com diversos eventos, inclusive um deles abordado aqui no blog a COP -10 (a décima Conferência das Partes que tratou sobre a Convenção sobre a Diversidade Biológica – que como já sabemos não deu em muita coisa). Já 2011 será o Ano Internacional das Florestas.

A data e o tema são iniciativas aprovadas pela Assembléia Geral das Nações Unidas, que tem como principal objetivo esclarecer para todos a importância das florestas e de seu manejo sustentável na redução da pobreza. A programação contará com atividades internacionais, coordenadas pelo Fórum de Florestas (UNFF) e organizações da ONU, além de eventos nacionais.

Segundo documento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), para facilitar a realização dos objetivos deste Ano Internacional, o secretariado do “Fórum das Nações Unidas sobre as Florestas” propõe as seguintes atividades difusoras:

1.Logotipo do Ano Internacional das Florestas – 2011: O logotipo oficial foi idealizado por designers gráficos e desenvolvido em colaboração com o Departamento de Informação Pública da Secretaria Geral. Recebeu aprovação do Conselho de Publicações das Nações Unidas, tendo sido apresentado publicamente em todos os idiomas oficiais da Organização. Tem como tema “Florestas para o povo“, exaltando o papel das pessoas na gestão, conservação e exploração sustentável das florestas do mundo.

2. Site do Ano Internacional das Florestas – 2011: O site fornecerá uma plataforma on-line a todas as informações relativas ao Ano.

3. Porta-vozes ou mensageiros das florestas: Pessoas que ocupem lugares de liderança nas comunidades foram selecionadas para atrair a atenção da mídia, dando maior visibilidade à causa das florestas, sensibilizando para aumentar o apoio da população a essa causa.

4. Coleção de selos sobre o Ano Internacional das Florestas – 2011: Foi desenvolvida uma coleção de selos comemorativos para colaborar com a “Secretaria do Fórum das Nações Unidas sobre as Florestas”. Esta coleção será apresentada na inauguração oficial do Ano Internacional das Florestas, nos dias 2 e 3 de fevereiro de 2011, em Nova Iorque.

5. Concursos Artísticos, Cinematográficos e de Fotografia: Organização de eventos on-line para homenagear aqueles que expressem através das artes plásticas, fotografias, filmes e curtas-metragens a idéia de que as florestas são para o povo.

6. Anúncios de interesse público e curta-metragens promocionais: Existe a produção de um curta-metragem e alguns anúncios de interesse público que serão distribuídos em todo o mundo em diversos idiomas, a serem transmitidos pela televisão e outras mídias, incluindo espetáculos teatrais gratuitos em que se possa transmitir idéias e fomentar ações em prol das florestas.

7. Diversidade biológica das florestas: Em colaboração com a “Secretaria da Convenção sobre a Diversidade Biológica” estuda os âmbitos em que possa haver sinergia entre o Ano Internacional da Biodiversidade, 2010 e Ano Internacional das Florestas – 2011. Entre as atividades se incluiu a organização de um “ato de ligação dos Anos” que fará parte da cerimônia de encerramento do Ano Internacional da Biodiversidade, que será realizada em dezembro de 2010, no Japão.

8. Zonas Úmidas e Florestas: A Convenção de Ramsar[1] escolheu o lema “Os pântanos e florestas” Dia Mundial das Zonas Úmidas para 2011 em homenagem ao Ano Internacional das Florestas. “A Secretaria do Fórum das Nações Unidas sobre Florestas” colabora atualmente com a “Secretaria da Convenção Ramsar” para a produção de um documento sobre as zonas úmidas e florestas para o Dia Mundial das Zonas Úmidas 2011.

Panorama dos biomas brasileiro

O Brasil, possuidor de grande parte de florestas do mundo, conta com biomas como: Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa, sendo a Amazônia, o de maior extensão, o Pantanal, de menos que juntos ocupam  mais de metade do Brasil: o Bioma Amazônia, com 49,29%, e o Bioma Pantanal, com 1,76% do território brasileiro. (Dados do Mapa de Biomas do Brasil – IBGE, 2004)


Comemorações

Na Alemanha, o Ano das Florestas 2011 será organizado por autoridades florestais federais e estaduais, e pelo Ministério da Alimentação, Agricultura e Defesa do Consumidor (BMELV). Já em Portugal a comemoração será coordenada pelo Secretário de Estado das Florestas, Rui Barreiro. No Brasil ainda não saiu um calendário com a comemoração.

Fonte: Esse Tal Meio Ambiente

Retrospectiva 2010: os principais acontecimentos ambientais do ano


Final de ano é tempo de fazer promessas para ano que se aproxima, além, é claro, de relembrar os fatos que nos marcaram durante o ano que se finda. Infelizmente, não somente coisas boas; mas mesmo as mais difíceis têm seus aspectos positivos.

O ano de 2010 está terminado, e o E esse tal meio ambiente? faz uma retrospectiva de alguns fatos que, em nossa opinião, tiveram grande importância para este ano.

Eleições Presidenciais: o fator Marina Silva 


Embora não tenha sido eleita, e nem ao menos ter chegado ao 2º turno, Marina Silva foi a grande surpresa das eleições. A então candidata do Partido Verde levou à discussão das questões ambientais ao centro do debate eleitoral, fazendo os demais candidatos mudar de postura, e até mesmo de opinião. A ex-senadora Marina Silva teve 20 milhões de votos.

O projeto de construção da Usina de Belo Monte


Apesar de estar em discussão há quase 20 anos, o debate sobre a construção da Usina de Belo Monte tornou-se mais forte este ano. Para realização da obra seria necessário um gasto de mais de R$ 19 bilhões, além do deslocamento de mais de 20 mil indígenas e o desmate de 50 mil hectares em zona de mata na Floresta Amazônica.

Vazamento de petróleo no Golfo do México


O acidente na plataforma Deepwater Horizon, da empresa BP, vitimou 11 pessoas e causou um dos maiores desastres ambientais do mundo. Cerca de 200 milhões de galões de petróleo vazaram no Golfo do México, ao longo de vários meses a partir de abril. O prejuízo financeiro foi de aproximadamente 11, 2 bilhões de dólares, já o ambiental é inestimável.

Mudanças no Código Florestal Brasileiro 
 

As alterações no Código Florestal foram propostas pelo deputado Aldo Rebelo e apresenta mudanças significativas no atual Código, entre elas estão: a redução das áreas de preservação permanente (APPs), como matas ciliares e topos de morro, e as reservas legais (RLs), que são partes de propriedades privadas que não podem ser desmatadas.

A votação do novo Código Florestal deve ocorrer logo no início de 2011.

Política Nacional de Resíduos Sólidos


A Lei de Resíduos Sólidos é um grande progresso para solucionar a questão do lixo no país. Ela deverá incentivar todo um novo setor da economia baseado na reutilização e reciclagem, impulsionando o desenvolvimento sustentável e a geração de “empregos verdes”.

A COP-16 e seu final relativamente positivo 


Apesar da COP-16 não ter terminado com um grande acordo sobre a redução de gases do efeito estufa, algumas surpresas positivas vieram de Cancún.Uma delas foi a criação do “fundo verde” que até 2020 deverá liberar US$ 100 bilhões por ano com o objetivo de apoiar os países em desenvolvimento.

Muitos dos acontecimentos acima ainda terão repercussão nos próximos anos, mas principalmente neste ano que se aproxima. Esperemos as discussões e, quem sabe, o tão esperado acordo climático que vá oficializar e até obrigar os países a reduzirem suas emissões, na COP-17, na África do Sul. Esperemos também uma boa saída em relação ao Código Florestal e às negociações de Belo Monte. É bom lembrar que, junto com o novo ano, um novo governo se inicia… e precisamos torcer e fazer parte dessa mudança.

Uma imagem vale mais que mil palavras (e ações)


A imagem se tornou cada vez mais poderosa no cotidiano da população, especialmente quando o soviético Yuri Gagarin exclamou: “a Terra é azul!”. As imagens ganharam uma força muito grande e foi muito bem apropriada pelas agências publicitárias. Na nova fase regulatória do capitalismo, imagem e publicidade adquirem um destaque especial.

Esse processo, iniciado lá pela década de 70, tem hoje importância fundamental nas relações comerciais das empresas (principalmente as grandes, pois têm mais condições) e, inclusive, dos Estados. O discurso ambiental vem se reforçando cada vez mais a partir do fim do século XX, e impõe às empresas novas formas de relação da produção com suas práticas ambientais. Todo mundo quer ser sustentável e, mais do que ser, precisa mostrar isso.

Com certeza, a sociedade evoluiu em importantes áreas nas últimas décadas com o avanço das novas tecnologias, mas, prevalece-se, e com muita intensidade, ações de marketing das empresas, dando-se destaque às suas responsabilidades socioambientais, mas, na verdade, existe muito mais criação de uma imagem responsável através da publicidade. Por isso, se intensifica a obtenção de “selos verdes”, como a série ISO 14.000, mas não muda-se a lógica da produção. Florestas são criadas, ditas de reflorestamento, mas na verdade são fundos de reserva que serão posteriormente utilizadas, como fazem as empresas de celulose. Ou seja, estamos falando muito mais de “produção de imagem” do que ações realmente efetivas para melhorias socioambientais.

Para se conseguir o famoso selo ISO 14.001 não é necessário nenhuma melhoria na prática. A obtenção do selo vem antes da melhoria, trazendo um diferencial para quem o possui em relação aos seus concorrentes. Não é nada mais que intenções! Ou seja, não são nada mais que ações de marketing.

O principal objetivo do marketing, no fim das contas, é fazer vender, fazer com que os produtos ou serviços sejam consumidos e a roda capitalista, enfim, continue a girar. Assim, por mais verde que seja o marketing dentro dessas configurações, o resultado final não será muito diferente do que vemos hoje, aumento dos problemas socioambientais em todo mundo.

Nos círculos de debates ambientais, virtuais ou não, têm-se um nome específico para essas práticas, que é o greenwashing, onde empresas constroem uma imagem ambiental a partir de práticas e produtos ditos sustentáveis. Como disse antes, a publicidade vale muito para as empresas no período atual, e não é à toa o que diz um já famoso ditado: “a propaganda é a alma do negócio”. Mas, como diria a galera da Nação Zumbi, “Como pode a propaganda ser a alma do negócio se esse negócio que engana não tem alma?”

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Cidade gaúcha de Osório tem o maior parque eólico da América Latina

O vento constante por muito tempo soprou apenas problemas sobre a cidade gaúcha. Agora, com o maior parque eólico do Brasil, é sinônimo de lucro e alegria.

Por Rodrigo Trespach
Foto de Tiago Lopez Trespach




Uma rodovia que liga Porto Alegre ao litoral corta ao meio o parque eólico. A iluminação dos aerogeradores, que têm altura de mais de 130 metros, propicia um raro espetáculo aos viajantes.

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Um ditado popular no brasil aponta "lá onde o vento faz a curva", em referência a um lugar que é muito, muito distante. Soa pejorativo na maior parte dos usos, mas, para os moradores de Osório, no Rio Grande do Sul, esse lugar é a casa deles - e com orgulho. Localizada no pé da serra Geral, em uma vasta planície repleta de rios e 23 lagoas, a cidade é um corredor natural para a passagem do vento e a criação de correntes ascendentes. É na região do morro da Borússia, por exemplo, que o sopro austral conhecido como minuano - nome de uma tribo indígena extinta - surge de sua jornada desde o interior gaúcho em direção ao oceano Atlântico. O seco e gélido minuano, que ultrapassa com facilidade os 30 quilômetros por hora, não é o único nem o mais temido vento que costuma fazer a curva em Osório. O nordeste, ou "nordestão", como é chamado pelos moradores, pode atingir 100 quilômetros por hora. Comum no verão, dura três dias, mas acaba com a paciência dos osorienses em bem menos tempo.

Em Osório, o vento é mais que apenas uma força invisível - é protagonista do cotidiano e da economia local. Emancipado desde 1857, o município sempre subsistiu sem maiores ambições com base nas atividades agrícola e comercial. Moradores antigos costumavam dizer que ele só conseguiria se desenvolver de verdade quando conseguisse "engarrafar o vento". O futuro chegou em abril de 2006. No dia em que o próprio presidente da República acionou o primeiro aerogerador dos Parque Eólico de Osório (são três parques, Sangradouro, Osório e dos Índios, conectados a uma única subestação), o maior complexo gerador de energia do vento da América Latina, inaugurou-se uma fase não apenas para a cidade mas para todo o país. Osório afinal havia conseguido "engarrafar o vento".

Hoje são 75 aerogeradores em funcionamento. Cata-ventos gigantes, as torres de concreto têm 98 metros de altura e cada uma das três pás que compõem o rotor pesa mais de 5 toneladas em seus 35 metros de comprimento. Com potencial de 150 megawatts/hora, o sistema gera aproximadamente 425 gigawatts anuais de energia, suficientes para abastecer o consumo doméstico de 650 mil pessoas - mais de 15 vezes a população de Osório - e evitar a emissão de 148 mil toneladas de CO2 na atmosfera pelo sistema elétrico brasileiro, economizando 36,5 mil toneladas de petróleo e 41 milhões de metros cúbicos de gás natural. Segundo dados de 2010 da Associação Brasileira de Energia Eólica, Osório produz20% dessa energia no país. E 50 novos aerogeradores estão sendo construídos.

Se o parque rende tributos aos cofres públicos, os vendavais, por outro lado, costumam causar estragos e prejuízos. Ao longo da RS-289, a Estrada do Mar, que liga Osório a Torres, no extremo norte do litoral gaúcho, as tendas de produtos típicos, as placas de publicidade e os eucaliptos que cercam os dois lados da rodovia sempre são castigados pelos ventos. Raízes expostas, galhos na estrada, casas destelhadas e outdoors desfigurados são visões comuns.

Pode ser difícil sair à rua em dia de nordestão. As mulheres evitam usar saia e prendem o cabelo; varais com roupas expostas parecem querer decolar; andar de bicicleta é um desafio olímpico. Certas pessoas, porém, acolhem a ventania como se ela fosse uma dádiva: os adeptos de esportes como o windsurf e o kitesurf, que lotam as águas da lagoa dos Barros. Com velocidade máxima de 85 quilômetros por hora, a raia local só é superada pelas marcas alcançadas por esportistas náuticos nas águas de Lüderitz, na Namíbia, costa sudoeste da África.

Outra modalidade dos esportes do vento é o planador, avião sem motor que depende exclusivamente das correntes ascendentes para planar. O aeroclube da cidade, o Albatroz, foi fundado, no início da década de 1950, por pioneiros da atividade no país, caso de Darci Assis, uma lenda da aviação brasileira. O Albatroz detém o recorde sul-americano de permanência no ar com planador, com uma marca impressionante. Em outubro de 1954, Almiro F. Barrichello e Adalberto Jayme Meneghini permaneceram 11 horas e 37 minutos nos céus da região.

Hoje, ainda que as façanhas de Almiro Barrichello, Meneghini e Assis, falecido em 2005, tenham ficado no passado, a nova geração de voadores luta por seu espaço. O número de pilotos formados no Albatroz cresceu nos últimos anos. Muitos deles seguem carreira nas grandes companhias aéreas do país, mas regressam para Osório sempre que possível - e por uma razão especial. "Apenas com o planador pode-se voar de verdade", dizem em uníssono. A cidade habituou-se ao barulho dos rebocadores, aviões responsáveis em levar os planadores a uma altura na qual possam ser soltos do cabo que os prende. Libertos, os planadores misturam-se aos pássaros, deslizam sobre a vasta bacia hidrográfica, as encostas verdes ainda intocadas do morro da Borússia e retornam mansamente ao ponto de partida, em uma sequência de subidas e descidas que só termina quando o sol se põe no horizonte.

Foi nos céus que, em setembro, o instrutor de voo Frederico Reckziegel, de 29 anos, desfrutou ao mesmo tempo das duas maiores paixões de sua vida. Depois de 11 anos de namoro, ele resolveu subir ao altar com Giani Tricai, de 26. Mas, antes da cerimônia na Igreja do Porto, onde de fato oficializariam o casamento dias depois, ele convidou Giani para um voo especial. "Eu não queria que fosse um passeio como nos tempos de namoro. Daquela vez, eu precisava de uma prova de amor", conta Frederico. Assim se fez. A noiva entrou na cabine do planador Blanik como manda o figurino: de vestido, véu e grinalda. Não faltaram olhares curiosos do público, sempre presente às margens da pista para apreciar as aeronaves. A operação envolveu três aviões, equipe de solo e uma sessão de fotografias para registrar o sonho. Frederico ganhou um presente memorável de sua noiva e o aeroclube registrou outro evento histórico. O velho Darci Assis gostaria de ter presenciado aquele momento.

Publicado em 12/2010
Fonte: National Geographic