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quarta-feira, 10 de março de 2010

Mudanças climáticas: ''os pobres são aqueles que sofrerão mais e primeiro''. Entrevista especial com Aron Belink

“O problema da discussão do clima é que temos muitas frentes ao mesmo tempo. Nossa meta de cobrar continua. Queremos que cada país participante apresente metas de redução nas emissões de gases de efeito estufa que apontem contra a elevação da temperatura”, aponta o coordenador da campanha Tic Tac no Brasil.

Confira a entrevista.


A discussão entre vários grupos que estão envolvidos na questão do clima, buscando a articulação e compartilhamento de iniciativas é o principal objetivo da Campanha Global para Ações para Proteção do Clima (GCCA). Nesta entrevista, concedida por Aron Belinky, coordenador da GCCA no Brasil, ele analisa no que resultou a Conferência do Clima em Copenhague, a COP 15, e explica como andam as preparações para o evento. “A campanha está se direcionando, principalmente, em duas frentes. Uma delas é cobrarmos do governo brasileiro as medidas nacionais, que tem a ver com o que foi discutido durante a COP 15, como, por exemplo, o inventário nacional de emissões. A sociedade deve cobrar isso”, afirma. A entrevista foi realizada por telefone.

Ainda sobre avanços na GCCA deste ano, Belinky fala sobre suas abordagens. “Uma das coisas que ficaram claras é que a campanha deve se focar não só no projeto das Nações Unidas, mas também naquilo que acontece ao nível de cada país e a nível do cidadão, da empresa e do que cada um está fazendo no seu dia-a-dia”, garante.

Aron Belinky é pesquisador e consultor, especialista em responsabilidade social, sustentabilidade e consumo sustentável, tem formação em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas (SP) e Geografia pela Universidade de São Paulo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que está sendo preparado para a Campanha Global para Ações para Proteção do Clima deste ano?

Aron Belinky – Ainda estamos com a campanha fechada no Brasil, pois queremos fazer a campanha daqui coordenada com a internacional, que também está em fase de planejamento. Ainda não temos uma agenda exata para o ano. Possivelmente teremos isso mais definido no final de março. A campanha está se direcionando, principalmente, em duas frentes. Uma delas é para cobrarmos do governo brasileiro as medidas nacionais, que tem a ver com o que foi discutido durante a COP 15, como, por exemplo, o inventário nacional de emissões. Este é um ponto fundamental a ser tratado, e que até agora não apareceu. A sociedade deve cobrar isso. Outro exemplo são medidas ligadas ao combate ao desmatamento.

No plano internacional, temos duas grandes linhas em que vamos trabalhar. Uma é o projeto das Nações Unidas, propriamente dito, que é acompanhamento da COP 16, onde percebemos que haverão várias mudanças. O secretário da Conferência do Clima, Yvo de Boer [1], renunciou há algumas semanas. Ainda está sendo escolhido quem será seu sucessor, e isso é muito sintomático. Isso faz parte das dificuldades de ter um processo de organização e de solução dos conflitos na conferência que seja mais eficaz, para não dar uma paralisia como tivemos em Copenhague. Um outro ponto do plano internacional, que também vamos acompanhar, é todo o trabalho preparatório. Existem desde reuniões com o G8 e G20, que já estão acontecendo e que, de alguma maneira, preparam as negociações da COP 16, e também reuniões com outros grupos da sociedade civil. Por exemplo, tem essa conferência que acontecerá em Cochabamba, em abril. Lá os movimentos sociais, que são mais de esquerda, estão questionando como avançou a discussão do clima na COP 15, e estão colocando alguns pontos de cobrança. A discussão entre vários grupos que estão envolvidos na questão do clima é um ponto importante que iremos trabalhar ao longo do ano.

IHU On-Line – Em relação às campanhas anteriores, para onde esta nova edição quer avançar?

Aron Belinky – O problema da discussão do clima é que temos muitas frentes ao mesmo tempo. Se pensarmos naquilo que era objetivo na COP 15, um tratado climático global que fosse justo, legalmente vinculante e ambicioso, vemos que isso terá que passar, necessariamente, por muita negociação diplomática e pelo compromisso dos países comprometidos. Ainda não está claro qual será a agenda específica da COP 16, já que ela irá depender dessas negociações preparatórias. Na verdade, o objetivo final continua sendo o mesmo, que é uma convenção do clima que seja capaz de levar em conta tanto as questões da justiça, de responsabilidades de países, o que tem muito a ver com a contribuição para os fundos de adaptação, quanto a questão da ambição. Por exemplo, aquele acordo fechado no final da COP 15, em que os países deveriam colocar suas metas, ficou extremamente fraco e modesto.

Nossa meta de cobrar continua. Queremos que cada país participante apresente metas de redução nas emissões de gases de efeito estufa que apontem contra a elevação da temperatura, para que esta não passe de dois graus. A essência do que está sendo cobrado não muda. O que muda, na verdade, é a tática com que a campanha irá operar. Talvez isso não seja simples para o público externo. Conversamos em um momento em que a campanha ainda está discutindo de que maneira transformar essas diretrizes estratégicas em pontos de campanha.

IHU On-Line – Como a questão do consumo será discutida dentro da Campanha Global para Ações para Proteção do Clima?

Aron Belinky – Isto já está bem claro. Recentemente, tivemos uma discussão sobre o planejamento global da campanha, e uma das coisas que ficaram claras é que a campanha deve se focar não só no projeto das Nações Unidas, mas também naquilo que acontece ao nível de cada país e a nível do cidadão, da empresa e do que cada um está fazendo no seu dia-a-dia. Neste sentido, vamos enfatizar na campanha a importância de que, além de termos os resultados e um marco regulatório de política política pública na área internacional, tenhamos também uma referência no cotidiano das pessoas que seja de um consumo menos impactante. Já trabalhamos muito nesta direção, mas a mensagem é a de que toda a entidade irá trabalhar dentro da sua própria vida. O Greenpeace, que é parceiro da campanha, tem seu modo de falar. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), que também é parceiro, tem o seu modo. Cada um irá enfatizar, de acordo com a sua agenda, o fato de que não são só os governos, mas também o cotidiano das pessoas e das organizações.

IHU On-Line – Que desafios se colocam, para sociedade civil, governos e empresas, em relação a questão do aquecimento global, principalmente depois dos acordos firmados em Copenhague?

Aron Belinky – Na verdade nenhum acordo foi firmado. Aquele acordo de Copenhague, como foi chamado, que saiu de última hora, costurado na proposta do Obama, ninguém considera como acordo climático. Ali se tem intensões muito frouxas e básicas sobre o que poderia ser um acordo do clima, mas não serve de referência para ninguém. É um documento extremamente genérico, e o máximo que irá servir é para que novas conversas sejam feitas em cima dele. Não se imagina que uma empresa, um governo ou uma entidade qualquer vá fazer alguma coisa em função disso que saiu de Copenhague. Quando falo disso, falo na Conferência das Nações Unidas. O que também aconteceu em Copenhague, e isso é importante olharmos, foram dezenas de reuniões entre empresas, grupos setoriais de várias áreas e uma série de eventos paralelos, entre organizações da sociedade civil e entre governos de nível sub-nacional. Por exemplo, José Serra, governador de São Paulo, encontrou Schwarzenegger [2], governador da Califórnia, para discutir o que cada um pode fazer ou está fazendo em seus estados pela questão da mudança do clima.

Esses acordos, feitos fora do âmbito das Nações Unidas, não têm essa força global que uma conferência do clima teria e tem, mas são muito importantes no sentido de dar orientações e de estabelecer, em termos de campos de cooperação entre essa turma. Aí vemos um lado positivo. Não se tem uma orientação geral para todas as empresas, mas se tem muitos direcionamentos. Está muito claro para qualquer empresa, que esteja atenta ao que foi discutido, que o caminho agora para o desenvolvimento econômico passa pela energia limpa, que passa por soluções de baixa emissão de carbono. Esta sinalização já está dada para as empresas, e acredito que muitas vão começar a agir olhando isso como um direcionamento estratégico. Lembrando que já se tem um tratado internacional apontando para isso, isso já tem uma tendência demonstrada pelos vários contatos.

IHU On-Line – De alguma forma, a falta de resultados em Copenhague pode significar, de alguma forma, um avanço?

Aron Belinky – Um avanço acho que não. Eu diria que a falta de resultados, ou seja, as Nações Unidas não terem conseguido chegar a um tratado global como se esperava, seguramente, não ajuda ninguém. Assim, ajuda quem está trabalhando contra aquilo que acreditamos, que é uma economia de baixo carbono. O único grupo que vi, que ficou contente com a falta de resultados em Copenhague, foram aqueles órgãos que trabalham para desacreditar toda a discussão sobre mudança climática, e que estão aproveitando essa frustação que acabou acontecendo para reforçar a crítica, dizendo que o aquecimento global não é bem assim e que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) não sabe o que está falando. Sim, o aquecimento é um problema e ele é causado pela ação humana. Se algum dado não é tão preciso assim, isso não invalida o conjunto de esforços.

Acho que o sucesso do sistema de decisão na ONU, a grande falha de Copenhague, não ajudou ninguém. Foi negativo e se alguma coisa boa pode surgir disso é a percepção de que é preciso melhorar o sistema decisório, que é o que estamos fazendo agora, de como discutir a COP 16 e não terminar em algum tipo de impasse por causa da forma de decisões.

IHU On-Line – Como o senhor vê a tese do decrescimento sustentável?

Aron Belinky – Falando como campanha, ainda não temos uma opinião formada. Pessoalmente, acho que se trata de algo que faz um certo sentido, mas o caminho para ela passa pela educação por uma outra vertente. Esta é uma discussão cultural, comportamental e de valores da sociedade. Esta questão cabe na discussão do clima, mas é importante falar sobre perfil de decrescimento. O que foi debatido em relação a esse tema foram as condicionantes: porque isso acontece? Se está aliado a um aumento do consumo per capita ou não? Onde esse consumo aumenta? Tem muita coisa para ser discutida sobre esse assunto. Ele não pode ser tomado sozinho.

IHU On-Line – Alguns pesquisadores dizem que os países pobres são os que vão sentir primeiro e de forma mais intensa os problemas do aquecimento global. O Brasil vai sentir quando?

Aron Belinky – Certamente, a questão das mudanças climáticas, que ocorrem em função do aquecimento global, afeta todo o mundo no planeta, tanto ricos quanto pobres, e, de alguma maneira, todos terão efeitos dramáticos e grandes prejuízos em função disso. Este é um ponto de partida. Dentro desse cenário, podemos dizer que os mais pobres são aqueles que sofrerão mais e primeiro. Isto, principalmente, pelo fato de que, por um lado, esses países pobres têm menos recursos para se prevenir e para remediar, o que acontece quando se tem um evento extremo causado pela mudança climática, um inverno ou verão rigoroso, por exemplo, e se o país tem instituições bem estabelecidas e uma rede social estruturada, de uma maneira as consequencias conseguem ser amenizadas ou administradas de modo que as pessoas sofram menos. Num país pobre, se tem muito menos estrutura e recursos para fazer frente com esse tipo de situação, e as pessoas vão sofrer mais. Geralmente não se tem estoques ou redes de distribuição de comida ou assistência para acidentes. Um outro exemplo é ter um sistema de defesa civil estruturado e com tamanho capaz de fazer frente aos desastres, como no caso das enchentes. No Brasil, quando há uma enchente, são os pobres que sofrem mais, pois eles moram em locais mais sucetíveis às questões climáticas. É por isso que os pobres vão sofrer antes.

O Brasil é um país que tem, por um lado, alguns núcleos ricos e, por outro, grandes massas pobres, e não tem estrutura para atender a todos. Do ponto de vista dos efeitos dos eventos climáticos, o Brasil é um dos países que sofrerá muito. Até porque o Brasil é pouco preparado para lidar com isso. É só ver essas chuvas no final do ano passado, o tipo de problema que tivemos e a capacidade de reação do país, que é extremamente limitada, sem ter uma mapeamento claro de onde podem haver riscos. Umas das prioridades para o Brasil deve ser um mapeamento das áreas de vulnerabilidade climática. Deve haver um estudo prévio que diga: se tivermos um aumento de chuvas na região sul e uma intensidade de ventos, onde isso causará problemas? Tem que ser mapeado, na terra mesmo, e deve haver um plano para atender isso. Deve haver recurso e planejamento, de modo que, quando venha a tragédia, se consiga diminuí-la por já estar preparado. O Brasil não está nada preparado.

Notas:

[1] Yvo de Boer é o atual secretário executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Em fevereiro de 2010, anunciou a renúncia ao cargo, o que acontecerá efetivamente em julho de 2010. Foi diretor-geral adjunto do Ministério do Ambiente holandês, vice-presidente da Comissão das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, consultor do Banco Mundial e do governo chinês.

[2] Arnold Alois Schwarzenegger é um ex-ator, atual governador do estado da Califórnia (Estados Unidos)

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Em entrevista o consultor holandês em finanças ambientais Ivo Mulder explica porque tesouros naturais, como a água, só podem ser salvos se as empresas começarem a pagar pelo que hoje retiram gratuitamente dos ecossistemas

Fernanda B. Muller

O holandês Ivo Mulder, autor do livro “Biodiversidade, o próximo desafio para as instituições financeiras?”, publicado pela União de Conservação Internacional (IUCN), pesquisa há muitos anos as relações entre a preservação ambiental e finanças e acredita que os tesouros da natureza espalhados pelo mundo só podem ser salvos se os setores empresariais e financeiros começarem a internalizar o valor da biodiversidade e serviços ambientais em seus modelos de negócios.

Por isso, é comum ouvi-lo falar em ‘commodização’ da natureza, termo que ele explica nesta entrevista concedida com exclusividade a CarbonoBrasil.

Hoje Mulder atua como conselheiro para projetos internacionais da empresa holandesa Triple E (Economia, Ecologia e Experiência), um centro de conhecimentos focado na relação entre economia e ecologia, operando em parceria com governos, setor privado e ONGs. A organização realiza pesquisas, consultorias e projetos para visualizar e comercializar o potencial econômico da natureza.

O especialista já trabalhou no Escritório de Desenvolvimento de Mercado e Conselhos Estratégicos do Fundo Nacional Holandês para Áreas Rurais, consultor da KPMG Sustaninability e da Sustaintability Finance Ltd., além de ter integrado a equipe do IUCN.

Confira a entrevista a seguir.

O que significa "commoditizar’ a natureza?

Ivo Mulder - É o processo de tentar identificar o valor quantificável da natureza em termos dos bens e serviços que oferece, o que os economistas têm tentado fazer há 20, 30 anos. Os serviços ecossistêmicos que foram identificados como possuidores de  valor de mercado são carbono, água, beleza cênica, qualidade da paisagem e biodiversidade, geralmente relacionados com uma macro-fauna carismática, como o leopardo.

"Commoditizar" a natureza é, por exemplo, você ter um hectare e contabilizar quanto carbono é estocado nele. Se pegar a água, você estimaria quanto a qualidade e quantidade da água melhoraria com a manutenção da qualidade da paisagem ou com a sua restauração para uma unidade de terra. Para o carbono é mais simples de se quantificar.

Mas como você aplicaria isto à biodiversidade?

IM - Neste caso você tenta identificar quais espécies são residentes na área e quais são atraentes para as pessoas. Isso não quer dizer que as outras não são importantes, mas para arrecadar dinheiro você tem que descobrir o que agrada as pessoas e as empresas. "Commoditizar" a biodiversidade seria, por exemplo, determinar quanto terreno um jaguar precisa e quanto dinheiro é necessário para pagar a um proprietário.

Claro que fica mais interessante se você juntar mais de um serviço ecossistêmico em um certificado, como carbono, biodiversidade e até mesmo água e então tentar identificar uma empresa que esteja interessada em proteger a biodiversidade ou compensar as emissões, ou ambos.

A Triple E já organizou alguns leilões para vender estes certificados. Eles foram baseados em certificados de biodiversidade?

IM - O foco era especificamente arrecadar dinheiro, capital, para elementos específicos da paisagem. Os holandeses já estão felizes em restaurar uma paisagem. Os 13 leilões organizados na Holanda e na Alemanha focaram principalmente na qualidade cênica e biodiversidade, pois na Europa Ocidental lidamos com outras questões, diferentes do Brasil. Aqui ainda há muita biodiversidade, as pessoas realmente querem pagar para manter uma paisagem bonita, pagando para restaurar os elementos da paisagem.

Este ano tentamos também uma vez com o carbono em Belize, no que seria o primeiro leilão de certificados de REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação). Neste caso tentamos juntar os valores do carbono e da biodiversidade em um certificado, porém a crise no setor financeiro dificultou a convocação de empresas para o leilão. Entretanto, acredito na idéia.

Sem contar com a crise, quem pagaria por isso?

IM - O primeiro leilão foi organizado no leste da Holanda. Os residentes das cidades, empresas locais, como bancos, escritórios de advocacia, escolas, restaurantes, foram convidados a participar e compareceram. Se esse leilão não fosse organizado este dinheiro não teria sido arrecadado.

Vocês têm projetos no Brasil?

IM - Não no momento.

Vocês pensam nisso?

IM - Certamente gostaríamos.

Fonte: Carbono Brasil

terça-feira, 1 de abril de 2008

Carlos Nobre fala sobre aquecimento global


Carlos Nobre reafirma que depois da publicação do relatório do IPCC não resta dúvida de que somos responsáveis pelo aquecimento global. "O IPCC fez previsões de que o gelo sumiria até 2050. Agora outras previsões recentes estão falando de 2030. Do ponto de vista econômico, muitas companhias de navegação vão comemorar porque farão navegação da Europa à Ásia de um jeito mais fácil. Mas essa mudança é uma mudança brutal que o planeta não vê a 125 mil anos pelo menos. Esse é um ponto sem retorno. O outro é que o derretimento rápido do gelo de parte da Antártica e Groenlândia faria o nível do mar crescer de 3 a 4 metros, não mais em três mil anos, mas em 100 a 200 anos".

O pesquisador do Inpe também fala sobre as conseqüências que o aquecimento global poderá trazer para a floresta Amazônica e se já cruzamos ou não um ponto sem retorno. Leia a seguir a entrevista que ele concedeu ao Notícias da Semana.

Instituto Ethos - Quando saiu o relatório do IPCC , os cientistas foram a fundo nessa história da parcela de culpa da ação humana no aquecimento global, mas agora estão surgindo outras correntes. Os céticos acreditam que o aquecimento da Terra está associado ao curso natural do planeta. Como que o senhor vê isso?

Carlos Nobre - Eu acho que é importante um esclarecimento: o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas é um conjunto, pois dos três relatórios do IPCC há aproximadamente 450 autores e 2500 cientistas que participaram de alguma maneira, muitos revisando os documentos, mandando sugestões, críticas, comentários. Então um relatório do IPCC que saiu no ano passado é um trabalho coletivo de diversos atores. É por isso que ele é muito forte. O que está acontecendo depois da repercussão enorme que esse trabalho teve é que os críticos, alguns da comunidade científica, outros não, vão à mídia, que se baseia em um princípio de ouvir opiniões dissonantes e ficou parecendo que o IPCC 'é um autor'. De repente, começam a aparecer um, dois, três, que criticam. Então essa idéia de pluralismo que a mídia sempre carrega, desbalanceou o discurso, porque o IPCC não é uma pessoa, é um consenso de 2500 cientistas que trabalham em todos os aspectos das mudanças climáticas. E o que você vê é esse enorme consenso sendo debatido contra uma, duas, três pessoas.

Então é importante registrar que o IPCC é feito de uma maneira conjunta, não há autor individual. Não há uma pessoa que responde: "Eu escrevi esse capítulo", ou "Essa é a minha pesquisa", não é assim. E é por isso que ele é forte. Já os céticos, os chamados céticos, que são uma, duas, três pessoas, aparecem mais. Então o equivalente seria os céticos se reunirem e fazerem uma avaliação e uma crítica daquilo, mas eles não fazem, porque não têm tanta densidade e tanto conceito crítico em relação ao relatório do IPCC. Eles usam de uma tática conhecida que é usar a idéia do pluralismo na imprensa para adquirir um peso específico na discussão que eles não teriam coletivamente. Isso é importante mencionar, porque às vezes os nomes dos céticos são muito mais conhecidos do que os nomes do IPCC.

IE - O senhor acha que o aquecimento global está associado a qual fenômeno?
CN - O aquecimento global como nós nos referimos como ação humana é o fato de você estar propiciando uma mudança climática que num planeta em condições naturais pode levar 20 mil anos em 200 anos. Então 200 anos divididos por 20 mil anos é como nós estarmos acelerando os processos naturais 100 vezes. A grande diferença é que processos naturais, globalmente, eles mudam sim, bastante, as temperaturas e as condições climáticas. As condições climáticas no pico das glaciações eram diferentes. Circulações atmosféricas, circulações oceânicas eram diferentes. Nem duvido, isso é muito conhecido. O problema é que nós estamos mudando 100 vezes mais rápido, e essa velocidade é um resultado da ação humana. É uma quantidade muito grande de gases do efeito estufa, esses gases que aquecem a superfície abaixo da atmosfera. Colocamos uma quantidade muito maior do que a atmosfera consegue se livrar.

Não resta quase nenhuma dúvida para a comunidade científica de que o aquecimento global nos últimos 50 anos, com mais de 90% de certeza, é causado pela ação humana. São os gases que a gente emite e ninguém duvida. Por exemplo, absolutamente ninguém duvida que a quantidade desses gases está aumentando na atmosfera. Isso as medidas globais mostram. Ninguém também duvida que a maior parte desse aumento vem da queima de carvão, petróleo, gás natural, florestas, emissão de metano pelo gado, e tudo isso. Então, a pergunta que às vezes tem que ser colocada até para os céticos é: Se você coloca todos esses gases na atmosfera, ao ponto em que em 50 anos nós vamos dobrar a quantidade desses gases em relação ao período pré-industrial, por que esses gases não estariam aquecendo? Se eu fosse colocar uma pergunta para um cético ele teria que explicar qual o mistério do sistema climático. Você dobra a quantidade desses gases que causa o aquecimento e eles não estão aquecendo? Não é verdade, eles estão aquecendo sim, e não há nenhuma coisa tão forte que consiga compensar o aquecimento. O que alguns céticos um pouco mais esclarecidos dizem é que a projeção dos modelos climáticos é exagerada, que realmente os gases estão aí, que os gases aquecem, mas eles acham que o aquecimento é menor do que o que os modelos indicam. Isso eu acho até uma crítica que vale a pena responder.

IE - O senhor acha que há uma possibilidade de mudar em uma velocidade que a ciência pede? Porque tem que mudar já, ontem, mas os acordos multilaterais demoram...
CN - Anteontem, porque os cálculos que são feitos hoje mostram que a gente só teria condição de reverter o aquecimento global se tivéssemos diminuído as emissões depois da Segunda Guerra Mundial, quer dizer, quando não se falava praticamente nisso, a não ser em círculos científicos muito restritos, ainda assim como assunto acadêmico pouquíssimo discutido naquela época. Mas, se a gente tivesse, depois de 1942, procurado uma maneira de substituição de uso, aí, eventualmente, conseguiríamos reverter a situação e a temperatura voltaria a ser o que era antes da Revolução Industrial. Quando nós nos demos conta do fenômeno, já na década de 1990, quando o mundo se preparou para responder ao fenômeno na Convenção do Clima, em 1992, no Rio de Janeiro, e com o Protocolo de Kyoto, ai já era muito tarde, e não dava para reverter. O máximo que 'otimisticamente' falando é possível fazer é tentar estabilizar as concentrações na atmosfera num nível que permita que a temperatura não suba muito mais do que 2 graus ou 2 e meio graus. E isso é um esforço gigantesco. É isso o que a ciência está dizendo que deve ser feito. Até porque até a ciência sabe que não dá mais para reverter. E já se tornou irreversível numa escala de milhares de anos. Não dá para abaixar a temperatura em milhares de anos.

IE - O senhor acha que a gente vai conseguir ter essa mudança cultural, que isso vai vir das pessoas, delas mudarem seu padrão de carro, de construção, tudo isso que vem sendo demandado?
CN - Olha, é necessário. É muito difícil fazer previsão sobre como sistemas sociais respondem a desafios. É difícil prever a evolução futura de respostas de sistemas sociais, de sistemas humanos. Por isso, eu acho que seria um pouco irresponsável eu prever como será a resposta. O que eu posso dizer é que isso é absolutamente necessário. Agora, a inércia das instituições globais para tratar desse problema é muito grande, nós estamos vendo as dificuldades que os países têm em acordar sobre metas rápidas e urgentes de redução, alguns estão mais avançados, como a Europa, outros estão mais atrasados, como os Estados Unidos. Então, por que eu não posso ser nem pessimista nem otimista? Não posso ser pessimista porque sistemas humanos às vezes mudam rapidamente, as transições culturais não são lentas e suaves, onde você consiga ver um padrão. De repente muda. E tanto para um lado quanto para o outro. Pode ir para um lado mais otimista, onde as pessoas rapidamente adquirem uma nova consciência e a tecnologia está avançando para tornar o planeta mais limpo. Essas tecnologias podem ser implementadas ou não. Ou ainda pode ir para o outro lado também, em que as pessoas não se importam muito porque poderá significar muitas alterações no estilo de vida, nos hábitos delas, e aí demorar muito mais. Não há como prever evolução de sistemas humanos. Eu trabalho muito em pesquisa em questões da Amazônia, quer dizer, eu estou trabalhando exatamente nisso agora, quero ver se consigo desenvolver umas pesquisas para saber quando que a gente cruzaria num ponto sem retorno para a Amazônia, acho que não cruzamos ainda.

IE - O senhor acha que não cruzamos ainda?
CN - Não, na Amazônia não cruzamos ainda, acho eu. Estamos estudando muito isso, mas eu quero ver se a gente consegue aumentar a nossa capacidade de previsão, quais seriam os limites para a Amazônia de aquecimento global, de desmatamento, de tal modo que se passássemos esses limites a Amazônia mudaria muito a floresta, já que a floresta vai perder muito e aí não tem mais volta, pelo menos não tem mais volta numa escala de séculos e séculos e séculos.

IE - Mas pelo o que o senhor tem visto, estamos próximos desses limites?
CN - Não, aí não dá para dizer, da Amazônia não dá para dizer.

Maria Luiza Malozzi /Edição: Andréa de Lima

Fonte: Instituto Ethos

“O planeta necessita de uma revolução energética”, afirma Christopher Flavin, presidente do Worldwatch Institute


Desde o início da Revolução Industrial, em meados do século 18, até os dias de hoje, as emissões de gases de efeito estufa têm aumentado de forma expressiva. Enquanto, naquela época, a taxa de CO2 na atmosfera não ultrapassava 240 ppm (partes por milhão), nível considerado normal pelos cientistas, hoje, com a ação humana, o gás carbônico na atmosfera já chegou a 370 ppm. Alguns estudos indicam que a partir de 450 ppm a vida humana no planeta pode tornar-se inviável. Para reverter essa situação, será necessário reduzir 20% das emissões de CO2 até 2020.

"O planeta precisa de uma revolução no setor energético." Essa é a opinião de Christopher Flavin, presidente do Worldwatch Institute, organização não-governamental sediada nos Estados Unidos, conhecida por suas pesquisas no setor energético e por publicar anualmente o relatório O Estado do Mundo. "As energias renováveis e a eficiência energética se tornaram elementos fundamentais para o planeta. Assim, os países precisam usar menos energia e menos recursos naturais para fazer funcionar sua economia e infra-estrutura", afirma Flavin. "E isso precisa ser pensado desde já, pois mudar todo o sistema de energia leva muito tempo. Os investimentos de hoje irão definir o tipo de energia que teremos nas próximas décadas."

Segundo Flavin, foi no início do século 20 que as energias renováveis ganharam força. De 1907 para cá, a capacidade de produzir energia a partir dos ventos aumentou e as máquinas se tornaram mais dinâmicas. Os Estados Unidos, seguidos pela Índia e China, tornaram-se líderes nessa tecnologia, que ainda se desenvolve de forma lenta. Já a energia solar experimentou um boom nas últimas décadas, sobretudo no Japão, na Alemanha, na China e nos Estados Unidos. Este último conta com o Vale do Silício, pólo tecnológico localizado ao norte do Estado da Califórnia, que, ao promover avanços tecnológicos e o uso de energias renováveis, fez com que o setor se tornasse competitivo e uma oportunidade de negócios. "Multinacionais como a Mitsubishi, grupos como Citibank, pequenas indústrias e empresas de capital de risco passaram a apostar em energia limpa. De 1995 até 2007, US$ 50 bilhões foram investidos em energias renováveis", explica. "Esses avanços também são resultado de uma política de governo que tem dado subsídios e incentivos para as energias renováveis. É preciso investir em alternativas ao petróleo."

Essa idéia também é compartilhada por Corrado Clini, diretor-geral do Ministério do Meio Ambiente da Itália e presidente do Comitê de Mudanças Climáticas do G8 (grupo dos sete países mais industrializados e a Rússia). Clini destacou que, apesar da necessidade de baixar as emissões de CO2, estima-se que até 2025 a demanda por combustíveis fósseis deve aumentar em 80%. "Nosso desafio não é apenas teórico. Estamos enfrentando uma questão de prazo. Para mudar esse cenário é preciso reorientar os investimentos", acredita. "Hoje o uso de biomassa representa 11% do portfolio de energia. Esse índice pode chegar a 25% nas próximas décadas."

Cline lembrou alguns resultados desastrosos para a sociedade e para o meio ambiente provocados pelo mercado de biocombustível. Segundo ele, a demanda por milho nos Estados Unidos, no início do ano, fez com que o produto desaparecesse dos supermercados, causando riscos para a segurança alimentar de países como o México. Uma situação similar aconteceu na Indonésia. O óleo de palma produzido localmente era utilizado como biocombustível por países europeus. Constatou-se, no entanto, que, para atender a essa demanda, a floresta tropical indonésia estava sendo devastada. Em razão disso, o país chegou a emitir 2 bilhões de toneladas de gás carbônico por ano.

"O G8 está estudando regras para que o mercado de biocombustíveis não cause resultados desastrosos para a sociedade ou para o meio ambiente", afirma Clini. As negociações ocorrerão no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). Para ele, uma das formas de evitar que problemas dessa ordem ocorram é rotular os produtos com informações sobre procedência e forma de obtenção. Mas Clini adverte que é preciso ser muito cauteloso ao esbarrar nos interesses dos países produtores de petróleo. "Fui avisado pelo secretário-geral da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) que, caso o G8 continue apoiando o uso de biocombustíveis, o fornecimento de petróleo poderá ser cortado."

Corrado Cline e Christopher Flavin estiveram no Brasil em novembro de 2007 para participar da Eco Power Conference, evento internacional sobre energia renovável e mudanças climáticas ocorrido em Florianópolis (SC). Flavin falou com o Notícias da Semana sobre o cenário do setor energético no Brasil e sobre os subsídios e incentivos para a eficiência energética na Califórnia. Veja a seguir os principais trechos da entrevista.

Instituto Ethos: O senhor afirmou que os atuais investimentos no setor energético vão definir o tipo de energia que o país terá durante as próximas décadas. A partir desse ponto de vista, qual a análise que o senhor faria do Brasil?
Crhistopher Flavin: Acredito que o Brasil está definitivamente caminhando para o lado certo. O país tem avançado muito rápido tanto em eficiência energética quanto em energias alternativas. Exemplo disso é a indústria brasileira de etanol, que tem progredido tecnologicamente e passou a preocupar-se com as questões ambientais ligadas ao cultivo da cana-de-açúcar, como a queimada. O Brasil está investindo mais em energia eólica e a idéia de construções verdes está crescendo. Mas acredito que os brasileiros ainda possam fazer muito mais do que estão fazendo hoje, pois, em minha opinião, o Brasil é um dos países mais ricos em recursos naturais no mundo.

IE: Como o Brasil poderia fazer uso de sua energia de forma mais eficiente?

CF: O Brasil precisa adotar padrões mais severos em relação à sua frota de veículos e também prestar mais atenção no setor de construção. Além disso, o país deveria adotar incentivos econômicos para reduzir o consumo de energia elétrica e introduzir novas tecnologias que promovam a eficiência energética. Acho que esses são os pontos-chave.

IE: Quanto os Estados Unidos têm investido em energias renováveis?

CF: Em 2007, os americanos investiram US$ 17 bilhões de dólares em energia limpa. Entre os investidores estão bancos, empresas de capital de risco e o próprio governo.

IE: O senhor disse que as empresas de energia na Califórnia estão ganhando mais por vender menos energia. Como seria isso?

CF: A Califórnia está regulamentando as atividades das empresas de energia elétrica que atuam no estado. Até mesmo a forma de essas empresas obterem lucro é regulada pelo governo. Uma empresa de energia não funciona como outra empresa qualquer, que vende seu produto pelo valor de mercado. No caso delas, o preço do produto é determinado pelo governo, que além de tudo decide qual deve ser o lucro. O que o governo da Califórnia fez foi mudar a forma de incentivo. Ele determinou que o lucro das empresas de energia não será de acordo com as vendas, mas conforme os investimentos que as empresas fazem em eficiência energética. Assim, mesmo quando as vendas caem, elas podem continuar investindo em tecnologias mais eficientes. É uma forma complexa de regulamentar, mas, por ser baseada em princípios, não é difícil de ser implementada. Como resultado dessa regulamentação, a Califórnia está consumindo a metade da energia que outros estados americanos consomem.

IE: O G8 acredita que uma das formas de incentivar a eficiência energética é rotular os produtos que vão para o mercado internacional. Qual é sua opinião sobre isso?
CF: A questão da rotulagem é muito complexa. No caso dos biocombustíveis, por exemplo, ela envolve aspectos como as emissões de gás carbônico, o tipo de terra que está sendo usado para plantio, o que era plantado ali anteriormente, questões trabalhistas, etc. Uma única diretriz não resolveria o problema. Mas, com certeza, a União Européia deve iniciar esse processo.

IE: E quanto à questão dos subsídios? Os Estados Unidos e os países da Europa Ocidental desistiriam de subsidiar o biodiesel que produzem?

CF: Existe muita pressão para que os subsídios sejam eliminados. Por outro lado, a indústria do biodiesel está crescendo muito, o que leva ao aumento dos preços das commodities agrícolas. Com isso, em princípio fica mais fácil baixar os subsídios, pois os preços já estão altos. Ao mesmo tempo, há um enorme interesse econômico nos produtos agrícolas, tanto nos países da Europa quanto nos Estados Unidos. Mas eu acho que estamos próximos de ver algum progresso em relação aos subsidios, sim. Haverá pressões muito fortes para que o sistema atual seja reformulado.

A jornalista Giselle Paulino foi para a Eco Power Conference a convite da organização do evento.

Fonte: Instituto Ethos

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Aquecimento Global - o IPCC tem tudo de político e nada de científico

Entrevista do jornal portugues Expresso (9/2/2008) com João Corte-Real, 65 anos, o mais antigo investigador português do clima e o único professor catedrático em meteorologia do país (Universidade de Évora).

Embora esta entrevista inclua questões de carácter climático e de carácter ambiental, esta transcrição, parcialmente truncada, abarca apenas a parte climática. Para ver a entrevista na totalidade consulte o site do Expresso.



Corte-Real: "Não estamos à beira de qualquer catástrofe"

Expresso: Estamos à beira de uma catástrofe nas alterações climáticas?

Corte-Real: Acho que não vai haver qualquer catástrofe (...) Falar em catástrofe não é científico, não é humano, é uma forma primitiva de apresentar as questões.

Expresso: Porquê?

Corte-Real: O clima não é uma constante, é por natureza variável, e o planeta Terra já foi sujeito a alterações climáticas no passado, para climas mais quentes e mais frios, e nunca houve um fenómeno catastrófico.

Expresso: Os dados sobre o clima são fiáveis?

Corte-Real: Há resultados de observações que apontam para uma alteração do clima e eu não os vou pôr em causa. O que ainda é discutível é se o homem é o principal responsável por essa mudança, isto é, não há certezas em relação às causas principais do fenómeno.

Expresso: Portanto, aposta mais em medidas adaptativas do que em medidas para contrariar o aquecimento global...

Corte-Real: Em relação ao clima, como este é o apuramento estatístico de um certo período temporal - de 30 anos, no mínimo -, aí não temos ainda previsões. (...) Não temos a certeza se o lançamento para a atmosfera de gases ditos com efeito de estufa é a principal causa das alterações climáticas.

Expresso: Será possível prever um dia o clima?

Corte-Real: Sim, com os desenvolvimentos tecnológicos, quer nas observações quer no cálculo científico, tal como hoje temos previsões do tempo. Agora, os actuais modelos de clima terão de ser muito melhorados em certos aspectos.

Expresso: Em quais?

Corte-Real: Repare que os actuais modelos estão a ser forçados para aquecer e, por consequência, se os processos naturais que podem contrariar o aquecimento estiverem mal representados nos modelos, obviamente que eles vão dar aumentos de temperatura que não se vão observar. É essa uma das razões por que prestigiados cientistas como Richard Lindzen, professor de meteorologia do MIT, não acreditam na corrente de pensamento dominante. Ele argumenta, e com razão, que o papel das nuvens, que é fundamental, está pessimamente representado nos modelos de clima existentes. E, de facto, estes modelos são ainda muito limitados - apesar de terem evoluído de uma forma fantástica - porque os processos ligados ao clima são muito complexos. Não é fácil estar a entender e a modelar estes processos.

Expresso: Ainda não há uma Teoria do Clima?

Corte-Real: Não, e é esse o problema. Enquanto nos limitarmos a utilizar estatisticamente resultados de modelos imperfeitos, as coisas não vão avançar muito. Mas os cientistas que usam métodos estatísticos quer para tratar observações quer para tratar de resultados de modelos não são para descredibilizar. Há muitas incertezas ligadas a esta problemática. Temos de investigar mais, de melhorar mais os modelos e de procurar entender os processos.

Expresso: As conclusões do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU são credíveis?

Corte-Real: O IPCC é formado por um conjunto de pessoas que vão traduzir o trabalho da comunidade científica. São pessoas credíveis, agora não podemos esquecer que o Painel é politicamente orientado, as suas conclusões não são puramente científicas. E são apresentadas em termos probabilísticos, porque o IPCC toma as suas precauções na forma como fala. Mas também reconheço que muitas das pessoas que, em Portugal e fora do país, estão ligadas a esta problemática das alterações climáticas não são cientistas do clima.

Expresso: Então por que estão eles envolvidos no processo?

Corte-Real: Por causa da tal orientação política e porque as novas formas de produção de energia, justificadas pela necessidade de reduzir as emissões, envolvem interesses económico-financeiros, tal como as energias fósseis. Em Portugal há uma dezena de cientistas ligados ao clima que está fora de todo o processo nacional e internacional de preparação de medidas para enfrentar as alterações climáticas. A composição da delegação portuguesa na Cimeira de Bali é um bom exemplo desta realidade.

Expresso: E quanto aos fenómenos naturais?

Corte-Real: Olhe, em 2007/2008 temos um bom exemplo: estamos a viver um fenómeno que começa no hemisfério Sul, o La Niña (o oposto do famoso El Niño), bastante intenso, que provocou anomalias em várias regiões do globo. Quando há um El Niño há um aquecimento global da troposfera. Acredita-se que foi devido ao La Niña que o último Verão foi fresco e chuvoso, por exemplo. O instituto meteorológico do Reino Unido já veio dizer que 2008 vai ser provavelmente o ano mais frio depois de 2000 por causa do La Niña. Isto justifica os fenómenos extremos que se têm registado no mundo, sobretudo na América do Sul. Esses fenómenos são preditíveis, as suas consequências são conhecidas e pode haver, por isso, uma intervenção humana para os mitigar.

Expresso: O clima na Europa está mais quente?

Corte-Real: Um trabalho de investigação feito pelo investigador João Santos, da Universidade de Évora, no âmbito do projecto europeu MICE (Impactos Extremos de Clima na Europa) conclui que sobre a Europa, quer na temperatura mínima quer na máxima, o número de episódios frios (em que as temperaturas mínima e máxima estiveram abaixo da média) diminuiu entre 1961 e 1990, e o número de episódios quentes aumentou. Mas esse aumento não foi uniforme, deu-se sobretudo numa parte da Europa do Norte e no Mediterrâneo Ocidental. Quando se fala em aquecimento global, não quer dizer que ele se dê em todos os lados e em todos os locais. Quer antes dizer que o positivo dominou o negativo na evolução das temperaturas. João Santos verificou também que a grande responsabilidade destas distribuições de temperaturas no período de referência (estamos a falar em dados reais e não em cenários) é devida à Oscilação do Atlântico Norte (NAO). Registaram-se anomalias aquecimentos nuns lados, arrefecimentos nos outros - porque houve uma predominância da fase positiva da NAO em 1961-1990. Isto significa que não nos temos que reportar necessariamente a alterações climáticas.

Expresso: Além do NAO, há outros exemplos?

Corte-Real: Há também a chamada Oscilação Decadal do Pacífico, de baixa frequência, que acontece de 10 em 10 anos, que é referida por um cientista brasileiro que também não acredita nada no aquecimento global, Luís Carlos Molion, da Universidade de Alagoas, em Maceió. Segundo ele, o clima global é muito condicionado por esta oscilação na temperatura das águas do Pacífico (que sobe ou desce). E constata que esta oscilação está a caminhar para a sua fase negativa, o que significa que a partir de 2012-2015 vamos começar a ver as temperaturas na atmosfera a descer. Eu não sei se ele tem razão ou não, mas o que de facto sabemos é que quando determinadas oscilações estatísticas persistem, vão criar anomalias de tempo, de temperatura. Se existirem oscilações de grande período (de baixa frequência), podemos estar a sentir uma subida de temperatura e julgar que é uma tendência, quando na verdade não é.

Expresso: E como pode a ciência explicar estas diferenças?

Corte-Real: A atmosfera tem de obedecer às leis da Física, que obrigam a certos balanços de massa, de energia, de momento angular, etc. A circulação da atmosfera tem de ser feita para satisfazer esses balanços globais. Quando as temperaturas excedem um limiar, a atmosfera desestabiliza-se e criam-se perturbações (as frontais, as frentes) que acabam com a instabilidade. Portanto, podem acontecer ciclones tropicais para redistribui energia e momento angular. E isso pode explicar muita coisa, não é preciso pensar só em alterações climáticas.

'Ambientalista cético': Combater aquecimento não compensa

Daniel Gallas
De São Paulo

Em 2001, quando o painel da ONU que estuda mudanças climáticas (IPCC, na sigla em inglês) lançou seu terceiro relatório, um livro publicado por um cientista dinamarquês causou polêmica ao dizer que a questão do aquecimento global estava sendo exagerada.

Em O ambientalista cético, Bjorn Lomborg argumenta que iniciativas como o Protocolo de Kyoto e esforços de redução das emissões de carbono podem até ser eficientes para combater o aquecimento global, mas que eles trariam poucos benefícios a alto custo.



Segundo ele, outras prioridades – como combate à aids e redução da pobreza – poderiam ter um efeito mais desejado no bem-estar geral e até no meio ambiente.

Seis anos depois, depois de muita polêmica e até um processo na Dinamarca, o movimento dos “ambientalistas céticos” cresceu, recebendo adesões de vencedores do prêmios Nobel.

Em 2004, Lomborg formou o Consenso de Copenhagen – grupo que propõe priorizar outras questões econômicas acima do combate ao meio ambiente.

Neste ano, enquanto escreve a continuação de O ambientalista cético, Lomborg pretende trazer suas idéias para a América Latina, para formar a Consulta de São José, na Costa Rica, uma versão regionalizada do Consenso de Copenhagen.

Lomborg conversou por telefone com a BBC Brasil sobre aquecimento global.

BBC Brasil - Em seu livro, publicado há alguns anos, você diz que o problema do aquecimento global estava sendo exagerado no debate global. Isso ainda é verdade hoje?

Lomborg - Mudança climática não é o único problema no mundo. O que podemos fazer contra mudanças climáticas trará benefícios relativamente baixos a custos relativamente altos.

Estou perguntando: essa é a forma correta de ajudar o mundo? Minha resposta é, em grande medida, não. Mudança climática é algo que precisamos consertar, mas é um problema de longo prazo, e certamente não é o problema mais importante do mundo.

BBC Brasil - Em 2004, o Consenso de Copenhagen classificou os problemas econômicos do mundo em diferentes categorias. Mudanças globais foram classificadas como prioridade “muito baixa”. Isso ainda é verdade?

Lomborg - Sim. O principal a ser dito sobre isso é que o painel da ONU sobre mudanças climáticas vai repetir as avaliações passadas, apenas com mais certezas.

O que nós (do Consenso de Copenhagen) estamos dizendo é que mesmo que todos, incluindo os Estados Unidos, assinassem o Protocolo de Kyoto, isso mudaria virtualmente nada daqui a cem anos. Isso adiaria o aquecimento global em cerca de cinco anos.

E o custo disso seria de US$ 180 bilhão por ano. Isso não é muito bom. É um preço muito alto. É isso que o Consenso tem tentado mostrar: que com todo esse dinheiro é possível fazer o bem em outras partes do mundo.

BBC Brasil - Nos Estados Unidos, o consenso geral tem sido oposto. As preocupações ambientais estão se espalhando por diversas correntes. O democrata Al Gore lançou um filme e um livro sobre preocupações com o meio ambiente e até mesmo o presidente americano citou as mudanças climáticas em seu discurso no Congresso. Eles estão todos errados?

Lomborg - O problema é ter muitas pessoas se preocupando demais apenas com um assunto. Se você se preocupa demais com um assunto, você deixa de se ocupar com outros problemas.

Estou feliz que muitas pessoas nos Estados Unidos se preocupam tanto com o resto do mundo. Só fico um pouco triste de ver que eles se preocupam com o mundo de uma forma tão particular que estão determinados a fazer pouco bem a um custo muito alto. Eles poderiam fazer muito mais, com baixos custos.

BBC Brasil - Qual é sua opinião sobre o filme e o livro de Al Gore, 'Uma verdade inconveniente'?

Lomborg - É muito alarmista. Pega apenas as piores previsões possíveis e conta histórias de aterrorizar. Só leva as pessoas a imaginarem que esse é um problema muito mais grave do que ele realmente é.

BBC Brasil - Na sua avaliação, então, as Nações Unidas deveriam abandonar o esforço de coordenar medidas globais de combate às mudanças climáticas?

Lomborg - Não. É bom que tenhamos o IPCC. Pesquisa não custa muito dinheiro. Mas deveríamos estar mais preocupados em fazer com que as Metas do Milênio sejam concretizadas, em vez de se ocupar com emissões de carbono. Isso trará muito mais benefícios com custo muito menor.

BBC Brasil - As prioridades de hoje ainda são o combate ao HIV e a liberalização do comércio?

Lomborg - Pretendemos continuar discutindo essas questões e revisar o Consenso de Copenhagen a cada quatro anos. Vamos refazer o Consenso no ano que vem, em 2008, onde atualizaremos todas essas prioridades. Vamos discutir: há novas informações? Há alterações, tanto em mudanças climáticas.

Também haverá uma reunião do grupo em São José (Costa Rica), chamado Consulta de São José, em conjunto com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em outubro deste ano. Teremos especialistas da América Latina discutindo quais são os principais problemas na região. Esses especialistas vão analisar: “o que podemos fazer na América Latina com recursos limitados?”.

(BBC Brasil)

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Relações entre ONGs e empresas: questão de princípios

por Marcelo Medeiros

Recentemente, o Ibase divulgou seu Código Interno de Relações com as Empresas. Elaborado para deixar clara sua postura nas suas relações com empresas privadas, o documento reflete a preocupação da organização no que diz respeito à coerência com suas posições políticas, em suas relações institucionais. “O Ibase faz parte de uma campanha contra a liberação de transgênicos. Não dá para estabelecermos parcerias com quem patrocina esse tipo de mercadoria”, exemplifica Ciro Torres, diretor de Responsabilidade Social da ONG, uma das maiores do país.

Em entrevista à Rets, Torres detalha os critérios utilizados na elaboração do código e fala sobre a relação entre empresas e organizações não-governamentais, além de comentar algumas práticas de responsabilidade social realizadas por grande companhias. Para abordar este assunto, ele faz menção a outra novidade divulgada pelo Ibase – a queda do número de empresas que receberão o selo Balanço Social Ibase/Betinho em 2007. Das 60 empresas que se candidataram, apenas 13 cumpriram todas as exigências, este ano mais rígidas. Além da transparência, foi pedido o cumprimento de legislação de inclusão social, como a de cotas para pessoas com deficiência, [o que derrubou a maioria], e investimentos socioambientais. “O discurso de responsabilidade social tem crescido, mas pouco tem sido feito na prática”, critica o diretor.

Rets - O Ibase lançou um documento no qual considera riscos e critérios de associar sua imagem à de empresas. Que riscos e critérios são esses?
Ciro Torres - Vou dar alguns exemplos. O Ibase faz parte de uma campanha
contra a liberação de transgênicos. Não dá para estabelecermos parcerias com quem patrocina esse tipo de mercadoria. A mesma coisa ocorre em relação ao software livre. Há tempos apoiamos o uso desse tipo de programa, logo não podemos aceitar patrocínio da Microsoft, por exemplo. É uma questão de coerência com nossos princípios. Não estamos dispostos a dar palestras em eventos, apoiar campanhas ou qualquer outra iniciativa relacionadas a essas empresas.

Rets - A ausência em palestras não impede o debate?
Ciro Torres - Estamos dispostos a dialogar, claro. Não nos negamos a ir a qualquer debate com qualquer empresa, seja ela contrária aos nossos princípios ou não. Apenas nos negamos a participar de eventos promocionais destas companhias. Quando entramos como palestrantes ou debatedores neste tipo de evento, há sempre um aspecto político a ser considerado.

Rets - E quais são os critérios adotados pelo Ibase?
Ciro Torres - O principal fundamento desta iniciativa é “um outro mundo com empresas é possível, mas não de qualquer jeito”. Outro ponto a ressaltar é que não podemos colocar o lucro acima da ética. Não afirmamos ser necessário um mundo sem empresas, mas não vamos pedir apoio ou patrocínio a quem atua em campos opostos ao nosso. É uma questão de princípios.

Rets - Na declaração, o Ibase afirma que se reserva o direito de romper
relações com empresas que estejam sendo questionadas por ONGs, campanhas e investigações. Não seria mais prudente esperar uma condenação?
iro Torres -
Como instrumento político, não podemos depender apenas do fator
jurídico. É preciso levar em consideração parcerias e redes que formamos. A idéia é evitar entrar em conflito, mas seria uma incoerência não levarmos adiante as campanhas de nossas parceiras e seus pontos de vista.

Rets - O Ibase lançou recentemente uma prévia da lista de empresas aptas a receber o selo de Balanço Social. A procura pela obtenção do selo tem aumentado?
Ciro Torres - Sim, bastante. Em 2006, 54 empresas formalizaram o pedido pelo selo. Este ano, foram 60.

Rets - Não é um número pequeno?
Ciro Torres - Mais ou menos. Há pouco tempo, tínhamos apenas 20 pedidos por ano. Além disso, é preciso recordar que nosso alvo são grandes empresas e médias-grandes. Portanto, o número não é tão pequeno assim. Mas é claro que poderia ser maior. É sempre bom lembrar que apenas se candidata quem acredita que possa conseguir o selo. A quantidade de interessados que acabam não se candidatando é bem maior.

Rets - Apesar do aumento da procura, o número de empresas que conseguiram o selo diminuiu. Os critérios estão mais rigorosos?
Ciro Torres - Antes, não analisávamos o conteúdo dos formulários, apenas defendíamos um modelo de transparência corporativa. Há três anos vínhamos avisando que passaríamos a questionar cada item. Pedimos investimentos externos, em educação, na promoção da diversidade, em meio ambiente, na igualdade de oportunidades de gênero e raça.

Muitas empresas não passaram por esses critérios, apesar de toda a transparência. Das 60 requerentes, 47 foram reprovadas em ao menos um item. Dessas, 39 não cumpriram a legislação de cotas para pessoas com deficiência, uma lei que já foi regulamentada há nove anos. Essa cota, que varia de acordo com o número de funcionários, não foi uma invenção nossa, um critério do Ibase. É uma lei que está sendo descumprida. Nossa idéia foi chamar a atenção para esse problema. O discurso de responsabilidade social tem crescido, mas pouco tem sido feito na prática. Não há espaço para pessoas com deficiência. Na maioria das empresas, elas não passam de 1% do quadro de funcionários. Em alguns casos, esse índice deveria chegar a 5%. Outras oito empresas não investiram em meio ambiente. Ou seja, apesar de serem
totalmente transparentes em suas práticas, as ações socioambientais não mudam.

Rets - O discurso de responsabilidade social, portanto, não está sempre amparado em práticas?
Ciro Torres - Este é um desafio importante. As boas práticas precisam avançar e as empresas precisam também começar a apresentar resultados.

Rets - Houve reclamações pela mudança de critérios para obtenção do selo?
Ciro Torres - Avisamos sobre a mudança com antecedência para que ninguém fosse pego de surpresa e todas as empresas assinaram termos de compromisso de buscar atender os novos critérios. Algumas entendem, outras choram. Mas é preciso ter cuidado para que esse tipo de ação não seja algo voltado apenas para conseguir prêmios ou selos.

Rets - Falamos sobre relações de ONGs e empresas. Como ficam estas relações? É possível que as organizações consigam apoio empresarial sem se comprometer?
Ciro Torres - Acho possível, desde que esses apoios sejam transparentes e autônomos. Se uma organização consegue manter a transparência e ter autonomia total em seu pensar e agir, sempre de acordo com os seus princípios públicos, não vejo problema algum em firmar parcerias. O que não se pode é, no momento de desespero financeiro, por exemplo, aceitar apoio de qualquer um.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Desmatamento zero

João Teixeira da Costa e Manoel Francisco Brito

31.03.2007

Professor Carlos Cerri, aos 70 anos de idade, é um veterano das trincheiras do aquecimento global. Começou a acompanhar o debate científico sobre o efeito estufa ainda na década de 80. Em 1994, estava em Paris, participando da elaboração de parâmetros de emissão e seqüestro de gases para o agora manjadíssimo IPCC, ou International Panel on Climate Change. O trabalho serviu de base para o Protocolo de Kyoto e definiu as valorações iniciais de um mercado então inexistente, o de crédito de carbono. O Brasil não se beneficiou diretamente de Kyoto. Mas poderia.. Faltou um pouquinho mais de método. “Nós seqüestramos desde Kyoto o equivalente a 10 milhões de toneladas de carbono. Foi uma mitigação importante. Mas nunca contabilizamos a nosso favor”, diz Cerri. Um problema técnico impediu a vitória diplomática na época em que o tratado foi escrito.

“Perdemos na falta de metodologia para medir o seqüestro pelo solo. Sem ela, não houve sustentação política para colocar o assunto no texto”, insiste. As deficiências de método não foram inteiramente resolvidas. “Seqüestro de carbono pelo solo ainda hoje é difícil de avaliar. E as medições de fixação continuam com muitas incertezas”, lembra ele. Mas a ciência sobre o assunto está cada vez mais robusta. Em grande parte, graças ao seu trabalho. Desde a década de 90, Cerri juntou suas duas paixões intelectuais, a agronomia e a geologia, e pôs sua lupa de cientista na expansão da fronteira agrícola em Rondônia e Mato Grosso. Foi estudar o solo da região e seus tipos de uso para encontrar a solução para seus dilemas de medição. Não resolveu todos e deu com outros. Hoje, comanda uma equipe de 17 alunos de pós-graduação que palmilha os dois estados fazendo investigações para uma pesquisa que tem a parceria da NASA e de três universidades do exterior. Ele disponibilizou para os leitores de O Eco um artigo seu e daquele que talvez seja o seu colaborador mais próximo, seu filho Carlos Eduardo. É uma introdução ao tema agricultura e aquecimento global, que será publicado no Boletim da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo.

Eles estudam os impactos da agricultura no aquecimento global, quais os meios para mitigá-lo e como estabelecer mais metodologias de medição que possam ser aplicadas no mercado de crédito de carbono. “No Brasil, a agricultura e o uso da terra é responsável por 75% das emissões anuais de gases do efeito estufa”, diz Cerri, que apesar disso, não tem nada contra fazendeiro. Muito de suas pesquisas tem a ver com o uso de mecanismos para melhorar a produtividade da terra e reduzir seu impacto ambiental. Ele afirma que o país ainda tem muito espaço para ampliar a sua agropecuária de larga escala. Não, não se trata de fazê-la crescer em cima de floresta. Cerri estima que há 150 milhões de hectares de pasto improdutivo e terra degradada pelo país. “Dá para expandir cana, soja e boi à vontade, sem precisar cortar sequer mais uma árvore”. O número e sua óbvia conclusão não foram as únicas coisas surpreendentes que Cerri revelou ao longo das três horas em que ele concedeu, no seu escritório na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queirós (ESALQ), da USP, uma entrevista para O Eco.

Seu trabalho de pesquisa hoje se concentra em Mato Grosso e Rondônia.

Carlos Cerri - Hoje não. Estou naquela região há 20 anos, acompanhando a expansão da fronteira agrícola e olhando seu impacto no aquecimento global. É que agora é que esse assunto ficou na moda.

Quanto do agronegócio está nessa região?

Cerri - Quarenta e cinco por cento da fronteira agrícola do país está lá. Estou avaliando o impacto ambiental provocado pela conversão e uso da terra devido às emissões de gases do efeito estufa, como CO2, CH4 e N2O nos últimos 30 anos. E desenvolvendo um modelo para prever os impactos futuros da atividade agrícola. Parte do trabalho envolve investigar a degradação do solo e as implicações sócio-econômicas da expansão agrícola naquela área. Os resultados que conseguirmos poderão ser usados para mitigar o aquecimento global, sem perder de vista a produção de alimentos e o desenvolvimento sustentável da Região Amazônica.

Você pode explicar um pouquinho melhor?

Cerri - Minha pesquisa fundamental é sobre o impacto da agricultura no aquecimento global. Olho muito pouco para as consequências do aquecimento global para a agricultura.

E por quê?

Cerri - Porque eu não tenho fôlego, embora não tenha o que reclamar do tamanho da equipe e da estrutura que disponho. Eu tenho uma base de dados aqui, laboratórios na Amazônia e 17 alunos de mestrado e doutorado. Estamos sempre no campo. E tem o pessoal que vem de fora, porque esse trabalho é levado a cabo em conjunto com a NASA e várias universidades como Brown e Colorado, nos Estados Unidos, e Montpellier, na França.

Não, mas por que você escolheu a primeira opção?

Cerri - Porque a outra é muito recente. Ainda está no começo.

E qual a aplicação desse trabalho?

Cerri - Eu estudo três grandes tópicos: um são as conseqüências dessa expansão agrícola, outro a bioenergia e, finalmente, a criação de metodologias de medição que possam ser usadas no mercado de crédito de carbono. Principalmente no setor florestal. Mas para simplificar, minha pesquisa busca desenvolver metodologias que possam ser incluídas no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) do Tratado de Kyoto, permitindo que o país participe de maneira mais ativa no mercado mundial de crédito de carbono.

Você é um velho defensor do uso do plantio direto na agricultura por conta de seus benefícios ambientais e econômicos. Por que ninguém usa no Brasil?

Cerri -É o que você pensa. Trinta por cento da agricultura nacional empregam o plantio direto, que é uma técnica de preparação do solo para a semeadura. A técnica dominante no Brasil foi herdada dos europeus e desenvolvida para solos que se submetem todo o ano a um inverno mais rigoroso. Na Europa, não há nenhum grande dano causado por passar arado no solo e deixá-lo como se fôsse uma mesa. Em países quentes como o Brasil, mexer no solo desse jeito é quase uma revolução. O solo é um ser vivo, com microorganismos como a bactéria e o fungo, que se utiliza da matéria orgânica para obter a sua fonte de energia, o carbono.

Desviamos do plantio direto. Acabamos no solo.

Cerri - Calma. Vou chegar lá.

Então estamos no solo. O daqui é diferente do da Europa?

Cerri - A diferença fundamental é de temperatura. Então o microorganismo ao retirar este carbono do húmus, da matéria orgânica do solo, se multiplica, emitindo gas carbônico, num processo semelhante ao nosso humano com as fezes. E que vão para atmosfera. O grau de atividade dos microorganismos depende da temperatura e da quantidade de oxigênio e água Na Europa isso não tem muita importância, porque a temperatura é muito baixa e os microorganismos não são muito ativos. Ao contrário da Europa, temos temperatura elevada e água em abundância. Quando você revolve intensamente um solo como o nosso, o microorganismo sai de seu estado de latência, aumenta sua atividade, consome mais matéria orgânica e acaba produzindo mais CO2.

Podemos voltar ao plantio direto?

Cerri - Pois é, o plantio direto minimiza esse impacto de revolver profundamente a terra. Ele faz aberturas pequenas no solo, suficientes para deslizar a semente para dentro dele. O resto ele deixa parado.

Custa menos?

Cerri - Sob o ponto de vista econômico sim. Mas tem situação em que isso não acontece.

Como assim?

Cerri - Tem lugar onde para não revolver a terra, mas mantê-la produtiva, o fazendeiro precisa aumentar a carga de material orgânico sobre o solo. Para tanto, ele precisará recorrer a mecanismos artificiais, colocando mais máquina no campo, talvez até mais do que no plantio convencional, para passar o rolo e cortar bem rente as sobras de vegetação de uma colheita.

Qual a vantagem então?

Cerri - A vantagem do plantio direto é sobretudo ambiental. É um método que reduz sensivelmente a emissão de gases do efeito estufa pela agricultura. O plantio direto é uma filosofia, um sistema de manejo. Nele, os resíduos da colheita ficam na superfície do solo e são decompostos por seus microorganismos. Eles estão retirando carbono da matéria orgânica e reintroduzindo no solo. Portanto sequestram um gás que, não fosse por isso, iria para atmosfera contribuir com o efeito estufa. O preparo convencional do solo para o plantio emite gases e não fixa muito. O plantio direto pode virar uma vantagem competitiva no mercado futuramente, se os consumidores continuarem a aderir à tese de não comprar produtos de quem desmata ou polui.

Esse cálculo sobre emissão, seqüestro e compensação é fácil de fazer?

Cerri - Ele é complexo. No trabalho de pesquisa que coordeno em Mato Grosso e Rondônia, estamos fazendo investigações detalhadas dessa contabilidade para ver se avançamos nos cálculos. Ele é influenciado por uma série de variáveis. Por exemplo, o sujeito que precisa usar mais máquina para fazer plantio direto não estará, necessariamente, emitindo mais CO2 na atmosfera. O solo pode ficar compactado pelo uso de máquinas e a emissão pela queima de combustível fóssil vai aumentar. Mas aumento no volume de material orgânico pode muito bem corresponder a um aumento do seu consumo pelos microorganismos do solo e compensar, por exemplo, o emprego de máquinas. No balanço, é preciso se descobrir o que mais beneficia o sistema. O seqüestro pode ser maior do que a emissão.

Em resumo, a contabilidade existe, mas seus parâmetros variam.

Cerri - É complicado. Tem muitas variáveis. Antes de mais nada, precisamos medir essas emissões para quantificá-las. Por exemplo, quanto de carbono eu produzo para fazer um litro de álcool? Mas não é simples porque há uma série de incertezas e nós precisamos aprender a calcular as incertezas..

Como assim?

Cerri - Quando eu calculo um estoque de carbono, não posso sair investigando as florestas do mundo inteiro, desmatar um pedaço e dizer que ali eu registrei um grau de emissão que vale para todas. Quando converso sobre emissão causada pelo desmatamento, sempre falo de um número que equivale de 8 a 14 kilogramas de CO2 por hectare. E eu te dou essa conta inexata porque a variabilidade de um local para outro pode ser grande e depender de fatores dos quais você nem sempre tem ciência. A contabilidade precisa ser específica para cada ponto em que se faz a medição.

"NÃO POSSO ILUDIR DIZENDO QUE PLANTANDO CINCO ÁRVORES O CARBONO DESSA ENTREVISTA FOI COMPENSADO. "

Vamos tentar um cálculo. A gente veio de carro de São Paulo para esta entrevista. Se quiséssemos compensar todo o carbono emitido, o que teríamos que levar em consideração?

Cerri - Muita coisa. Não posso fazer esse cálculo tirando um lápis da orelha. Como pesquisador, preciso lutar para criar uma contabilidade mais eficiente. Não posso iludir dizendo que plantando cinco árvores o carbono dessa entrevista foi compensado.

Esse recente decreto da prefeitura e governo de São Paulo mandando plantar árvores para fazer compensação de carbono...

Cerri - Isso é bobagem. Dá visibilidade e só. Não é uma coisa muito direta. Nós estávamos falando antes que há espaço para expansão do agronegócio no Brasil sem provocar mais desmatamento. Se nós adotarmos procedimentos tecnológicos corretos, podemos fazer isso de forma correta. E o nosso problema não é só de compensação e redução de emissões. Mesmo que consigamos fazer isso, a questão do aquecimento global não estará resolvida.

Você está falando dos gases estufa que já estão lá em cima na atmosfera?

Cerri - Exatamente. Eu preciso fazer as duas coisas: de um lado eu tenho que reduzir a taxa de emissão e do outro lado eu tenho que retirar de lá de cima o que já existe e deslocá-lo para um outro sistema. E tenho que fazer os dois processos simultaneamente. Um é redução, o outro é fixação.

O quanto das emissões de gases estufa no Brasil é responsabilidade do agronegócio?

Cerri - Globalmente, 76% das emissões de gases estufa vem da queima de combustíveis fósseis e da indústria de cimento. Vinte por cento vêm da agricultura e 14 por cento do desmatamento, da conversão do uso da terra. O Brasil tem um padrão diferente. Setenta e cinco por cento das nossas emissões vem da agricultura e da conversão da terra, do desmatamento. Apenas 20 por cento vem dos combustíveis fósseis. Por isso que o Brasil é o quinto emissor mundial se considerarmos o desmatamento, e o décimo sétimo se deixarmos ele de fora.

Como é que se dá essa emissão na conversão?

- Na verdade, ela é fruto de um desequilíbrio. Imagina uma floresta. Através da fotossíntese ela captura e fixa o CO2 na planta, na forma de tecido vegetal. Esse tecido tem biomassa produzida por água, nitrogênio e cálcio que estão no solo e carbono, retirado da atmosfera. A planta não absorve carbono do solo, ela absorve CO2 do ar. Quarenta a 50% de uma árvore é carbono que veio desse CO2. Em um sistema florestal, esse processo está em equilíbrio. As folhas caem na superfície do solo, são decompostas pelos microorganismos e parte do CO2 de sua massa fica capturado no solo, enquanto outra parte continua a ser liberada pela própria respiração. Então o teor de carbono aqui do solo fica constante. Cortou a floresta, esse balanço se vai.

Esse equilíbrio tem valor econômico?

Cerri - Por enquanto não. É lindo manter a floresta de pé em nome da biodiversidade. Mas para a agricultura, aquele monte de árvores é patrimônio sem valor. Então o sujeito que tem a posse da terra primeiro corta as árvores que tem valor comercial como madeira.. O restante ele derruba e põe fogo nesse tecido vegetal, causando emissões de CO2, N2O, metano, e um monte de outros gases. Ficou um pouco de carvão e o resto se transformou em gás que foi para a atmosfera. Esse estoque de carbono que tinha aqui no solo, como não tem mais a entrada através da folhagem, vai diminuir.

Você então tem dois fatores de emissão numa situação dessas: o provocado pelo consumo de carbono dos microorganismos que não é mais sequestrado pela árvores e o produzido pela queima de resíduo vegetal. Qual é o mais nocivo?

Cerri - É o da queimada mesmo. Ela emite de 8 a 14 quilogramas de carbono por hectare. Uma maneira de compensar essa perda de capacidade de seqüestro de gases é planejar melhor o uso do solo..

Existem exemplos disso?

Cerri - O pecuarista bem consciente usa as boas práticas de manejo.

Existe pecuarista consciente?

Cerri - Existe, mesmo que ele não tenha consciência disso. Basta ele fazer um bom manejo na sua propriedade. Por exemplo, não deixar o gado comer o capim abaixo de uma certa altura, para fazer ele rebrotar, ao invés ter que recorrer ao replantio para recuperar o pasto. Isso evita a degradação do solo e recupera a sua capacidade de seqüestro de carbono.

Uma outra alternativa de manejo, no caso de plantações, é o plantio direto?

Cerri - Exato.

Qual é o tamanho do plantio direto no Brasil?

Cerri - Nós temos 22 milhões de hectares.

Quantos hectares a gente tem no total para agricultura?

Cerri - São cerca de 68 milhões de hectares. Dez por cento plantados com cana de açúcar.

E por que nem tudo está com plantio direto?

Cerri - O plantio direto não é um sistema único. Ele é simples, mas tem que ser ajustado. É um sistema relativamente novo, tem 30 anos. Nem todas as culturas foram pesquisadas e ele ainda está no começo em muitas regiões do país. E o Brasil tem dimensões continentais. Ele começa a 5 graus no Norte e desce até os 30 graus no Sul. Nossa variabilidade de clima é grande e cada um deles exige um plantio diferente. Começa pela escolha de planta. Você não vai plantar trigo na Amazônia. Nem cana no fundo do Rio Grande do Sul. Não vamos plantar uva em Manaus. O clima define as plantas, que por sua vez definem os métodos de plantio direto que podem ser usados num determinado local. Não dá para transplantar para o Pará uma técnica usada em Santa Catarina. Existem plantios diretos diferentes, de acordo com a região. No sul, o plantio direto tem uma seqüência de três anos, envolve rotação e sucessão complexas de culturas. Claro, essa é a regra. Mas há cultura que tolera qualquer clima e outras que têm ciclos de anos.

Quais?

Cerri - A cana-de-açúcar é uma monocultura que fica o ano todo no campo.Você colhe, ela rebrota. Não precisa replantar. O eucalipto demora sete anos para ser cortado.

Mas a média é planta de ciclo curto e sensível ao clima?

Cerri - A cultura de grãos, como soja e milho, tem um ciclo muito curto, três meses, quatro meses. Então o que você vai fazer nos outros meses? Vai suceder a cultura. Se você planejar direito essa sucessão, dá para fazer coisas incríveis.

Tipo?

Cerri - Eu posso colocar primeiro plantas que fixam nitrogênio do ar. O nitrogênio é base para proteína e a proteína é base da nossa vida. Então a planta precisa retirar esse nitrogênio para nós consumirmos proteína. você pode dar o nitrogênio à planta na forma de fecundantes ou... você pode usar plantas que farão isso naturalmente.. Elas retiram o nitrogênio do ar através das raízes, nos nódulos onde vivem bactérias, e o transformam em proteína sem envolver fertilizantes. Todas as leguminosas podem desempenhar esse papel. O feijão faz. A soja faz. O que eu quero dizer é que nessa seqüência de cultura, às vezes eu preciso colocar uma planta que vai fazer essa fixação biológica do nitrogênio. Talvez eu nem vá utilizá-la comercialmente, mas o resíduo dela vai me produzir nitrogênio livremente, gratuitamente. Então é uma sucessão lógica.

Uma provocação: se o bom manejo agrícola pode trazer tantos benefícios ao meio ambiente, por que se preocupar com a preservação das florestas da Amazônia, por exemplo?

Cerri - Veja bem: uma floresta presta serviços ambientais. Um deles é a promoção do balanço hídrico, porque ela tem um processo de reciclagem da água. A retirada dessa floresta pode mudar isso e ter impacto sobre o regime de chuvas mesmo em áreas distantes da mata. Outro serviço ambiental que uma floresta presta em larga escala é a estocagem de carbono. Para você ter uma idéia, hoje nós temos 730 petagramas ou bilhões de toneladas de carbono na atmosfera terrestre. No sistema de vegetação nós temos 500 petagramas, e no solo 1500 petagramas. Petagramas é uma unidade técnica.

Ou seja, 500 petagramas são...

Cerri - 500 bilhões de toneladas. Você tem 500 e 1500 patagramas na vegetação e no solo e qualquer mudança em um dos dois sistemas tem consequência para atmosfera. Tem mais carbono na vegetação e no solo do que na atmosfera.

Mas eu posso corrigir isso com práticas agrícolas, boas práticas agrícolas?

Cerri - Pode. Mas não dá para substituir inteiramente o trabalho que faz uma floresta. Cortou, o carbono sobe direto para a atmosfera. Esses serviços ambientais em conjunto são indispensáveis. Evidentemente que um país tem que desenvolver seu território. Isso é uma política, não vou questionar. Os grandes países são grandes porque usaram seus recursos naturais. E usaram até os nossos. E eles são grandes porque desmataram tudo. Portanto, do ponto de vista histórico, é fato que nossa responsabilidade no nível atual de gases do efeito estufa é mínima, para não dizer inexistente.

Quer dizer, sobre o estoque de carbono que já está na atmosfera, a maior responsabilidade é deles.

Cerri - Dos europeus, dos americanos, e dos chineses..

Mas atualmente temos responsabilidade direta pelas emissões. Ou não?

Cerri - Agora temos. As nossas emissões causadas pela agricultura e o desmatamento são altas. Mas além disso, é bobagem imaginar que acabar com a Amazônia não nos trará problemas localizados. Se o regime de chuvas mudar, muda o país. Se mantivermos apenas as matas ciliares, elas não darão mais conta da regulação do sistema hídrico. Se eu cortar tudo, aquela chuva vai cair e correr sobre o solo. Não será filtrada até o lençol freático e redistribuida a partir de lá. A mata ciliar não tem a mesma superfície que a vegetação para reter toda aquela água. Por outro lado, precisa desenvolver também a Amazônia. Então tem que fazer o que está sendo feito, como o zoneamento, e a definição do uso do solo.

"A EXPANSÃO DO AGRONEGÓCIO SOBRE ÁREA DE FLORESTA PODE SER UM TIRO NO PÉ E MUDAR TUDO O QUE CONHECEMOS SOBRE O COMPORTAMENTO DE NOSSAS PLANTAÇÕES."

Mas desenvolver significa só o agronegócio?

Cerri - Aproximadamente 20% de nosso PIB vem do agronegócio. E se o Brasil tem uma situação de crescimento de 2,5% , 3% ao ano, é por causa do agronegócio. Nós não exportamos computador, exportamos muito poucos produtos manufaturados. Nós exportamos commodities, soja, açúcar, café. E para crescer a economia de uma forma imediata, rápida, como se quer fazer, ou se assimila uma tecnologia rapidamente, o que não é tão fácil, ou se vai para o agronegócio, onde detemos alta tecnologia. Mas aí você se confronta com a parte ambiental e tem dois caminhos: mudar nosso padrão de crescimento, deixar o agronegócio e buscar um substituto para ele, coisa que não é imediata, ou buscar uma solução de compromisso, implantando regras de manejo na agricultura.

Mesmo neste segundo caso, não dá para imaginar que todos os dilemas ambientais serão resolvidos?

Cerri - Correto. Ao fazer uso dos recursos naturais para fins agrícolas, nós estamos contribuindo para o aquecimento global. O aquecimento global pode levar à mudança climática, e isso terá um impacto na agricultura. Mesmo com todos os cuidados, a expansão do agronegócio sobre área de floresta pode ser um tiro no pé e mudar tudo o que conhecemos sobre o comportamento de nossas plantações. Um país europeu, um país asiático que exporta produtos manufaturados, computadores, veículos, não depende muito da mudança climática.

E eles também têm a riqueza para se adaptar.

Cerri - A sua capacidade de adaptação é mais elástica. A adaptação na agricultura não é uma coisa muito simples e rápida. Então nós temos que preservar o nosso meio, fazer um agronegócio com sustentabilidade.

Vamos imaginar que você fosse o Ministro da Agricultura. O que faria para tornar a atividade mais sustentável? Que caminho seguiria para, por exemplo, expandir a produção do álcool?

- Eu faria primeiro uma redefinição do uso da terra. No Brasil é um troço ainda tratado com alto grau de informalidade. Eu não sou purista a ponto de dizer que não se pode tocar em uma árvore da Amazônia. Mas para tocar, deveria antes haver a necessidade. E se investirmos em pesquisa e organização, talvez nunca mais tenhamos que lidar com a necessidade de cortar mata na Amazônia. Além disso, buscaria também uma solução de compromisso entre a produção de alimentos e a produção de energia. A terra, até agora, foi utilizada sobretudo para a produção de alimentos. Com esse problema do aquecimento global, ela terá que ser cada vez mais empregada para produzir bioenergia.

Quantos hectares de cana nós temos?

Cerri - Hoje nós temos 6 milhões de hectares de cana no Brasil. E cerca de 60 milhões de hectares destinados para outras culturas. É possível, com planejamento, atender às duas demandas da agricultura: alimentos e energia.

Sem expandir a área agricultável?

Cerri - Exato. Basta ter tecnologia e planejar o uso da terra. Hoje nós temos uma imensa área de pastagem usada de modo primitivo, com baixa produtividade ou já abandonadas. São áreas já desmatadas que podem, sem muito investimento, ser destinadas para outros usos, como por exemplo a cana ou até o reflorestamento.

E o que se faz com o boi que está nessas áreas?

Cerri - Nós também precisamos expandir a nossa produção de carne. E há tecnologia para fazer isso sem empurrar o gado para cima de zona de floresta. Agricultura e pecuária podem coexistir numa mesma área simultaneamente. De que forma? Pode-se plantar, por exemplo, a soja, que é uma cultura de 3, 4 meses, e uma vez ela colhida, entra-se ao mesmo tempo com o milho e a braquiária, que é a pastagem. O milho cresce mais veloz que o capim e quando ele for colhido o pasto estará na altura ideal para ser consumido pelo gado, que passa a estar integrado ao sistema de lavoura. Sem se desmatar um único metro quadrado a mais, expandiu-se a pecuária. Se a terra que dispomos para criar e plantar for melhor utilizada, não precisaremos expandir eternamente nossa fronteira agrícola.

Essa mudança pode se resolver apenas pelo mercado?

Cerri - Ajuda muito se tiver polícia, fiscalização e planejamento. Mas hoje, o preço para você desmatar uma área é muito caro. As vantagens de se crescer fronteira agrícola em cima de floresta estão desaparecendo.

Mas se os preços subirem no mercado internacional essa desvantagem não desaparece?

Cerri - Não, porque dificilmente você começa a colocar a soja num local onde antes tinha floresta. Não dá para fazer isso.

Mas há muitos casos de conversão direta de solo de floresta para soja no Norte do Mato Grosso e na região de Santarém.

Cerri - É possível fazer isso, mas com rendimento muito baixo, porque a cultura da soja exige o emprego de máquina. E o terreno desmatado, por ter muito toco espalhado, dificulta seu emprego. A primeira conversão de solo desmatado em geral vem com o plantio de arroz, porque ele tem o poder de germinar em solo ácido. Depois vem a pastagem, porque ela não precisa de máquinas e os bois não se importam de pastar em cima de tocos. Hoje, destocar uma área de floresta é praticamente inviável do ponto de vista financeiro. Precisa de máquinas muito grandes, o estrago é enorme. A pastagem produz uma decomposição natural do sistema dos tocos, das raízes, e depois de um certo tempo, fica fácil limpar o terreno sem danificá-lo. A conversão direta de uma floresta para grão é possível de fazer num cerradão, que é quase uma floresta, uma transição entre a floresta e o cerrado.

No cerrado propriamente dito, dá para fazer conversão direta para a soja?

Cerri - Pode.. Mas ainda assim meter pasto primeiro é mais barato e gera melhor rendimento no curto prazo. E ao longo do tempo, o pasto permite outros usos para a terra.

O pasto tem impacto sócio-econômico positivo?

Cerri - A pastagem depende de poucas pessoas não especializadas, e conseqüentemente ela produz menos benefícios sócio-econômicos na sua região. Quando se converte a pastagem para grãos, no caso soja ou milho, aí precisamos de um pessoal mais especializado, engenheiros, técnicos agrícolas, mecânicos de máquinas. Esse pessoal estabelece uma cadeia para a produção de grãos que depende sobretudo de melhor infra-estrutura e isso dá partida numa espécie de desenvolvimento regional. Nesse processo surgem as escolas, os hospitais, o saneamento. Então veja: a conversão do sistema de pastagem para um sistema agrícola, de produção de grãos, aumenta índice de desenvolvimento humano de uma região.

A cana tem esse mesmo efeito sócio-econômico que a soja?

Cerri - Ela está mais para a pecuária. Ou pior. Você tem duas maneiras de colher a cana. A primeira envolve o corte manual. É um trabalho escravo.

E essa é a forma dominante de colheita da cana hoje no Brasil?

Cerri - Hoje nós estamos com um sistema de colheita de cana que chega a 35%, 40% de área colhida mecanicamente. Se reduzirmos essa mão-de-obra escrava, estaremos criando um problema social no curto prazo, mas erradicando do Brasil um trabalho que é degradante. Além da questão social, o corte manual tem uma série de outros efeitos nocivos. Por exemplo, a queima dos resíduos, o que é uma bobagem. Por que queimar? É uma biomassa que foi feita gratuitamente, pode funcionar como adubo ou para gerar energia, e nós estamos queimando desnecessariamente.

"TECNOLOGIA DE APROVEITAMENTO DE BIOMASSA NÃO FALTA."

Falta tecnologia para operar essa mudança, mecanizar a lavoura de cana e aproveitar seus resíduos?

Cerri - Tecnologia de aproveitamento de biomassa não falta. E a de máquinas também avançou muito. Ainda há limitações de uso dependendo da topografia. Se for muito acidentada, a eficiência do corte diminui e isso é ruim para o produtor. O corte manual tem 100% de eficiência. Mas as máquinas estão chegando lá.

O que é um solo degradado?

Cerri - Uma área que foi mal manejada para fins agrícolas ou outros fins, e que não está mais sustentável. Quando produz, seu resultado é baixo e conseguido à custa de muito insumo. Ela precisa ser recuperada.

Deixada de lado, o que essa terra vai ser?

Cerri - Ao longo do tempo, um lugar que não produz nada.

Quanto a gente tem de área degradada no Brasil hoje?

Cerri - Difícil, nós não sabemos exatamente. As imagens de satélite que a gente tem não são sensíveis a ponto de revelar o grau de degradação de um terreno.

Não há nem um chute?

Cerri - Não. Porque é um sistema muito dinâmico. Uma terra que hoje está degradada amanhã pode não estar. Não é um número que se possa obter por amostragem.

Custa caro recuperar uma área degradada?

Cerri - Depende da finalidade e depende do valor da terra inicial. Pastagem, por exemplo, degradada, você pode recuperar com novas pastagens. Ou você pode recuperar uma pastagem degradada para um novo uso, reflorestamento, soja, cana.

Ou seja, o plantio de cana, por exemplo, dá para expandir sem cortar uma árvore a mais?

Cerri - Nós temos espaço para dobrar a nossa área de cana-de-açúcar. Sem grandes conseqüências.

É mesmo? Quer dizer, pular para 12, 13 milhões de hectares.

Cerri - Acho que podemos passar para 30.

É mesmo?

Cerri - Dá para crescer em cima de área de pastagem. Não gosto de usar esses números porque eles não são exatos. Apenas uma estimativa. Quase um chute. Segundo ela, temos 260 milhões de hectares de pastagens no país. Utilizamos cerca de 90 milhões apenas para gado.

260 milhões de pastagem, nossa.

Cerri - Um terço disso está sendo corretamente utilizado. Então veja, nós temos 150 milhões de hectares em excesso para aproveitar, que é 10 vezes, ou 20 vezes a área de cana-de-açúcar. E isso fazendo sucessão de culturas e rotação de plantio, podendo se dar ao luxo de colocar muita área para descansar um ano, voltar a produzir no outro e etc. Podemos fazer tudo isso e crescer nossa agricultura sem tirar mais um pé de árvore.

E o que tem para o gado é suficiente?

Cerri - Talvez seja mais do que precisamos. Mas só vai dar realmente para saber depois que o país investir na melhoria de suas pastagens e rebanhos. Nosso gado ainda é ruim. Melhorou. Mas a agricultura está muito na frente. Nossa genética de plantas é bem mais variada. A produtividade maior. Precisamos fazer esse tipo de trabalho, para fazer a produtividade do gado crescer e conseguirmos colocar mais bois em cima de um hectare de pasto. Esse investimento garante que a agricultura cresça sem cortar um único pé de árvore.

Mas a gente está investindo nessa melhoria?

Cerri - Está. Mas anda devagar montar esse bicho que come menos, engorda mais e reduz sua contribuição para o efeito estufa. Se eu conseguisse fazer com que o animal ao invés de arrotar – vocês sabem que a vaca não peida, ela arrota, eruta – metano arrotasse CO2 seria melhor, bem melhor. Por quê? Me ajudem.

Porque metano é um gás muito mais potente em termos de efeito estufa

Cerri - Então. Os gases têm um potencial de aquecimento global diferente. O CO2 é a referência. Se eu tiver uma vaca arrotando CO2 e não metano, estou contribuindo menos para o aquecimento global.

Dá para mudar o arroto da vaca?

Cerri - Dá. É uma questão de alimentação. Ao invés dela se alimentar só com capim, posso fazer uma mistura de leguminosas que ajude a reduzir o metano. Com a engenharia genética, posso alterar o conjunto de fermentação de alimentos do bicho.