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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Clima - ceticismo perde mais espaço

Ficou muito mais difícil para os chamados "céticos das mudanças climáticas" continuarem a negar que elas se têm intensificado em consequência do aumento da temperatura na Terra, com forte contribuição das ações humanas para o processo. Um Comitê de Revisão dos Procedimentos do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, órgão científico da Convenção do Clima), liderado pelo InterAcademy Council (o IAC, que reúne sociedades acadêmicas de vários países), concluiu que o processo dirigido pelo IPCC precisa aperfeiçoar seus procedimentos. Mas que, no todo, "serviu bem à sociedade".

"O engajamento de muitos milhares dos mais destacados cientistas e outros pesquisadores no mundo no processo e na comunicação sobre a compreensão das mudanças climáticas, seus impactos e a possível estratégia de adaptação e mitigação é uma conquista considerável em si mesma", diz o parecer do IAC. "Da mesma forma, o compromisso dos governos para o processo e sua aceitação dos resultados são uma indicação clara do êxito. Através de uma parceria maior entre cientistas e governos, o IPCC ampliou a consciência do público sobre mudanças climáticas, elevou o nível do debate científico e influenciou a agenda científica de muitas nações."

O IAC critica alguns pontos da atuação do IPCC, principalmente a conclusão precipitada de que as geleiras do Himalaia se derreteriam até 2035. E entende que o painel precisa modernizar sua estrutura, trabalhar mais a complexidade de certos fenômenos, ter "mais transparência em seus procedimentos", instituir um comitê executivo, limitar a um mandato os poderes dos seus executivos. De modo geral, entretanto, reconhece o valor dos quatro relatórios do IPCC.

Os "céticos" enfrentam também, no mesmo momento, uma mudança radical de postura de Bjorn Lomborg, autor do livro O Ambientalista Cético, que tanto furor causou há poucos anos. Surpreendentemente, ele declara agora que vai começar a enfrentar o problema das mudanças climáticas - em lugar de negá-las. Junto com oito economistas, ele passa a liderar um movimento que sugere forte investimento em energias alternativas, principalmente solar, eólica e de marés. Embora achem que lobistas de empresas investidoras nessas energias "exageraram as mudanças climáticas", esses analistas sugerem agora um investimento de US$ 100 bilhões nesse campo. Coincidência ou não, nesses mesmos dias o jornal britânico Sunday Telegraph publicou um pedido de desculpas ao presidente do IPCC, Rajendra Pachauri, a quem acusara de ter "conflitos de interesse", receber pagamentos de empresas interessadas na área de energias. Após auditoria da KGPM nas contas pessoais de Pachauri, o jornal afirmou que "não há nenhuma evidência de benefícios pessoais com as funções de consultor".

Na direção contrária à dos "céticos", o Instituto de Meio Ambiente da Suécia e o cientista Sivan Kartha publicaram trabalho de análise das intenções manifestadas na Convenção do Clima, em Copenhague, pelos países emissores. Segundo o parecer, se se concretizarem apenas as ações propostas ali pelos países emissores, até o fim do século a temperatura planetária se elevará em 3,5 graus Celsius, com "efeitos desastrosos para a produção agrícola, a disponibilidade de água e os ecossistemas em geral", além de elevação do nível do mar e possível desaparecimento de ilhas no Pacífico (O Globo, 31/8). Esse relatório foi reforçado por outro, da Administração Nacional dos Oceanos e Atmosfera, dos Estados Unidos, segundo o qual sete dos dez indicadores de aquecimento global "estão em ascensão".

Nada disso, entretanto, significa que se terá nestes próximos tempos mudança importante nos rumos dessa grave questão. As lógicas financeiras, que influenciam países e empresas, continuam a comandar o processo. De 4 a 9 de outubro, em Tianjin, na China, será realizada mais uma reunião preparatória da assembleia-geral da Convenção do Clima, prevista para novembro em Cancún, no México. Mas não se espera que aconteça em Tianjin nenhum milagre. Nem mesmo em Cancún. O próprio secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, tem reiterado que não se prevê nenhum acordo importante para Cancún - no máximo, a definição de um "roteiro" para a discussão seguinte, na África do Sul, em 2011. Talvez se defina - na linha do relatório do IAC - que não seja renovado em outubro o mandato de Rajendra Pachauri, que pretendia ficar mais quatro anos no posto.

O governo brasileiro, que não contesta os relatórios do IPCC, anunciou na semana passada que já tem R$ 200 milhões para combater efeitos de mudanças climáticas, com projetos de pesquisas e ações específicas, que serão prioritárias no semiárido nordestino. Ali, como mostrou a recente Conferência sobre Desertificação, os problemas não cessam de avançar, com a contribuição do clima.

É importante, mas é pouco. Os eventos extremos entre nós têm-se intensificado - basta lembrar enchentes e desabamentos no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, inundações em São Paulo, eventos terríveis no Nordeste, elevação inédita de temperaturas no Centro do País , com nível inacreditável de queimadas, notícias de avanço do nível do mar e destruição de ocupações no litoral.

As informações são a cada dia mais contundentes, o ceticismo perde espaço. É preciso avançar rapidamente com políticas públicas. Só que nos faltam instrumentos eficazes. Ainda no começo desta semana, como lembrou este jornal (5/6), "os remédios para mudanças de microclimas são muito complexos". E a situação de emergência, de extrema secura do ar na capital no mês de agosto, não pôde ser enfrentada com eficácia, porque "envolve toda a parte de ocupação do solo e também uma política de mobilidade. E São Paulo não tem um Plano B" (6/9). É grave.

Fonte: Por Washington Novaes - Jornal O Estado de S.Paulo

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Bjorn Lomborg diz que aquecimento global deve ser prioridade


Pretenso ambientalista cético que dizia que mudanças climáticas não deveriam ser prioridade agora propõe fundo de US$ 100 bi por ano

Ambientalista cético "a seu modo", Bjorn Lomborg agora clama por um fundo global de US$ 100 bilhões por ano para pesquisas sobre soluções para as mudanças climáticas. Os líderes de alguns grupos ambientalistas e thinktanks receberam as novas com cautela, enquanto outros preferiram taxar a iniciativa como "ingenuidade política".

Um porta-voz do Greenpeace deu boas vindas à conversão de Lomborg mas disse que ela veio com duas décadas de atraso para que ele seja levado a sério. "Ao menos isso confirma a máxima de que ninguém está errado o tempo todo".

"Parece que o pretenso cético está começando a se tornar menos cético conforme chega perto da meia idade", disse o responsável pela campanha do clima da ONG Amigos da Terra, Mike Childs, afirmando que a mudança de ideia de Lomborg é um golpe em alguns membros da comunidade dos céticos.

O controverso estatístico dinamarquês, que nunca negou o papel da humanidade no aquecimento global mas tem proporcionado base intelectual para os céticos "linha dura", argumentava antes da "virada" que a contenção do aquecimento global não deveria ser uma prioridade dos governos. Mas em seu novo livro, Soluções Inteligentes para as Mudanças Climáticas, ele argumenta agora que a questão deve ser tratada, sim, como prioridade.

"Lomborg tem conhecimento da necessidade de gastos públicos com os impactos no clima provocados pelo homem. Ele está certo ao afirmar que a energia proveniente do vento, das ondas e do sol será a energia do futuro, e precisará de grande apoio dos governos. Uma taxa sobre emissões de carbono para arrecadar fundos é, sem dúvida, parte da solução, mas a regulação e os gastos públicos também têm seu lugar", disse Childs. "Mas ele ainda está perigosamente atraído pelas soluções mais baratas e arriscadas, pondo muita fé em futuras tecnologias e não está dando atenção para a necessidade urgente de reduzir emissões através de soluções já existentes e de mudança de comportamento", completa.

A preocupação com o aquecimento global, ao invés de estar próxima do final da lista de prioridades dos governos, como Lomborg disse em 2004, levou o estatístico a propor uma taxa global de carbono para arrecadar US$ 250 bilhões para ltar contra os efeitos do aumento de temperaturas e do nível dos oceanos. Segundo ele, o dinheiro seria dividido entre o desenvolvimento e a pesquisa de energias limpas (US$ 100 bi), soluções de geo-engenharia baratas (como refletir a energia solar de volta para o espaço (US$ 1 bi) e adaptação aos efeitos das mudanças climáticas (US$ 50 bi). Ele sugeriu também que US$ 99 bi devem ser resguardados para investimento em atividades tradicionais como prover a população dos países pobres com água limpa e cuidados com a saúde.

"Eu não estou surpreso. Ele tem falado mais ou menos a mesma coisa há anos. O processo das Nações Unidas não está funcionando. Isso que ele diz é melhor e mais realista. Suas propostas são muito mais sensíveis do que qualquer tentativa de convencer a China e a Índia de parar as suas emissões", disse Benny Peiser, diretor da thinktank Global Warming Policy Foundation.


Fonte: O Estado de São Paulo, 31.08.2010