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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Mudança climática deve aumentar desigualdade entre Sudeste e Nordeste do Brasil

Preço dos alimentos deve subir por causa das alterações na temperatura da Terra

André Sartorelli, enviado do R7 a Fortaleza

Mariana Cardoso Campos/18.dez.2009/AEMariana Cardoso Campos/18.dez.2009/AE

Trabalhador transporta caixas cheias de tomates recém-colhidos em Apiaí, interior de São Paulo


Uma estimativa sobre as consequências das mudanças climáticas no Brasil mostra que em 2020 o país pode ter aumento da desigualdade entre as riquezas das regiões Sudeste e Nordeste. Além disso, deve ocorrer redução do PIB (Produto Interno Bruto).

Especialistas reunidos na ICID 2010 (Segunda Conferência Internacional: Sustentabilidade e Desenvolvimento em Regiões Semiáridas), que acontece nesta semana em Fortaleza, no Ceará, citam danos ao sistema de saúde, produção de alimentos, escassez de água e redução da biodiversidade e as projeções não são animadoras.

O economista Gustavo Inácio de Moraes concluiu recentemente uma tese de doutorado na Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) da USP (Universidade de São Paulo) cujo foco foi o impacto da mudança do clima na economia, tendo como base a agricultura, que depende diretamente dos recursos naturais.

O estudo levou em conta informações sobre efeitos do clima e produção de alimentos divulgadas pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e pelo IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas).

A primeira das duas análises se refere a 2020 e conclui que o Brasil deve ter uma redução no PIB de 0,29%. Com as mudanças na agricultura, o custo de vida das pessoas mais pobres aumenta porque o preço dos alimentos, em razão de os produtos ficarem mais escassos – isso é preocupante porque a parcela do orçamento gasta com comida é maior entre os mais pobres.

Em entrevista ao R7, Moraes contou que a desigualdade entre ricos e pobre deve aumentar, segundo essa projeção, especialmente entre quem vive nas regiões Sudeste e Nordeste.

- É correto dizer que o Nordeste, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul se distanciariam mais do Sudeste na ocorrência de mudanças climáticas brandas ou extremas. A razão básica é que estes Estados possuem uma estrutura econômica mais relacionada à atividade agrícola comparativamente aos Estados do Sudeste. Além disso, na presença de mudança climática, com impactos negativos na agricultura, recursos produtivos [capital e trabalho] dessas regiões tenderiam a migrar para as atividades de serviços e indústria. Assim, os Estados do Sudeste seriam beneficiados por possuírem uma estrutura econômica mais voltada para estes setores.

Em sua tese, são contempladas estimativas para a produção de feijão, milho, soja, algodão, arroz, cana de açúcar, mandioca e café.

Para 2020, a análise mostra um benefício da região Sudeste por ser grande produtora de cana de açúcar, que tem seu rendimento aumentado em condições de aquecimento climático brando.

Mas na segunda etapa da análise, referente a 2070, os ganhos para a atividade econômica do Sudeste são menores, pois o efeito benéfico sobre a cana desaparece em cenários mais graves de mudança climática, provocando um declínio nacional da atividade econômica. O mercado de trabalho passaria a ter uma migração da mão de obra das regiões Nordeste e Centro Oeste para as demais.

Também há a previsão, segundo o estudioso, de um grande fluxo de mão de obra para os setores urbanos, o que chama a atenção para a necessidade de que as políticas urbanas sejam aperfeiçoadas para garantir habitação e oferta de serviços público.

O economista diz que, de uma maneira geral, investimento em tecnologia agrícola e fontes renováveis de energia compensariam os efeitos das mudanças climáticas.

- Poderíamos pensar em aumento de subsídios para aquisição de tecnologia agrícola, mas em especial para diminuir o custo dos alimentos, atenuando o efeito sobre a distribuição de renda. E finalmente, uma estrutura econômica) menos dependente da agricultura seria recomendável, sobretudo para o Centro Oeste e Nordeste. Penso que projetos de desenvolvimento voltados para a indústria e serviços seriam mais adequados nestas do que em outras regiões.

O repórter viajou a convite do Ministério do Meio Ambiente

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Mudança climática deve piorar desigualdade de renda no País

Da redação

Até 2020, as transformações que a agricultura do Brasil deve sofrer com as mudanças climáticas vão contribuir para diminuir o produto interno bruto (PIB) em 0,29% do que seria caso não houvesse mudança climática e piorar a desigualdade de renda.

É o que mostra uma simulação feita pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba, pelo economista Gustavo de Moraes.

O pesquisador estudou o assunto durante seu doutorado na universidade. Moraes se baseou em previsões da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) sobre a perda de áreas de cultivo de produtos agrícolas com grande importância econômica: soja, cana de açúcar, milho, café, arroz, feijão, mandioca e algodão.

Por sua vez, a Embrapa baseou-se em seis cenários de mudanças climáticas, propostos pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU).

O economista escolheu dois cenários --um deles previa mudanças brandas até 2020 e perda pequena em terras aráveis. Outro previa aumentos mais graves de temperatura até 2070 e perdas maiores de terras aptas para produção agrícola.

Com os dados, ele alimentou um modelo econômico --uma série de equações que mostra como as perdas na agricultura impactam os outros setores da economia.

"A minha pesquisa avalia apenas os impactos na economia dos efeitos das mudanças climáticas na agricultura", diz Moraes. "Mas as mudanças também terão efeitos sobre a saúde, o clima das cidades litorâneas e eventos climáticos extremos [como furacões e enchentes]. Por isso, a conta pode aumentar."

Segundo o estudo, as perdas econômicas acontecem de forma desigual: o PIB do Nordeste em 2020 será 4% menor do que seria caso não houvesse mudança climática. Já o Sudeste teria um aumento de 0,83%. No centro-oeste, a queda é de 2,9%, concentrada nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Para 2070, a pesquisa mostra uma queda do PIB brasileiro em 1,1%. No nordeste, a queda seria 6,13%.

EQUADOR

O nordeste e as regiões produtoras de soja do centro-oeste devem perder dinheiro porque estão em regiões tropicais e, portanto, mais sujeitas às mudanças climáticas. O modelo prevê, por exemplo, que o preço de produção da soja aumente 36% no Mato Grosso e 60% no Mato Grosso do Sul.

Com isso, investimentos destinados à agricultura e trabalhadores da lavoura tendem a migrar para o Distrito Federal e Estados do Sul e Sudeste, onde os setores de indústria e serviços são mais consolidados. Com crédito e salários baixos, os bens produzidos por esses setores devem ficar mais baratos.

O modelo também prevê aumento dos custos de produção de alimentos --que acontece de forma desigual no país. Um exemplo: o cenário de 2020 prevê aumento no custo de produção do arroz em 36% no Maranhão, quarto maior produtor do país. Mas o custo não se altera no maior produtor, o Rio Grande do Sul.

O pesquisador também explica que simulações como esta são boas para prever tendências, mas não para apontar dados exatos. Além disso, é impossível prever com exatidão o comportamento dos agentes da economia --apenas apontar o mais provável.

CONCENTRAÇÃO DE RENDA

As transformações da agricultura vão contribuir para aumentar o custo de vida dos mais pobres e diminuir o dos mais ricos. O motivo: o preço dos alimentos, que vai sofrer alta, corresponde a uma proporção maior do orçamento dos mais pobres. Já para os mais ricos, a maior parte do dinheiro é direcionada a serviços e bens industriais, cujos preços devem diminuir.

A previsão do modelo é que no Nordeste em 2020, por exemplo, o custo de vida das famílias que ganham entre 3 e 5 salários mínimos aumente 1,19%. O das famílias que ganham de 20 a 30 salários mínimos deve diminuir 0,35%. Já no Sudeste, por exemplo, o aumento é de 0,08% para as famílias de menor renda e a queda, de 0,18% para famílias mais ricas.

Já o cenário de 2070 prevê para o Nordeste aumento do custo de vida de 1,85% para os mais pobres e queda de 0,18% do custo dos mais ricos.

O pesquisador explica que para se antecipar às mudanças a economia do Nordeste deve passar a depender menos da agricultura e mais dos serviços e indústria. "Como são cenários climáticos de longo prazo, os planejadores de políticas públicas podem preparar-se para eles", acrescenta Moraes.

"As previsões do modelo para o Brasil repetem as transformações em escala global", diz o economista. "Alguns países industrializados e temperados devem se beneficiar, enquanto países mais pobres de clima quente vão perder."

Fonte: Jornal Correio do Estado, Sábado, 14 de agosto de 2010