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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Dor contratada

Por Míriam Leitão*, para O Globo 

Os economistas mostram que o erro é investir pouco na prevenção e gastar muito para remediar. Os meteorologistas descrevem encontros de fenômenos naturais que os tornam mais potentes. Os climatologistas alertam que vai piorar. Os urbanistas apontam erros do passado. Um conservacionista viajou pelo Brasil e viu a insensatez. Assim se contrata a dor presente e futura.

Cada especialista no seu ângulo registra um pedaço do erro. Eles juntos produzem uma zona de convergência de tragédias futuras. O Brasil é bom na emergência: os poderes se juntam, os diagnósticos são precisos, as soluções são prometidas, o dinheiro aparece, a generosidade brota, a imprensa se concentra. Cessou o momento extremo e tudo volta ao leito do rio dos adiamentos.

Marcelo Seluchi, meteorologista do Inpe, explicou ontem a coincidência dos fenômenos que vitimaram a Região Serrana do Rio:

- A Zona da convergência do Atlântico Sul produz umidade concentrada. Isso piorou pela nebulosidade da Serra, mas houve também o que a gente chama de Sistema de Bloqueio, que deixou essa umidade sobre o Rio e São Paulo. São fenômenos naturais, mas as grandes catástrofes estão ficando mais frequentes.

Chuvas, tempestades, enchentes sempre existiram, tragédias já marcaram o passado em eventos históricos, mas o que está convergindo são os avisos de especialistas de diversas áreas de que é perigoso insistir no mesmo padrão de comportamento. A presidente Dilma ontem sobrevoou a tragédia e disse que a população pode esperar medidas fortes. Que sejam também permanentes.

Do Japão, o climatologista Carlos Nobre mostrou empolgação com o sistema de alertas e prevenção de enchentes e deslizamentos em encostas que será criado no Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) usando computadores e sabedoria do INPE:

- Remover as pessoas de áreas de risco é mais difícil, mas é possível e factível um sistema de alertas efetivo. E esta será uma das minhas mais importantes tarefas no MCT.

Aumentou a volatilidade do clima, os fenômenos estão mais ativos, os extremos mais frequentes. Isso é evidente para qualquer leigo e uma constatação científica. Portanto, é mais do que repetição, é um movimento de piora constante. A cada nova tragédia, ela pode ser pior. Não tem volta, a humanidade já contratou uma parte da mudança climática. O que nos cabe agora é tentar mitigar seus efeitos, se adaptar aos seus rigores, evitar a continuação dos erros.

- O que tem sido observado globalmente é uma exacerbação dos ciclos naturais, isto é, extremos climáticos têm acontecido com mais freqüência, há maior volatilidade do clima. No Brasil, faltam estudos de longo prazo do clima contemporâneo para sermos mais conclusivos, mas é bom nos prepararmos para este aumento de volatilidade. Vamos desenvolver e implementar tão rápido quanto possível formas de reduzir riscos de desastres através do sistema de alerta. No longo pra$, esse aumento da volatilidade vai mexer profundamente com os usos da terra, principalmente nas áreas de risco e cidades. Há um limite para obras de engenharia. É preciso fazer a paisagem rural e urbana voltar a responder de maneira mais natural aos fenômenos climáticos — disse Carlos Nobre.

É como declarou ontem a presidente Dilma após visitar os locais da tragédia na Região Serrana. Cabe às autoridades atender às emergências e prevenir com política habitacional, drenagem, saneamento:

- Porque se o terreno aqui é uma camada fina sobre rocha e há deslizamento quando chove, que deslize, mas que não morra gente.

O sinal da presidente é exato: em vez de culpar a natureza, precisamos nos preparar. Para lidar com fenômenos que ela descreveu como “montanhas que se dissolveram.”

Foi o que viu também o conservacionista Miguel Milano. Ele acaba de voltar de uma viagem de 5 mil quilômetros, de carro, pelo interior do Brasil. Foi do Sul até a Bahia e passando por São Paulo, Minas, Rio, visitou o Vale do Paraíba e voltou pelo Espírito Santo, onde já pegou, na virada do ano, áreas alagadas:

- De propósito, fugi das grandes vias e viajei por dentro. Vi morro derretendo, vi todo o tipo de irregularidade. Não há áreas de preservação permanente, reserva legal, vegetação em declives. Vi encosta desmoronando por causa de erosão. Fiquei lembrando do que estudei de hidrologia florestal nos meus tempos de estudante, há décadas. Um desses estudos mostrava que a diferença entre o pico da cheia e o da seca nas áreas vegetadas é de sete vezes. Nas áreas degradadas, é de 20 vezes. A vegetação é proteção, atenua o impacto das chuvas, reduz o volume e o tempo do escorrimento, protege contra o vento e tem o efeito de transpiração, ou seja, as árvores bombeiam parte da água de volta para a atmosfera. Fui vendo isso e pensando na loucura do Brasil, que não só não respeita o Código Florestal como quer, a esta altura, mudá-lo.

No meio da mudança climática é estranho propor reduzir proteção das margens dos rios, dos picos dos morros, dos terrenos íngremes e diminuir as áreas de reserva legal. Mas é isso que o Congresso Nacional está votando na mudança do Código Florestal.

A presidente Dilma disse que agora é a hora de resgatar, amparar e cuidar das pessoas. Depois, reconstruir e prevenir.

É o triste momento de contar os mortos. Eles já passam dos 480. É também hora de ver que caminhamos no sentido contrário ao que manda a razão e a sensatez.

*Publicado originalmente na coluna da autora no site do jornal O Globo, em 14/01/2011 - http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2011/01/14/dor-contratada-356593.asp

(Envolverde/Portal do Meio Ambiente)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

No caos climático, evidências do aquecimento global


Cientistas americanos começam a abandonar a cautela e a apontar o aumento da temperatura causado pelo homem como origem de desastres


Justin Gillis THE NEW YORK TIMES - O Estado de S.Paulo
 
Paquistão. Neste mês, o país do Sudeste Asiático enfrenta as piores inundações dos últimos 80 anos. Pelos menos 1,4mil pessoas morreram e outras 20 milhões foram afetadas
Inundações causaram danos em diferentes regiões dos Estados Unidos, no atual verão no Hemisfério Norte. Um dilúvio no Paquistão atingiu 20 milhões de pessoas. E ondas de calor cozinharam o leste dos EUA, partes da África, da Ásia Oriental e sobretudo a Rússia, onde milhões de hectares de trigo foram perdidos e milhares de pessoas morreram por causa da pior seca da história do país.
Aparentemente sem relação, esses desastres indicam, segundo os cientistas, que o aquecimento global provoca essas mudanças extremas do clima. "Eventos extremos vêm ocorrendo com maior frequência e em muitos casos com maior intensidade", diz Jay Lawrimore, chefe do departamento de análise climática do Centro Nacional de Dados Climáticos em Asheville, na Carolina do Norte.
Em teoria, o mundo aquece por causa dos gases-estufa, o que provoca temporais no verão, nevascas no inverno, seca mais intensa em alguns lugares e ondas de calor em outros. Evidências estatísticas mostram que isso começou a ocorrer.
Mas não ficou mais fácil ligar ocorrências climáticas específicas às mudanças climáticas. Muitos climatólogos relutam em ir tão longe, observando que o clima já se caracterizava por uma notável variabilidade muito antes de o homem começar a queimar combustíveis fósseis.
"Se alguém me perguntar se, pessoalmente, acho que a intensa onda de calor na Rússia tem a ver com as mudanças climáticas, a resposta é sim", diz Gavin Schmidt, pesquisador da Nasa. "Mas ao me perguntar se, como cientista, tenho provas disso, a resposta é não - pelo menos até agora", completa.
Na Rússia, essa cautela vem sendo adotada pelos estudiosos. O país sempre assume um papel relutante nas negociações globais para lidar com essas mudanças - talvez em parte porque espera tirar proveito econômico com o aquecimento do seu vasto território siberiano. Mas as ondas de calor, seguidas de seca e incêndios, numa região normalmente fria, parecem estar fazendo os russos mudarem de ideia.
Se a Terra não estivesse aquecendo, as variações aleatórias do clima deveriam causar o mesmo número recorde de altas e baixas de temperatura durante um dado período. Mas os climatólogos há muito entendem que, teoricamente, num mundo que vem esquentando, o calor adicional causaria mais recordes de altas de temperatura e menos quedas. As estatísticas sugerem que está acontecendo exatamente isso.
Hoje, nos EUA, temos uma queda recorde de temperatura em relação a dois recordes de alta, uma evidência reveladora de que, em meio a todas as variações aleatórias do clima, a tendência é no sentido de um clima mais quente.
Tempo inusitado. De acordo com um estudo do governo americano publicado em 2008, "nas últimas décadas, excepcionalmente, grande parte da América do Norte observou mais dias e noites quentes, menos dias e noites frios e menos dias gelados", o que também é inusitado. Mas as chuvas se tornaram mais frequentes e mais intensas.
Pesquisas mostram que o aquecimento global vai agravar essas mudanças extremas em grande parte do planeta. Áreas úmidas ficarão ainda mais úmidas, dizem os cientistas, enquanto que as regiões secas se tornarão mais secas.
Mas não são padrões uniformes: as mudanças na circulação dos ventos e dos oceanos podem ter efeitos inesperados, como algumas áreas ficando mais frias num mundo mais aquecido. E padrões climáticos estabelecidos há muito tempo, como as variações periódicas no Oceano Pacífico conhecidas como El Niño, devem contribuir para tais ocorrências excepcionais, como as fortes chuvas e temperaturas frias em partes normalmente áridas da Califórnia.
Para os cientistas, vamos observar tempestades mais violentas no inverno e no verão, em grande parte por causa do princípio físico de que o ar mais quente contém mais vapor de água.
Vamos esperar de um a dois anos até os climatólogos publicarem suas análises definitivas sobre as ondas de calor na Rússia e as inundações no Paquistão, que poderão esclarecer o papel da mudança climática nesses casos. Alguns estudiosos suspeitam de que esse calor e essa chuva foram causados ou agravados por uma mudança em uma corrente de ar que circula em altas altitudes.
Alguns casos recentes foram tão severos que alguns cientistas estão abandonando sua tradicional posição de cautela e atribuindo ao clima a ocorrência de certos desastres. Kevin Trenberth, chefe do departamento de análises climáticas do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica em Boulder, Colorado, sugeriu em um estudo que o furacão Katrina trouxe mais chuvas para a Costa do Golfo porque a tempestade foi intensificada pelo aquecimento global. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
Fonte: Jornal Estado de São Paulo, 18 de agosto de 2010