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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Além da meta de dois graus

Por Oliver Gedenis* 

Nos círculos internacionais de políticas climáticas existe um amplo consenso sobre a meta de limitar o aquecimento global a um máximo de dois graus acima dos níveis pré-industriais. Ainda assim, atingir essa meta é quase impossível.

Mas se os líderes mundiais abandonarem esse alvo, terão de tomar uma decisão estratégica fundamental em relação à estrutura e aos níveis de exigência de um novo objetivo climático. Portanto, é preciso uma mudança de paradigma. A abordagem científica da tradução da temperatura global em orçamentos nacionais de emissões precisos é politicamente inviável. Em vez disso, países com uma forte agenda de política climática devem defender fórmulas dinâmicas para fixação de metas.

O alvo dos dois graus é o ponto primário de referência para o debate atual. Um aumento correspondente na temperatura média global é normalmente visto como o limite além do qual os efeitos das mudanças climáticas começam a ficar perigosos. Mas, ao contrário da crença generalizada, o último relatório de avaliação do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) não ligou para a meta dos dois graus, o que, desde o final dos anos 90, tem surgido como um símbolo e um ponto de orientação para uma ambiciosa, porém realista, agenda climática global.

A União Europeia foi a primeira força a impulsionar o alvo dos dois graus internacionalmente. Os ministros do ambiente europeus têm defendido a meta desde 1996. À frente da Conferência de Copenhagen, em 2009, a União Europeia conseguiu fazer com que todos os parceiros relevantes no âmbito das negociações incluindo até China, Índia, Rússia e Estados Unidos se comprometessem com a meta.

Dado que a quantidade de gases de efeito estufa (GEE) emitida até agora vai aumentar as temperaturas em 1,5°C em comparação com a época pré-industrial, decisões políticas maiores são necessárias para garantir o cumprimento da meta de dois graus. A ciência climática pressupõe que o pico das emissões globais deve ocorrer dentro dos próximos anos. Atualmente, entretanto, há poucos indícios de que uma reversão de tendências será mesmo visível no horizonte.

Então, até certo ponto no futuro próximo, um crescente número de vozes da comunidade científica deve definitivamente rejeitar a possibilidade de manter essa meta. Quando isso acontecer, simplesmente defender um alvo mais suave, de 2,5°C ou 3°C, não será suficiente.

De acordo com o paradigma atual, a meta global é definida por categorias científicas e entendida como um limite máximo absoluto. Dada essa abordagem, todos os esforços iniciais têm buscado criar um acordo climático global, levando a um forte foco em negociações globais, negligenciando os esforços concretos de descarbonização por países industrializados e em industrialização.

O resultado é um empate, porque os governos podem sempre culpar pelas falhas a falta de ação dos outros. Mesmo os EUA têm usado esse argumento para justificar sua recusa para aumentar a redução de emissão de GEE de 20% para 30% até 2020.

Um paradigma alternativo teria que combinar realismo com uma visão global positiva. Uma possibilidade é estabilizar uma neutralidade climática como um objetivo global de longo prazo, trabalhar para reduzir em rede as emissões de GEE. Mesmo que esse objetivo fosse inicialmente ligado a um calendário definido de forma ampla, ele estabeleceria o padrão para a ação, segundo o qual todos os países teriam de se basear.

Dentro desse quadro, ambiciosos atores da política climática como EUA, Suíça ou Japão enfrentariam a tarefa de se comprometer com medidas exatas de descarbonização. Eles teriam de reunir provas de que a transição para uma economia de baixo carbono é tecnicamente viável e rentável, gerando efeitos positivos não só para o clima, mas também para os preços da energia e para a segurança do abastecimento. O sucesso estimularia outros países do G-20, atuando fora do auto-interesse, a seguir os passos dos líderes do clima.

Esse tipo de abordagem, de baixo para cima, levaria a significativas reduções de emissões. Para ter certeza, seria impossível de prever, com base no princípio favorecido atualmente, de cima para baixo, quanto de aumento da temperatura o mundo suportaria. Dado que a exploração a um limite de temperatura estrito não é uma opção politicamente viável, focalizando a política do clima em benchmarks flexíveis, tais como a neutralidade do clima , seria mais eficaz no curto prazo e mais promissora no longo prazo.

*Oliver Gedenis é pesquisador sênior no SWP, o maior centro de estudos alemão de política de segurança e relações exteriores.

(Envolverde/Zero Hora)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Falta de ação política e as mudanças climáticas


Em entrevista ao site IHU, o climatologista Osvaldo Canziani alerta que a falta de decisão política, particularmente nos países de maiorias pobres, tem freado o desenvolvimento de redes de observação e monitoramento e mostra a pouca preocupação no que diz respeito ao estabelecimento de sistemas de vigilância e alerta ambientais.

Queimadas, secas, tornados, furacões. Eventos climáticos não são novidades, mas a frequência entre eles tem aumentado, assim como sua potência e isso se deve às mudanças do clima. Porém, segundo o climatologista argentino Osvaldo Canziani, é a falta de ação política que torna as consequências desses fenômenos mais graves. “A falta de decisão política, particularmente nos países de maiorias pobres, tem freado o desenvolvimento de redes de observação e monitoramento e mostra a pouca preocupação no que diz respeito ao estabelecimento de sistemas de vigilância e alerta ambientais. Existem hoje mecanismos de Estratégia Internacional de Redução de Desastres, produzidos pela Organizaçao das Nações Unidas, que provém informação sobre este tipo de ação e para a educação da população. Os habitantes do Paquistão estiveram órfãos destes serviços”, relatou ele na entrevista que concedeu à IHU On-Line por email.

O climatologista Osvaldo Canziani atuou junto ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) de 1991 a 2008. Foi responsável pelo grupo que discutiu a vulnerabilidade, impactos e adaptação às mudanças climáticas no Quarto Documento de Avaliação produzido pelo grupo de especialistas no meio ambiente e no clima. Atualmente, é professor na Universidade de Buenos Aires.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor analisa as recomendações feitas pelo grupo independente de metereologistas sobre o trabalho do IPCC?

Osvaldo Canziani – Antes de responder objetivamente à pergunta, preciso fazer um esclarecimento: os documentos do IPCC são elaborados por equipes multidisciplinares de especialistas de diferentes regiões do mundo, sejam elas desenvolvidas ou em desenvolvimento. Ainda que a área das ciências atmosféricas contribuiram somente com uma parte do documento, os processos do tempo e do clima são mesmo a parte mais visível e ubíqua do processo de mudanças climáticas, e, portanto, as ações e reações relativas às demais ciências integram estes documentos de avaliação. Sem dúvida alguma, os eventos extremos do tempo e do clima e, sobretudo, a gestação de um sistema climático novo, estão dando origem a uma transformação, transcendente no tempo, da paisagem, da sociedade humana, seu entorno urbano e rural e, obviamente, da economia global. É por isso que o Artigo 2 da Convenção Marco das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (CMNUCC) apresenta a urgência no sentido de estabilizar as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera a fim de:

- permitir que os ecossistemas se adaptem naturalmente;
- asseguras que a produção de alimentos não seja ameaçado;
- e permitir que o desenvolvimento econômico prossiga de maneira sustentável.

Agora, focando em sua pergunta, devo mencionar que as críticas feitas nesse novo relatório estão dedicadas, fundamentalmente, às repercussões regionais do aquecimento terrestre e suas projeções para o futuro. Durante o Quarto Período de Avaliação do Painel, como copresidente do IPCC, representando as regiões em desenvolvimento, além de ter me dedicado plenamente a sua elaboração, também participei de várias discussões sobre a qualidade da informação da base com que se trabalhava. Por isso, eu estou convencido de que o conhecimento científico e os progressos tecnológicos avançam de forma lenta, mas firmemente. Sabendo, além disso, que o progresso científico depende da disponibilidade da informação básica, tanto geofísica como biológica e ambiental, assim como a disponibilidade e informação social e econômica, podemos dizer que sua integração permite definir a vulnerabilidade dos setores e as regiões e determinar o efeito dos impactos sobre a sociedade. Estes dados devem ser suficientes, confiáveis e estar inseridos no espaço e no tempo, de maneira apropriada logicamente, na avaliação dos trabalhos científicos.

Uma das críticas se refere a alguns trabalhos utilizados na avaliação e que careciam de julgamentos confiáveis. Esta situação foi registrada quando avaliaram certos tipos de documentos, como o dos governos, identificados como parte da CMNUCC, desenvolvidos de acordo com os compromissos estabelecidos no artigo 4 desta convenção. De todas as formas, eram e são documentos dos governos.

Este documento, assim como outros (a exemplo: Global Environmental Outlook e os documentos sobre Desenvolvimento Humano das Nações Unidas), que se produzem em países em desenvolvimento com informações muito escassas, puderam mostrar alguns erros de magnitude, mas não como mostram essas implicações regionais relatadas nas críticas sobre as mudanças climáticas. Estes documentos também fizeram com que o conhecimento humano avançasse. Por isso, as críticas feitas ao IPCC, em minha opinião, definitivamente são tendenciosas. Perguntam-me frequentemente o que teria sido do desenvolvimento da Física e da Hidrologia sem os conhecimentos de Leonardo da Vinci? Destaquemos que da Vinci apresentou o Princípio da Massa mais de dois séculos antes que Isaac Newton e fabricou, assim como pôs em funcionamento, instrumentos para medições hidrológicas (ainda não implementadas neste século XXI em muitos rios de um bom número de países em desenvolvimento). Estas referências destacam que o progresso da Ciência e da Tecnologia é lento, mas apresenta situações de avanços surpreendentes e fantásticos. No entanto, os seres humanos não têm alcançado as capacidades necessárias para definir, por exemplo, como apareceu a vida em nosso planeta. Começou sobre a Terra ou foi transportada de outras galáxias?

O IPCC é um painel que, pura e simplesmente, evolui a literatura científica, com a obrigação inevitável que exige que os trabalhos tenham sido submetidos para avaliação. Claramente falando, quem pode garantir de maneira absoluta e total o grau de “veracidade científica” relativo às questões de indisciplinaridade. Isso evidencia, portanto, que as mudanças climáticas não são uma única, nem sequer a mais importante, Mudança Ambiental Global.

Não há dúvida de que tudo pode ser melhorado. No entanto, o feito do IPCC é valioso e caminha para alcançar o desenvolvimento que assegure ou que seja tão favorável como seja possível ao desenvolvimento sustentável da sociedade humana. Como sempre tem ocorrido, e seguirá ocorrendo, pois o ser humano não domina a natureza, haverá avanços. No entanto, o saldo líquido será, como é no trabalho feito pelo IPCC, totalmente positivo.

A 18º reunião do IPCC, que aconteceu em abril de 2008 em Budapeste, tomou conhecimento da necessidade de desenvolver cenários mais consistentes em relação à realidade social e econômica da sociedade atual, que vive entre grupos que possuem índices de conforto exagerado e níveis de pobreza extremos. Um mundo que carece de ética ambiental tem como causas básicas de deterioração ambiental questões como:

- tamanho da população;
- excesso de consumo;
- e falta de tecnologias apropriadas para produzir e consumir recursos e serviços.

A realidade é difícil num mundo onde a “pegada ecológica” dos países desenvolvidos excede em mais de 600% o valor médio de menos de dois hectares por pessoa num planeta de superfície finita, como é a Terra, habitado por quase sete bilhões de habitantes. É evidente que, no mundo, a falta de solidariedade mata muito mais pessoas do que os efeitos adversos das mudanças climáticas. A esta altura, a resposta parece estar na raiz da questão.

IHU On-Line – Muitos países estão vivendo desastres climáticos muito severos. Que lições podemos tirar dessas situações?

Osvaldo Canziani – Os desastres são eventos de variabilidade climática, a exemplo disso temos o fenômemo El Niño e outras as intensificações dos processos como as circulações atmosféricas que originam danos humanos e materiais. Estes eventos também ocorreram no passado. Atualmente, a mudança do sistema climático faz com que sejam mais frequentes e mais intensos tais eventos.

A falta de decisão política, particularmente nos países de maiorias pobres, tem freado o desenvolvimento de redes de observação e monitoramento e mostra a pouca preocupação no que diz respeito ao estabelecimento de sistemas de vigilância e alerta ambientais. Existem hoje mecanismos de Estratégia Internacional de Redução de Desastres, produzidos pela Organização das Nações Unidas, que provêem informação sobre este tipo de ação e para a educação da população. Os habitantes do Paquistão estiveram órfãos destes serviços.

Na mesma situação estão os habitantes de muitos países em vias de desenvolvimento ou, simplesmente, subdesenvolvidos que existem no mundo e na América Latina e Caribe. As recomendações das Agências Especializadas das Nações Unidas e do PNUMA provêm informação e assistência. A falta de decisão de muitos governos é a causa de desastres como os muitos que sejam registrados no mundo.

IHU On-Line – As negociações sobre o clima podem mudar a atual situação?

Osvaldo Canziani – É evidente que sim. No entanto, os interesses em jogo estão relacionados à questão econômica, aos interesses bastardos de grupos sociais que pretendem manter seus privilégios num mundo que já está vivendo seu limite de crescimento, estão demonstrando que a COP-16 (que será realizada em dezembro de 2010 em Cancun) seria um fracasso. Esperamos que não seja assim.

IHU On-Line – Estas catástrofes podem criar “refugiados do clima”? Que regiões podem sofrer mais com este problema?

Osvaldo Canziani – O Escritório do Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados informa que, neste ano de 2010, há mais de 80 milhões de refugiados, muitos deles por razões ambientais – secas, inundações, furacões, tornados, etc. As projeções para o ano de 2050 elevam esse dado para umas 250 milhões de pessoas. A mudança climática, pelos desastres derivados da inundação de zonas costeiras baixas e ilhas de nível baixo, agregaria a essas cifras entre oito e 35 milhões de refugiados adicionais por ano. O panorama apresenta sérias implicações geopolíticas nos países de um subcontinente pouco povoado, como os da América do Sul.

IHU On-Line – O problema das queimadas na Rússia também tem relação com as mudanças do clima?

Osvaldo Canziani – É evidente que o aquecimento global, ao produzir o secamento dos solos e da biomassa, gera condições muito propícias ao denominado wildfire, incêndio selvagem ou incêndio natural. Isso tem ocorrido já na Espanha, França e Portugal, assim como no Brasil e na Venezuela.
Fonte: IHU Unisinos-EcoAgência

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Mudanças Climáticas e o papel do IPCC

Por Neuza Árbocz, para a Envolverde 


Estamos fazendo as perguntas corretas?

Compreender as mudanças que o planeta atravessa não é tarefa simples. A ciência debruça olhares divergentes sobre fenômenos antigos e recentes em busca de respostas e caminhos para proteger a vida humana na Terra.

Uma das iniciativas mais significativas neste campo é o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, formado em 1988 a pedido da Organização Meteorológica Mundial (OMM) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

O Painel é coordenado por um bureau eleito pelos países membros da ONU que recebe indicações de especialistas de todo o mundo e os nomeia para atuarem como autores, editores e revisores de relatórios sobre o clima e cenários futuros.

Suas conclusões tornaram-se referência para a tomada de decisão de grande número de países e lhe valeram o Prêmio Nobel da Paz em 2007, em conjunto com Al Gore que as popularizou em seu documentário: “Uma Verdade Inconveniente”. Mas, no final de 2009, o IPCC viu sua reputação ser questionada ao admitir erros nos dados de seu quarto relatório. Estes incluíam imprecisões sobre o degelo do Himalaia e em dados meteorológicos de estações chinesas da segunda metade do século passado.

Para quem conhece seu funcionamento, estes foram dois fatos considerados isolados na maior análise colaborativa de dados coletados em todo o mundo. Eles serviram, contudo, para mostrar quanto de imediatismo pode ainda dominar a assim chamada 'opinião pública'. Termos como "escândalo do clima" ou "climagate" surgiram rapidamente, ameaçando desacreditar um trabalho de compilação e estudo feito por milhares de cientistas de mais de 100 países, que acontece desde 1990.

Os costumeiros "leitores de manchetes" que não passam dos títulos, subtítulos e legendas, deixaram de saber que no caso do Himalaia, suas geleiras estão de fato diminuindo sim e a uma taxa preocupante. A confusão com o relatório do IPCC está na previsão de quando ela desapareceria por completo: o ano de 2035 - para a qual não foi apontado estudo de embasamento. Graham Cogley, professor de geografia e geleiras na Trent University, Canadá, que chamou a atenção para o erro, também destacou outras quatro falhas neste mesmo parágrafo sobre o Himalaia e concluiu “é um trecho mal formulado”.

O texto em questão foi incluído, conforme mensagem de retratação do próprio IPCC em 20 de janeiro de 2010, fora dos procedimentos padrões de seu trabalho, que envolvem uma revisão científica por pares de todos os dados e análises feitas. O fato das informações listadas serem atribuídas a uma ONG ambientalista, e não a uma instituição formal de pesquisa, também contraria seus critérios científicos. Na nota de esclarecimento, o IPCC reafirma a necessidade da metodologia acordada entre as partes ser seguida à risca e se compromete a garantir que isto aconteça.

O segundo episódio partiu de uma investigação do jornal The Guardian, de mais de 2 mil emails da UEA -  Universidade de East Anglia, Reino Unido, obtidos ilegalmente, através de um hacker. No meio de todo este material, o jornal identificou uma mensagem afirmando que os dados de estações meteorológicas chinesas da segunda metade do século 20 não sustentariam a tese de um paper publicado na revista Nature, em 1990, separando-as em zonas rurais e urbanas. Este estudo foi citado como indicador de que a urbanização não teria um papel tão significativo no aquecimento global quanto às emissões de gases de efeito estufa (GEEs), no quarto relatório do IPCC, publicado em 2007.

Quem leu as conclusões deste relatório, contudo, pôde entender que este prioriza a aplicação de modelos globais e as simulações de larga escala e especifica que a magnitude das emissões de CO2 por alteração no uso do solo e as emissões de gás metano por fontes individuais permanecem incertezas chaves*.

*Item 6.1 Observed changes in climate and their effects, and their causes, da Síntese do Relatório. http://www.ipcc.ch/publications_and_data/ar4/syr/en/main.html

Revelação do mesmo jornal The Guardiam tumultou a COP15 – encontro entre as partes realizado em Copenhague em dezembro passado, onde se esperava ver firmado um novo acordo mundial climático - ao anunciar a existência de um rascunho de texto final, preparado antes do encontro, sem a participação dos países emergentes. Fato que foi desmentido por todas as delegações, mas que chegou a afetar o clima nas salas de negociações e desviou energia e tempo dos presentes para seu esclarecimento.

Após a divulgação das falhas nos relatórios do IPCC, efeito semelhante alcançou a comunidade científica internacional que passou a questionar: podemos confiar nos mecanismos e nas conclusões do Painel? Chris Field, professor de Stanford e chefe de parte das pesquisas do Painel em 2008, lamentou que erros tenham manchado a imagem, até então intocada, do IPCC, mas considera que eles apontam que há “a oportunidade de fazer muito melhor”, sem desmerecer o que já foi feito. Já o professor de ciência ambiental e política da Colorado University, Roger Pielke Jr desconfia de uma “avaria sistemática nos procedimentos do IPCC” e da existência de mais erros.

Entre tantas vozes, o órgão e o próprio divulgador dos erros, Graham Cogley,  os consideraram não significativos, em comparação a todo o relatório, que possui 838 páginas no total. “É como debater se o Titanic afundou mais ou menos depressa; mas não há como negar seu naufrágio” comparou, em 21 de janeiro, Yvo de Boer, secretário da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, reafirmando a gravidade do aquecimento global. Boer anunciou que a partir de julho se desligaria da ONU para se tornar um consultor independente. Ele sofreu forte pressão pela expectativa de um acordo mundial já na Conferência Climática de Copenhague e sua decisão apimentou ainda mais a situação.

Estrutura e funcionamento pouco conhecidos
Assim como as confusões sobre a COP15 mostraram que o grande público e boa parcela da própria imprensa desconhecem o mecanismo formal de uma Conferência entre as Partes, julgamentos expressos do trabalho do IPCC também revelaram uma grave ignorância sobre métodos científicos e os relatórios do Painel gerados até o momento.

Quantas pessoas leram de fato estes estudos antes de opinar sobre eles?

Incomodado com as suspeitas levantadas e as críticas "exacerbadas", segundo qualificou o chairman do órgão, Rajendra K. Pachauri, o IPCC convocou, em 16 de fevereiro de 2010, os governos a formar um comitê independente para avaliar todos os procedimentos do Painel e também examinar quais mudanças possam ser necessárias. Ao mesmo tempo, reiterou a validade do 4o Relatório, afirmando que suas conclusões são baseadas em massivas evidências de milhares de estudos científicos independentes e verificados por pares e apoiadas em múltiplas linhas de análises e bancos de dados. Para estancar as críticas, a ONU anunciou em 10 de março o patrocínio de uma revisão autônoma do trabalho científico do Painel.

A conclusão deste estudo, entregue em 30 de agosto, avalia que “os processos empregados pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) para produzir seus relatórios periódicos têm sido, de modo geral, bem sucedidos. Entretanto, o IPCC precisa reformar fundamentalmente sua estrutura gerencial e fortalecer seus procedimentos, para que possa lidar com avaliações climáticas cada vez mais complexas, bem como com uma intensa demanda pública a respeito dos efeitos das mudanças climáticas globais”, conforme informações da Agência Fapesp.

O órgão também estuda a possibilidade de ter um quadro de cientistas fixos, remunerados para uma dedicação exclusiva e não contar mais apenas com o engajamento de cientistas voluntários.

O voluntariado passou a ser motivo de preocupação na crise deflagrada. Os cientistas participantes do IPCC são, em geral, pesquisadores de Universidades ou integrantes de Ministérios e órgãos públicos de seu país. Eles mantêm sua remuneração normalmente, enquanto avaliam os estudos e emitem seus pareceres e sabem da responsabilidade e da repercussão que este trabalho tem. Contudo, precisam fazer esta tarefa junto com todas as demais sob sua responsabilidade. “Na época que eu estava tocando um dos capítulos, meu co-chair era um pesquisador japonês da Honda. Ele tinha uma porção de estagiárias ajudando. No meu caso, eu era só eu, eu e eu mesma", afirmou Suzana Kahn, secretária nacional de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente durante encontro do Painel, realizado em 1 de março em Oxford, na Inglaterra, para planejar medidas que evitem novos erros.

Em todo caso, seus autores usam sempre de cautela e diferenciam suas afirmações em "provavelmente", "muito provavelmente" e como todo bom cientista, detalham os modelos usados para simulações e suas incertezas.

A maior limitação parece estar em contar com dados meteorológicos de mais longa data e de pontos mais variados no globo. Os dados utilizados são de 1850 para cá e há regiões não cobertas, principalmente nos países ainda em desenvolvimento. Mesmo assim, em vinte anos de trabalho, comprovações importantes foram alcançadas da interferência dos GEEs emitidos por atividade humana no equilíbrio do clima.

É importante salientar que Gases de Efeito Estufa (GEE) incluem não apenas o CO2, mas também metano (CH4), óxido nitroso (N2O), perfluorocarbonetos (PFC), hidrofluorocarbonetos (HFC) e enxofre (SF6). Uma das críticas comuns às previsões do Painel é de que emissões de carbono fariam bem ao Planeta, já que este elemento é alimento para as plantas e árvores. Esta visão desconsidera que quando se fala em 'emissões de carbono' se está apenas usando uma medida de equivalência para facilitar a comunicação e o entendimento dos cenários existentes e previstos.

Todas as simulações feitas pelo IPCC, até agora, mostraram um aumento artificial da temperatura, em todo o globo. Isto, mesmo se descontando o resfriamento causado por aerossóis e por menor incidência solar registrada nas últimas décadas. Os relatórios de 1990 e de 1995 serviram para mostrar como a atividade industrial nos países mais ricos provocaria danos sérios aos mais pobres nas décadas futuras. Graças a eles, foi firmado o Protocolo de Quioto que estabeleceu metas de redução de emissões para os mais industrializados e um mecanismo de compensação. Quem não atingisse a sua meta poderia financiar projetos que reduzissem emissões nos países em desenvolvimento, ganhando por isto, "créditos de carbono".

Este também foi um mecanismo mal compreendido. Sobretudo, em seu aspecto complementar. Só pode receber crédito de carbono, quem comprova que está agindo localmente para diminuir suas emissões e que, sem o dinheiro do mecanismo, ainda não teria recursos para fazer as melhorias necessárias. Por outro lado, só pode comprar este crédito, somando-os a sua meta de redução, países também comprometidos com as mudanças internas.

De qualquer forma, a velocidade destes projetos ficou prejudicada pela complexidade e custos de sua elaboração e aprovação junto aos organismos internacionais, onde toda documentação deve ser encaminhada em inglês. Mesmo assim, foram financiados a transformação de lixões em aterros; a captura e queima do metano (gás 21 vezes mais potente na geração do efeito estufa que o CO2); biodigestores e o reflorestamento de áreas degradadas, entre outras iniciativas. O Protocolo vence em 2012 e está sendo arquitetada uma renovação, que poderá abranger a remuneração por desmatamento evitado (REDD). Espera-se, inclusive, a adesão dos EUA ao novo acordo.

Resultado de Copenhague

Os EUA ficaram de fora do Protocolo de Quioto, no final dos anos 90, por não acreditar no efeito das emissões industriais sobre o clima global. Enquanto o terceiro relatório, de 2001, apontava evidências fortes do efeito da ação industrial sobre o aquecimento global, considerando-o "provável" (66% de chances ou mais), a análise de 2007 (IPCC AR4) concluiu como "muito provável" (até 90% de chance) que as atividades humanas, lideradas pela queima de combustível fóssil, estejam fazendo a atmosfera esquentar desde meados do século 20. Os últimos 11 anos, 1995-2004 (com exceção de 1996), estão entre os mais quentes no período e a Terra está se aquecendo mais no Hemisfério Norte.

Os EUA agora se convenceram deste fato, mas, sempre competitivos, apontam para a necessidade de todos os maiores poluidores se comprometerem com uma redução, mesmo aqueles ainda em desenvolvimento como China, Brasil e Índia. Sem isto, continuam resistindo a abraçar metas específicas internas e seu Congresso chegou ao ponto de proibir que Estados o fizessem voluntariamente, como aconteceu com a Califórnia. Este impasse e mais incertezas quanto às metas de redução necessárias passaram a elaboração de um documento final para o próximo encontro das partes no México, em 2010. Isto causou grande frustração aos que esperavam um novo acordo já na COP15 em dezembro passado. Contudo, o caminho está pavimentado para as negociações terem sucesso antes do vencimento do atual Protocolo. O próprio presidente norte-americano, Barack Obama, propôs no final da COP15, uma lista de compromissos, aceita no ato por África do Sul e Brasil e, em março deste ano, pela China e Índia. Este documento chamado de “Acordo de Copenhague” ainda não tem detalhamentos de metas e nem validade de lei, mas já reúne interlocutores de peso para a formulação de um documento legal futuro. Carlos Nobre, doutor em meteorologia e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), observa: “Copenhague não deu muito certo, mas há um movimento mundial de transição para uma economia de baixo carbono”.

Outra voz de peso que faz uma análise otimista da situação é Al Gore, ex-vice-presidente norte-americano, realizador do documentário Uma Verdade Inconveniente, ganhador junto com o IPCC do Nobel da Paz de 2007 por seu esforço em combater as mudanças climáticas. Al Gore defende que temos tempo e ferramentas suficientes para solucionar até três ou quatro crises do clima, como a que estamos atravessando em seu novo livro “Nossa Escolha”.

O que falta?

Mais do que um acordo global, o Planeta precisa de ações locais imediatas. Mesmo sem todo este esforço de pesquisas, é fácil perceber que poluir o ar, o solo e as águas é destruir vida. Como atender uma demanda crescente de consumo por itens industrializados, lazer, viagens etc. sem sacrificar a Natureza e eliminar os serviços ambientais que ela nos presta? Esta é a pergunta para a humanidade decifrar. Tentar respondê-la de forma unificada, para além de fronteiras políticas, compartilhando descobertas, tecnologias e recursos naturais, dentro de uma visão de responsabilidade universal, pode custar muito menos a todos do que uma corrida de "salve-se quem puder".

O Planeta nos dá sinais claros que já não suporta tanta pressão. Escolher a cooperação, em vez da bruta competição entre nações que marcou os séculos passados, pode ser a decisão mais inteligente para enfrentar os impactos das mudanças já em curso.

“A ação humana tem capacidade para alterar o clima, tanto para melhor, quanto para pior. Podemos desertificar uma área, desmatando, eliminando elementos que retêm as águas ou diminuem sua velocidade, para que elas infiltrem no solo e podemos fazer o contrário”, apontou José A. Marengo, pesquisador do CPTEC/INPE, em um extenso estudo elaborado em colaboração com o Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP/IAG) e com a Fundação Brasileira de Desenvolvimento Sustentável (FBDS).

Marengo afirma que as informações transmitidas ao público em geral têm sido, quase sempre, muito concisas e, por vezes, imprecisas. Neste sentido, não somente a população, mas principalmente os tomadores de decisão, nem sempre têm conseguido discernir as certezas e incertezas com relação às variações do clima presente e, principalmente, do futuro.

Como um relatório é gerado

As análises do IPCC são as mais completas de que dispomos. Elas são realizadas por três Grupos: um centrado em Base Científica, outro no estudo da Vulnerabilidade, Consequências e Adaptação e o terceiro na Mitigação, apontando onde e como é possível reduzir as emissões de GEEs. Além disto, o Painel mantém uma força tarefa em Inventários Nacionais de GEEs e um grupo de apoio em dados e cenários para análises de clima e seus impactos. Este último cuida, sobretudo, de tornar acessível os dados utilizados e gerados pelo Painel, o que faz por meio de Centro de Distribuição, de consulta aberta em http://www.ipcc-data.org/.

Os relatórios levam em conta manifestações climáticas periódicas, como as correntes El Nino e a El Nina e também o fato de que o clima regional e o global podem mudar com o desmatamento e outras atividades associadas ao uso da terra, como a agricultura e construção de grandes cidades. Prédios e asfalto retêm muito mais radiação térmica do que as áreas não-urbanas. Assim, buscam registros de temperatura fora dos grandes centros e também sobre os oceanos. No Brasil, por exemplo, o INMET – Instituto Nacional de Metereologia administra mais de 400 estações, espalhadas por todo o país, sendo 29 de altitude. O Instituto possui 10 Distritos Regionais que recebem, processam e enviam estes dados para sua sede, em Brasília. Esta, por sua vez, processa estes dados e os envia por satélite para todo o mundo.

Os estudos do IPCC utilizam dois modelos de clima: Modelos Globais Atmosféricos (GCMs) ou Modelos Globais Acoplados Oceano-Atmosfera (AOGCMs). As simulações acontecem segundo quatro cenários: A1 é o cenário que descreve um mundo futuro onde a globalização é dominante; A2 é o cenário que descreve um mundo futuro muito heterogêneo onde a regionalização é dominante; B1 é o cenário que descreve uma rápida mudança na estrutura econômica mundial, onde ocorre uma introdução de tecnologias limpas e B2 é o cenário que descreve um mundo no qual a ênfase está em soluções locais, na sustentabilidade econômica, social e ambiental.

Como o planeta é dinâmico, há muitas variáveis nas previsões realizadas. Sobretudo porque novos elementos modificam as condições naturais constantemente. Assim, os cientistas convivem com várias incertezas para suas análises e previsões. Marengo define as principais como:

- Incertezas nas emissões futuras de gases de efeito estufa e aerossóis e nas atividades vulcânica e solar que afetam o sistema climático;

- Incertezas na inclusão de efeitos diretos do aumento na concentração de CO2 atmosférico nas plantas e do efeito de comportamento das plantas no clima futuro;

- Incertezas na sensibilidade do clima global e nos padrões regionais das projeções do clima futuro simulado pelos modelos. Isto devido às diferentes formas em que cada AOGCM representa os processos físicos e os mecanismos do sistema climático. Cada AOGCM simula um clima global e regional com algumas diferenças nas variáveis climáticas como temperatura do ar, chuva, nebulosidade e circulação atmosférica.

- Variabilidade natural do clima, derivadas de perturbações internas do sistema climático (não forçadas pelos gases de efeito estufa) e associadas à poluição atmosférica e liberação de gases de efeito estufa, devido ao desenvolvimento industrial em muitos países do mundo.

Olhando-se para isto, pode-se entender porque um consenso em relação a metas e compromissos é um exercício complexo que demanda tempo. As novas tecnologias em satélites e supercomputadores e o desenvolvimento de modelos acoplados, que incluem mais realisticamente as interações da vegetação e carbono com a baixa atmosfera e com uma resolução espacial maior, podem ajudar a reduzir as dúvidas nas previsões climáticas para os anos por vir. O quarto relatório do IPCC já é uma prova disto, atingindo graus maiores de probabilidade em relação aos relatórios anteriores, como já citado.

Uma perspectiva ainda mais ampliada, como o fato de todo o sistema solar estar em movimento no universo e isto também afetar as condições terrestres, também pode trazer novidades e aspectos até agora ignorados nas simulações e previsões. Em todo caso, o trabalho conjunto organizado pelo IPCC já cumpriu o objetivo mais importante: chamar a atenção para a necessidade de mudança e da atividade humana reencontrar um ritmo em equilíbrio com os ciclos naturais, o quanto antes.

Que país fará isto primeiro é realmente a pergunta errada. O jogo de "só faço, se você fizer também" pode levar ambas as partes a colapsos indesejados. A humanidade, em horas de cataclismos, demonstra que a solidariedade prevalece. Unir forças e privilegiar, não um sistema econômico artificial, sem lastros reais, mas, sim os elementos vitais de sobrevivência é uma opção presente. Resta saber quando acordaremos para ela e, em vez de contas bancárias polpudas ou negociações internacionais infindáveis, que geram contratos e dívidas, negociados por outros contratos e dívidas, iremos preferir investir em rios, ar e cidades limpas.

Se governantes demoram a se decidir, a população pode agir por conta própria, reduzindo seu consumismo, usando água e energia com mais consciência e evitando comprar aquilo que não tem descarte adequado já estabelecido. Se ao contrário, a população demora a se conscientizar, os governantes podem acelerar o processo através de campanhas, leis e fiscalização eficazes. Ao mesmo tempo, empresários podem buscar melhores tecnologias e processos, garantindo a sobrevivência de seus negócios no futuro. Construir uma nova cultura, pautada na responsabilidade socioambiental, é uma tarefa que cabe a todos.

Muitas soluções inovadoras já existem. Urge multiplicá-las. Quem olha para o planeta como um todo, sabe desta premência. Comunicá-la aos que ainda não compreenderam é perturbar egoístas e acomodados e despertar reações muitas vezes destrutivas. Os integrantes do IPCC que o digam.

(Agência Envolverde)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A reforma do painel do clima

A Conferência de Copenhague, no final do ano passado, deixou claro mais uma vez que o peso dos interesses nacionais e das forças que movem a economia mundial impede os governos de chegar a um acordo que obrigue os países mais poluidores a adotar medidas de contenção das emissões de carbono e outros gases estufa comprovadamente responsáveis pelo aquecimento global. A essa constatação veio se somar a erosão da credibilidade do organismo multilateral criado para tomar o pulso do clima do planeta e fazer prognósticos fundamentados sobre as tendências para as décadas futuras.

Trata-se do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), das Nações Unidas, que reúne mais de 2 mil cientistas e representantes de 194 países. Desde a sua constituição, em 1998, o IPCC produziu quatro relatórios que concluíram que o aquecimento da atmosfera terrestre é um fenômeno real, causado predominantemente pela atividade humana. Em 2007, a entidade dividiu o Prêmio Nobel da Paz com o ex-vice-presidente americano Al Gore, por seus esforços em defesa do ambiente. A comunidade política internacional, que permaneceu inativa diante da crise do clima, começa a enfrentar os problemas do IPCC.

A validade de seus diagnósticos gerais não é contestada pela imensa maioria dos estudiosos do clima. No entanto, por falhas de direção, insuficiente transparência e, sobretudo, previsões infundadas sobre os efeitos do aquecimento em casos particulares, apresentadas mais com sensacionalismo do que com responsabilidade profissional, o IPCC abriu o flanco aos céticos da mudança climática, que semeiam dúvidas sobre a integridade de seus membros. O alvo tem sido o indiano Rajendra Pachauri, que preside o painel desde 2002 e cujo mandato vai até 2014. Ele aprecia os holofotes da mídia mais do que seria prudente para um cientista na sua posição.

O desgaste do IPCC levou a ONU a encomendar a uma organização independente, formada por 12 representantes de sociedades acadêmicas de diversos países, entre eles o Brasil, uma auditoria sobre as deficiências da instituição. O seu parecer pede reformas profundas na estrutura, procedimentos e políticas do IPCC. O texto insta os seus integrantes a dialogar com cientistas de linhas divergentes, atentar para a possibilidade de conflitos de interesse e se guardar de dizer aos governos como devem agir. Propõe ainda a criação de um comitê executivo profissional aberto a terceiros e a redução do mandato do presidente de 12 para 6 anos. (Pachauri fez de conta que não era com ele.)

A maior preocupação do secretário-geral Ban Ki-moon, que encomendou a auditoria, é que as disfunções do IPCC ponham em risco o papel da ONU como foro central da questão climática. Entre os ambientalistas, há quem tema que novos erros pontuais do painel sejam alardeados, como os outros têm sido, pelos descrentes do aquecimento como prova de que os seus relatórios são deliberadamente falseados. O episódio mais notório foi a publicação de mais de um milhar de e-mails furtados de uma universidade britânica.

As mensagens demonstrariam que pesquisadores da instituição, ligados ao IPCC, manipularam e se recusaram a compartilhar dados para servir à causa ambiental. Uma investigação exaustiva concluiu que pelo menos a primeira parte da acusação era falsa. Pior foi a afirmação categórica do IPCC, em documento oficial, de que as neves eternas das montanhas do Himalaia estavam fadadas a derreter até 2035. Quando as autoridades indianas protestaram, Pachauri as chamou de "arrogantes". Dois meses depois, ele admitiu o erro, confessando que o IPCC endossou a profecia, originária de uma notícia de jornal e repassada por uma ONG, sem submetê-la a exame científico. Com a agravante de que dois especialistas que se opuseram à publicação foram ignorados.

Em outubro, delegados dos países-membros do IPCC se reunirão na Coreia do Sul para avaliar a auditoria. O melhor que podem fazer é aprovar - e implementar tão logo possível - as suas recomendações.

Fonte: O Estado de São Paulo

terça-feira, 31 de agosto de 2010

IPCC precisa de reforma "fundamental", constata comitê ligado a ONU

 

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon (à esq.) e o atual chefe do IPCC, Rajendra Pachauri, ainda vão ler o documento de revisão do IPCC/Foto: Eskinder Debebe/UN

Apesar de ter sido avaliado positivamente no âmbito geral, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC) necessita de uma reforma fundamental em relação a maneira como é gerenciado, no intuito de se evitar erros, anunciou nesta segunda-feira, 30 de agosto, o grupo de especialistas responsável por revisar o relatório de 2007.

O IPCC foi duramente criticado há três anos em razão de erros cometidos no último relatório do órgão, que divulgava, por exemplo, a previsão de que as geleiras do Himalaia poderiam desaparecer até 2035 - estimativa posteriormente desconsiderada. Apesar de o documento apresentar mais acertos do que equívocos, o episódio ajudou a reforçar o movimento dos chamados "céticos do clima", que negam a existência do aquecimento global.

O chefe do comitê de especialistas que revisou o desempenho do órgão, Harold Shapiro, elogiou o trabalho do IPCC à frente das avaliações sobre o clima. "Em nossa opinião, de forma geral, o trabalho do IPCC tem sido um sucesso e serve positivamente à sociedade." Contudo, o líder do InterAcademy Council (IAC) fez uma ressalva, ao afirmar que a reação do órgão da ONU sobre os erros de 2007 foi feita de forma "lenta e inadequada".

Conclusões

Uma das recomendações do comitê sugere que o IPCC deverá nomear um diretor-executivo que se encarregue de atividades diárias, seja considerado um porta-voz do órgão e permaneça no cargo apenas durante os cinco anos da elaboração de cada um dos relatórios.

Atualmente, as regras estabelecem que o chefe do IPCC (hoje é o indiano Rajendra Pachauri) pode permanecer no cargo por dois mandatos de seis anos. Pachauri foi eleito para o cargo em 2002 e reeleito para um segundo mandato em 2008.

Em entrevista concedida nesta segunda-feira, Pachauri, esclareceu que não comentaria o resultado do relatório porque ele ainda não havia lido o documento. Ao ser perguntado se renunciaria ao cargo, o indiano mostrou-se disposto a implementar as mudanças sugeridas e que não especularia sobre nenhum ponto antes de ler a revisão. O atual chefe do IPCC ressaltou que quaisquer que sejam as ações e recomendações, "elas ajudarão a guiar as futuras avaliações sobre a ciência das mudanças climáticas".

A revisão também recomenda que os grupos de trabalho do IPCC passem a adotar diretrizes semelhantes ao analisar as incertezas referentes a ciência climática, com o objetivo de que haja mais coerência entre eles. Hoje esses comitês usam critérios diferentes.

"O que o IAC espera é uma contribuição especial para que os trabalhos do IPCC tenham a base científica mais sólida possível, o que é fundamental para que as conclusões e projeções tenham legitimidade junto a governos e ao público", explicou ao jornal O Estado de S.Paulo o físico Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) - único brasileiro entre os 12 membros do comitê.

O InterAcademy Council elogiou a utilização de trabalhos acadêmicos ainda não revisados ou divulgados em publicações científicas pelo IPCC, mas ponderou que os autores devem seguir mais de perto as diretrizes do órgão, embora algumas delas tenham sido consideradas vagas.

Agilidade

Em nota, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, agradeceu aos revisores do relatório, e afirmou que devido à gravidade das mudanças climáticas, é vital que o mundo receba as melhores avaliações sobre o tema por meio do IPCC. Ele informou que vai ler o documento, além de pedir aos 194 países-membros do painel que também o examinem e tomem a ação apropriada o mais rápido possível.

Segundo o IPCC, o erro cometido em 2007 não muda o fato de que a ação humana contribui diretamente para o agravemento do aquecimento global.

As recomendações do comitê serão discutidas na próxima sessão plenária do IPCC, entre os dias 11 e 14 de outubro, na Coreia do Sul.

 

domingo, 29 de agosto de 2010

Revisão do IPCC será divulgada no dia 30

Por Redação da agência Fapesp 


Agência FAPESP – A revisão dos procedimentos e processos do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), conduzida por um comitê independente de especialistas, será divulgada na próxima segunda-feira (30/8), às 11h (hora de Brasília), na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.

O documento será entregue pelo InterAcademy Council (IAC), organização que reúne academias de ciências de diversos países e que conduz a revisão, ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e ao presidente do conselho do IPCC, Rajendra Pachauri.

O relatório, intitulado “Climate change assessments: review of the processes and procedures of the IPCC”, será divulgado em seguida em uma coletiva de imprensa que será transmitida ao vivo pela internet, no endereço: www.un.org/webcast.

O comitê de 12 especialistas responsável pela revisão é coordenado pelo economista Harold Shapiro, ex-reitor das universidades Princeton e de Michigan, nos Estados Unidos. O Brasil está representado no comitê por Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP.

A revisão do IPCC foi solicitada pelas Nações Unidas. O comitê revisou os procedimentos empregados pelo painel na preparação de seus relatórios. Entre os assuntos analisados estão o controle e a qualidade dos dados utilizados e a forma como os relatórios lidaram com diferentes pontos de vista científicos.

“O que o IAC espera do comitê é uma contribuição especial para que os trabalhos do IPCC tenham a base científica mais sólida possível, o que é fundamental para que as conclusões e projeções tenham cada vez maior legitimidade junto a governos e ao público em geral”, disse Brito Cruz.

Entre os integrantes do comitê de revisão estão Maureen Cropper, ex-economista chefe do Banco Mundial, Mario Molina, ganhador do Nobel de Química em 1995, e Peter Williams, vice-presidente da Royal Society.

Roseanne Diab, diretora da Academia de Ciências da África do Sul, é a vice-presidente do comitê, que teve seus integrantes indicados pelas academias de ciência que fazem parte da IAC.

Mais informações: http://www.interacademycouncil.net/ipccreview.

(Envolverde/Agência Fapesp)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Especialistas pedem mais agilidade ao IPCC


Especialistas em clima reivindicam que os cientistas do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU) devam ser mais ágeis para apontar as tendências do aquecimento global e corrigir os erros do polêmico relatório de 2007.

O relatório de revisão do IPCC deverá ser divulgado em 30 de agosto. No dia 10 de março, você viu aqui no EcoD que o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, solicitou uma investigação independente após a confirmação de alguns dados equivocados, como o que projetava o derretimento das geleiras do Himalaia até 2035, além de números exagerados sobre o nível do mar na Holanda.

"É uma crise embaraçosa, mas tem sua utilidade", afirmou Hans Joachim Schellnhuber, diretor do Instituto Potsdam de Pesquisa dos Impactos do Clima, que não participa da investigação. Ele e outros especialistas destacaram que o IPCC poderia ter um papel maior em impedir eventos naturais extremos, como as enchentes no Paquistão e as ondas de calor na Rússia.

"É preciso que haja mais avaliações em tempo real do clima", exemplificou Kevin Trenberth, chefe de análises climáticas do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica dos EUA. O climatologista também sugere mudanças no atual formato do relatório, classificado por ele como "atrapalhado".

"É uma espécie de bíblia escrita a cada sete anos. Seria melhor ter relatórios menores, mais atualizados. Isso não impediria que houvesse uma publicação principal em 5, 6 ou 7 anos", Hans Joachim Schellnhuber.

Demora

O grupo de revisão, integrado pelo físico brasileiro Carlos Henrique de Brito Cruz, apresentará as recomendações de melhorias no IPCC para o secretário-geral Ban Ki-moon em 30 de agosto. O próximo relatório está previsto para o biênio 2013-14.

Uma das preocupações dos especialistas é a demora do painel para corrigir os erros. O grupo levou meses para consertar as informações sobre o Himalaia, o que aumentou a percepção de que o IPCC era insensível às críticas.

Os especialistas também criticaram os métodos de trabalho do painel. Segundo eles, é preciso que haja maior rigor científico nos documentos que são levados em consideração. (EcoDesenvolvimento.org)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Polvo Paul apresenta relatório sobre Aquecimento Global

polvo aquecimento global Polvo Paul apresenta relatório sobre Aquecimento Global

Polvo Paul volta a se apresentar após encerramento da Copa do Mundo

Ao retomar suas atividades como consultor independente após o término da Copa do Mundo 2010, o alemão Paul der Krake, mais conhecido como Polvo Paul, apresentou um relatório sobre o aquecimento global. O resultado, encaminhado nesta terça-feira ao IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), não traz grandes preocupações. Segundo o molusco, todas as teorias supervalorizam o problema.

A apresentação foi realizada em seu aquário em Oberhausen, na Alemanha. Dentro dele, dois relatórios feitos por cientistas de correntes divergentes foram colocados em caixas separadas com a mesma quantidade de comida em cada uma.

Um dos estudos, feito pelo controverso cientista italiano Filipe Luna, defende a tese de o aquecimento global ser um problema sério e apenas com a mobilização de toda a população mundial poderá ser atenuado. Já o estado-unidense John McFarrell segue outra direção, não acreditando em grandes consequências ao meio-ambiente.

“O aquecimento global não existe. É uma invenção dos comunistas da velha Alemanha Oriental que insistem em interferir em nosso crescimento”, afirmou McFarrell, pesquisador de Wall Street.

Já Luna demonstrou imensa preocupação. “A aquecimento global é real e está diante do nós. É inadmissível que continuemos assim, mas juntos podemos mudar. Não podemos acreditar em um polvo”, afirmou.

A partir do relatório escolhido por Paul, a ONU planeja montar uma conferência para discutir se realmente há a necessidade de métodos para impedir as consequências decorrentes do suposto aumento da temperatura

Fonte: por Plínio Santana, Agência Barrelas, Portugal - 20 de julho de 2010,

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Catástrofes naturais na Eurásia sustentam alertas sobre mudanças climáticas

PARIS, Rússia — As catástrofes naturais observadas nos últimos dias em todo o mundo - secas prolongadas, inundações e forte calor - parecem confirmar as perspectivas sombrias dos cientistas sobre os efeitos das mudanças climáticas.

Enquanto Moscou está asfixiada pela forte onda de calor e pelos incêndios, que inclusive ameaçam arrasar instalações nucleares do país, o Paquistão soma 15 milhões de afetados por inundações sem precedentes, e Índia, China e Europa Central lutam também contra os efeitos das chuvas torrenciais, que deixaram centenas de vítimas fatais.

Os climatologistas consultados esta segunda-feira pela AFP se negaram a vincular diretamente as catástrofes que castigam os países citados, mas todos as consideraram "coerentes" com os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) dos últimos vinte anos.

"São acontecimentos que devem se repetir ou intensificar em um clima perturbado pela contaminação de gases de efeito estufa", explicou Jean-Pascal Van Ypersele, vice-presidente do IPCC.

"Não se pode jurar 100% que nada disto teria acontecido há 200 anos, mas a suspeita está aí", acrescentou.

"Os eventos extremos são uma das formas com que as mudanças climáticas se fazem dramaticamente perceptíveis", destacou.

Segundo a Agência Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês), o planeta nunca foi tão quente quanto no primeiro semestre de 2010. Segundo o IPCC, em um clima cada vez mais quente, as secas e as ondas de calor como a observada na Rússia e em 18 dos Estados norte-americanos serão mais intensas e mais prolongadas.

"Seja em frequência ou intensidade, praticamente a cada ano são batidos níveis recorde e inclusive várias vezes em uma semana. Na Rússia, no começo de agosto, foi batido o recorde absoluto (de temperatura), observado em Moscou, desde o início dos registros há 130 anos (38,2°C). No Paquistão, as inundações nunca tiveram tamanha amplitude geográfica", destacou Omar Baddour, encarregado do acompanhamento do clima mundial na Organização Meteorológica Mundial (OMM).

"Nos dois casos, nos deparamos com uma situação sem precedentes", constatou. "A sucessão de extremos e a aceleração dos recordes são conformes às projeções do IPCC. Mas será preciso observar estes extremos ao longo de vários anos para tirar conclusões sobre o clima", argumentou.

Mais ainda quando as inundações no Paquistão podem ser atribuídas ao fenômeno La Niña, que ao contrário do El Niño, se caracteriza pelo resfriamento da temperatura na superfície do Pacífico central.

"Via de regra, o El Niño provoca uma seca no subcontinente indiano e no Sahel. Com La Niña, é o contrário", destacou Omar Baddour.

Para o climatologista inglês Andrew Watson, o calor de 2010 está ligado ao El Niño do ano passado.

"Sabemos que depois do El Niño, segue-se um ano particularmente quente, e sendo assim é o que acontece este ano", observou.

Os acontecimentos observados neste verão boreal são "totalmente coerentes com os informes do IPCC e com o que 99% dos cientistas acreditam que ocorrerá", resumiu o professor Watson, pesquisador da Royal Society e professor do departamento de Meio Ambiente da Universidade de East Anglia, na Inglaterra.

O professor Watson procura, no entanto, ser prudente: "estou quase certo de que o aumento na frequência deste tipo de verão há 20 ou 30 anos está ligado às mudanças climáticas. Mas a gente não se pode basear em apenas um acontecimento ou em um só verão" porque "as mudanças climáticas se medem na média de uma década".

Fonte: http://www.google.com/hostednews/afp/article/ALeqM5iXdNFO5Poofs7OC1MZwrzqWH5YDg

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

ONU defende IPCC em erro sobre Himalaia

Homem caminha com criança em frente à geleira de Gankar Punsun em Dochula no Butão: há mais de 90% de certeza de que a atividade humana é a principal causa das mudanças climáticas globais.

OSLO - A ONU saiu hoje em defesa da sua comissão científica para o clima, criticada por ter feito um alerta infundado a respeito do degelo dos glaciais do Himalaia.

Achim Steiner, chefe do Programa de Meio Ambiente da ONU, que patrocina o Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), disse que esse órgão científico "continua sendo sem dúvida o melhor e mais sólido fundamento" para a avaliação da questão climática no planeta.

Steiner disse que as críticas ao IPCC e ao seu presidente, Rajendra Pachauri, alcançaram "proporções quase de caça às bruxas em alguns quadrantes", e que por

conta de um erro houve quem chegasse a equiparar a mudança climática "a um boato comparável ao bug do milênio".

No mês passado, o IPCC se desculpou pelo exagero em um relatório que alertava que as geleiras do Himalaia podem derreter completamente até 2035.

Steiner disse que é correto expor erros e cruzar fontes, e que também é correto o fato de a comissão ter admitido a necessidade de controles mais rígidos. O IPCC foi criado em 1988 pelo Programa de Meio Ambiente e pela Organização Meteorológica Mundial.

"Deixemos de lado também o mito de que a ciência da mudança climática está com um rombo abaixo da linha da água e está afundando rapidamente em um mar de

falsidades", escreveu ele num artigo distribuído à imprensa internacional.

Steiner disse que o erro ocorreu por causa de um "erro tipográfico", já que uma fonte original havia cogitado o degelo das geleiras do Himalaia até 2350, e não 2035.

"O IPCC é tão falível quanto os seres humanos que o compõem", argumentou.

Mas o erro - e a exposição de checagens mal feitas e do uso de uma "literatura cinzenta", fora das publicações revisadas por cientistas - danificou a imagem do IPCC, que em 2007 recebeu o Prêmio Nobel da Paz junto com o ativista climático Al Gore.

No mesmo ano, o IPCC concluiu que há mais de 90% de certeza de que a atividade humana é a principal causa das mudanças climáticas globais.

As conclusões do IPCC não são meramente acadêmicas, pois podem influenciar medidas políticas com um impacto econômico de trilhões de dólares.

Pachauri prometeu que não irá deixar o cargo por causa da polêmica, e Steiner afirmou que ao longo dos anos a comissão se guia "pela cautela, e não pelo sensacionalismo". Ele lembrou ainda que desde 2007 o IPCC vem sendo criticado por ser conservador demais na sua projeção sobre a possível elevação do nível dos mares neste século.

Fonte: http://info.abril.com.br/

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Empresas e governos temem luta climática

Yvo de Boer, chefe climático da ONU: ataques ao Painel Intergovernamental sobre as
Mudanças Climáticas (IPCC) podem ter sido orquestradas por céticos climáticos e interesses corporativos.
NOVA DÉLHI - Certos países e certas empresas sentem-se ameaçados pelos esforços crescentes de combate às mudanças climáticas, disse o chefe climático da ONU, Yvo de Boer.

De Boer falou em meio a uma controvérsia em torno de projeções incorretas sobre derretimento de geleiras feitas pelo painel climático das Nações Unidas. O erro nas projeções levou ao questionamento da credibilidade do painel e a ataques pessoais contra seu chefe, Rajendra Pachauri.

Pachauri declarou que não vai renunciar ao cargo em função de uma previsão de que as geleiras do Himalaia desaparecerão até 2035.

"Eu gostaria de saber se há um ataque organizado contra a comunidade científica, e de onde está partindo", disse De Boer a jornalistas.

"Não sei se há uma campanha. Sei que há empresas e países que estão muito seriamente preocupados com a possibilidade de serem economicamente prejudicados por ações ambiciosas para fazer frente às mudanças climáticas", acrescentou.

Pachauri disse ontem ao jornal Financial Times que os ataques ao Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas (IPCC) e a ele próprio são "cuidadosamente orquestradas" por céticos climáticos e interesses corporativos.

De Boer falou que a projeção errônea feita em um estudo de 2007 pode ser usado como munição por céticos climáticos. Mas defendeu o histórico de atuação de Pachauri e disse que o erro não enfraquece o consenso internacional amplo sobre as mudanças climáticas.

"Árvores altas recebem muito vento. O Dr. Pachauri é uma árvore alta", disse ele ao ser perguntado sobre os ataques a Pachauri.

Erros em relatórios do IPCC podem ter efeito prejudicial, já que as conclusões do painel servem de balizas para políticas governamentais. O governo indiano e alguns pesquisadores climáticos criticaram o IPCC por ter exagerado o encolhimento das geleiras do Himalaia.

Em declarações separadas, o ministro do Meio Ambiente da Índia, Jairam Ramesh, disse que o governo criou um painel nacional sobre as mudanças climáticas e que o organismo entregará sua primeira avaliação em novembro.

"Não é um rival do IPCC - é uma espécie de IPCC indiano", disse Ramesh ao canal de notícias indiano Times Now, "Não podemos depender unicamente do IPCC."

Já tivemos equívocos sobre as geleiras, equívocos sobre a Amazônia, equívocos sobre os picos nevados, sobre algumas montanhas, mas o IPCC é um organismo responsável", acrescentou.

A polêmica surgiu após a cúpula da ONU sobre mudanças climáticas em Copenhague, em dezembro, que produziu resultados apenas moderados.

Desde então, mais de 50 países, responsáveis por quase 80 por cento das emissões globais, se comprometeram com metas para combater as mudanças climáticas. A próxima reunião anual da ONU será no México, no final do ano.

O fato de as negociações da ONU não terem conseguido resultar em um pacto, apesar do prazo final fixado para o fim de 2009, dois anos depois de as negociações terem sido iniciadas em Bali, na Indonésia, em 2007, pôs em dúvida o papel futuro da ONU.

Enquanto isso estão previstas reuniões menores entre diversos agrupamentos de países, mas De Boer disse que elas não prejudicarão a capacidade da ONU de orquestrar um pacto mais substancial.

"Não é uma situação de ou uma coisa, ou outra", afirmou.

Fonte: info.abril.com.br

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Que “Climategate”?

A Grosso modo Rajendra Pachauri, líder do  IPCC, defende seus colegas ingleses cujos  e-mails forjados deram início a um grande debate sobre a credibilidade da linha principal das ciências climáticas.

A falsificação de e-mails de um Centro de Pesquisas Britânico líder em mudanças climáticas é um “ato terrível e ilegal”, de acordo com  Rajendra Pachauri,  líder do  IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas)  advertindo as negociações da ONU sobre o clima.

“Eu acho que isso é um ato ilegal. O único aspecto que deve ser lidado levando em consideração essa ocorrência, é achar quem está por trás disso,” Mr. Pachauri disse a uma conferencia da imprensa de acordo com o  AFP.

Os e-mails foram  forjados de computadores da Universidade East Anglia. Alguns dos e-mails parecem refletir tentativas de cientistas que seguem a linha de pensamento comum, para bloquear publicações de artigos de cientistas com diferentes opiniões. O caso foi nomeado pela mídia como “Climategate”. Isto é uma frase enganosa de acordo com  Rajendra Pachauri:

“Só podemos supor que aqueles que realizaram esse ato, o fizeram com a clara intençao de influenciar o processo em Copenhague– mas, barrando poucas vozes isoladas, as pessoas aqui estão totalmente convencidas da solidez dos dados encontrados no relatório do IPCC.”

O secretario da ONU, Ban Ki-moon concordou: “Nada que foi divulgado ao público como resultado do recente forjamento de e-mails, colocou dúvidas na mensagem básica científica das mudanças climáticas, e essa mensagem é muito clara – o clima está mudando muito, mais rapidamente do que nos achávamos e nós humanos somos a causa principal,”  alegou Ban Ki-moon, de acordo com o Reuters.

AmbienteBrasil

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

IPCC brasileiro vai melhorar combate ao aquecimento global

Jefferson Rudy
 
Foto IPCC brasileiro vai melhorar combate ao aquecimento global 
Minc disse que não há divergências entre a estimativa do MMA e os dados com os quais o MCT trabalha. Segundo ele, os números têm a mesma origem, como Empresa Brasileira de Energia, Inpe, entre outras fontes utilizadas para o relatório de 2010.
24/11/2009
Paulenir Constâncio

Durante a solenidade de posse dos titulares do Painel Brasileiro de Mudanças do Clima, nesta terça-feira (24/11), no Ministério da Ciência e Tecnologia, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, destacou a importância do trabalho de sistematização dos conhecimentos, que já vem sendo feito desde o lançamento do fórum em setembro deste ano. Segundo ele, os dados vão permitir ao País adotar políticas públicas de mitigação e adaptação ao aquecimento global com segurança muito maior.

Ele falou da expectativa de que o resultado do trabalho dos mais de 100 cientistas, de várias instituições que integram o grupo, seja utilizado para garantir que os recursos captados para a mitigação e adaptação às mudanças do clima, como os R$ 800 milhões previstos para o Fundo Clima, sejam aplicados de forma correta, onde realmente haja necessidade.

O ministro citou o caso da Região Nordeste, onde as estimativas dão conta de que 1/3 da economia será afetado pelo aquecimento global, para ilustrar a necessidade de o País trabalhar com dados atualizados, que definam a vulnerabilidade em cada bioma. Segundo explicou, os estudos serão a base para os futuros projetos de enfrentamento das mudanças climáticas.

A versão brasileira do IPCC, além de pioneira, vai dar regionalidade aos dados, explicou Suzana Kahn, secretária de Mudanças Climáticas do MMA, empossada no cargo de presidente do Comitê Científico do painel brasileiro. Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que assume a presidência do fórum, ressaltou a necessidade do acúmulo de conhecimentos necessários à tomada de decisão sobre que ações implementar para reduzir as emissões. Segundo ele, "o Painel será um guia das políticas públicas".

Já a secretária Suzana disse que, além da regionalização dos dados, o painel vai permitir que seja produzida uma base em literatura científica, da qual o Brasil é carente. O IPCC trabalha com dados gerais e sua versão nacional permitirá que se tenha uma visão dos problemas localizados em áreas específicas. Parte dos cientistas que atuarão no painel brasileiro, já atuam no IPCC da ONU, o que fará com que os relatórios e publicações produzidas possam servir também como base para o trabalho do painel das Nações Unidas.

Para ela, os formuladores de políticas públicas terão uma perspectiva atualizada de onde haverá os maiores impactos do aquecimento e saberão direcionar as ações para onde elas são mais importantes.

Inventário

A reunião serviu, ainda, para que os ministros do Meio Ambiente e da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, esclarecessem as dúvidas sobre o inventário brasileiro de emissões.

Minc disse que não há divergências entre a estimativa do MMA e os dados com os quais o MCT trabalha. Segundo ele, os números têm a mesma origem. São dados da Empresa Brasileira de Energia, do Inpe e de várias fontes utilizadas pela equipe que irá apresentar, em meados de 2010, o novo relatório, que atualiza o de 1992. Rezende informou que o prazo para o Brasil apresentar seu levantamento vai até 2011 e que no segundo semestre do ano que vem ele será submetido a consulta pública pelo MCT.

"Os dados até agora são preliminares como em qualquer relatório, como o PIB (Produto Interno Bruto), por exemplo", explicou Rezende.

ASCOM

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Conversa morna até aqui em Poznan

Por Leticia Freire, do Mercado Ético

Nem mesmo os dados alarmantes do IPCC (veja detalhes abaixo), sobre as conseqüências das alterações no clima global, aqueceu o ritmo de acordos em Poznan, Polônia. A primeira semana da 14ª Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, UNFCCC, foi marcada por baixas temperaturas. Durante a primeira semana de conferência o foco foi o gargalo das divergências entre países-membros da União Européia, as posturas evasivas de Índia e China e a indiferença em relação ao tema de parte da delegação norte-americana.

Em meio a anúncios de recessão, demissões e caos financeiro causados pela crise econômica, todos pareceram mostrar cautela em anunciar metas para a redução de CO2. Até agora, os pontos altos da 14ª COP do Clima aconteceram na segunda-feira passada (1/12) e hoje (8/12). Na semana passada, o presidente Lula divulgou, junto com o ministro do meio ambiente Carlos Minc, o Plano Nacional de Mudanças Climáticas (PNMC).

Hoje (8/12) a boa nova veio do Velho Continente. Depois de uma semana de cansativos “deixa-que-eu-deixo”, França e Alemanha selaram um acordo sobre emissões em torno do Pacote Energia-Clima. O Pacote, também chamado de 3×20, é um projeto de lei ambiental, que tem entre outras metas, a redução de 20% das emissões de gases de efeito estufa até 2020, o uso de 20% de energias renováveis, e 20% de redução de consumo de energia. O plano europeu colocará os 27 líderes da UE frente a frente nos próximos dias 11 e 12 de dezembro para que, finalmente, cheguem a um consenso.

Espera-se que esta segunda semana de discussões em Poznan aqueça as negociações entre nações e estabeleça as bases para a segunda fase do Protocolo de Kyoto, que expira em 2012. O novo acordo mundial do clima, em regime de combate ao aquecimento global, deverá ser selado na próxima reunião da ONU sobre Mudanças Climáticas, marcada para dezembro de 2009, em Copenhague, Dinamarca.

Consenso difícil

Enquanto vários países reconhecem a necessidade urgente de uma ação decisiva contra a ameaça climática, o país anfitrião do encontro, a Polônia, tem se comportado como defensor da indústria do carvão mineral, o que rende ao país a reputação de retrógrado no que tange às negociações sobre mudanças climáticas.

Mas não é só a Polônia. A Itália, assim como a França, a Alemanha e outros países industrializados temem que a execução do plano diminua a competitividade no mercado mundial. Cálculos feitos pela indústria mostram que, até 2020, esses custos chegariam a 7,2 bilhões de euros apenas para seis setores (aço, outros metais, material de construção, vidro, químico e papel).

Países da União Européia pretendem diminuir 20% suas emissões de gás carbônico até 2020, mas não conseguem chegar a um acordo sobre a divisão dos custos dessa redução. Até agora, as negociações pouco avançaram e o cronograma europeu prevê que os chefes de governo e de Estado cheguem a um acordo nos dias 11 e 12 de dezembro, os dois últimos dias da Conferência de Poznan.

“É hora de os dirigentes traduzirem vontade política em um primeiro texto de negociação para o novo tratado global do clima”, disse Kim Carstensen, líder da Iniciativa Global para o Clima, da Rede WWF.

Bush, Barack e o clima

A 14ª COP está relativamente fragilizada pelo fato de não contar, ainda, com a participação de representantes do presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, que tomará posse em janeiro do próximo ano. Por isso, há a expectativa de que a 14ª COP seja menos uma oportunidade de debates e mais um encontro de trabalho preparatório da 15ª COP, em Copenhague, aí sim, já com participação de representantes do novo governo dos EUA.

Mesmo com a ausência da nova equipe, o atual presidente eleito dos EUA, Barack Obama, se mostrou mais disposto a negociar o tema do que o atual governo Bush.

Brasil e o Plano Nacional de Mudanças Climáticas

O Brasil é um dos quatro maiores emissores de gases do efeito estufa do mundo, junto com Estados Unidos, China e Índia. No caso brasileiro, a maior parte das emissões está relacionada ao desmatamento da região amazônica.

O Plano Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC) tirou o Brasil da inércia socioambiental, num plano considerado arrojado pelos economistas e polêmico para os ambientalistas. Em entrevista para o jornal Valor Econômico no início de novembro, Minc disse ser “perfeitamente factível” assumir um compromisso de diminuir de 10% a 20% as emissões entre 2012 a 2020, com base nas emissões de 2004. Com isso, o governo finalmente pretende incentivar o desenvolvimento de ações no Brasil e colaborar com o esforço mundial de combate às mudanças climáticas.

O PNMC prevê a redução de 40% no primeiro quadriênio, 30% no segundo e 30% no terceiro, atingindo 5 mil km² em 2017. Isso equivale a 4,8 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) a menos na atmosfera.

O documento elaborado com a participação de 17 ministérios possui oito objetivos centrais e está estruturado em quatro eixos: mitigação; vulnerabilidade, impacto e adaptação, pesquisa e desenvolvimento; e capacitação e divulgação vão de encontro com dois desafios brasileiros no que se refere ao tema. O país precisa diminuir suas emissões de gases de efeito estufa e criar condições internas para enfrentar as conseqüências sociais e econômicas das alterações climáticas.

Para cada objetivo do Plano o governo aponta medidas a serem tomadas nas áreas de produção de energia elétrica, álcool, biodiesel e carvão. “Isso é mais do que o esforço de todos os países desenvolvidos. A Inglaterra, por exemplo, quer reduzir 80% até 2050″, avaliou o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc.

Brasil e o Mundo Amazônia

Entre os pontos cruciais do novo acordo climático que será discutido na Conferência do Clima, o Brasil pretende apresentar soluções para colocar em prática a proposta de Emissões Reduzidas do Desmatamento e Degradação, conhecido como REDD. Segundo o ministro do meio ambiente, Carlos Minc, um exemplo do funcionamento do REDD é justamente o Fundo Amazônia.

Lançado em agosto, o Fundo receberá recursos internacionais que poderão ser sacados pelo governo de acordo com o total de desmatamento evitado a cada ano, tendo como base a média anual do desmatamento de 1996 a 2005, que foi de 19.500 quilômetros quadrados.

Para cada tonelada de dióxido de carbono deixado de ser emitido pelo desmatamento, o Brasil receberá US$ 5. Baseado neste cálculo, o país poderá sacar até US$ 1 bilhão em 2009, que poderá ser aplicado em medidas de recuperação de áreas degradadas, extrativismo, manejo florestal, etc. A Noruega foi o primeiro país doador, oferecendo US$ 1 bilhão.

A decisão de Minc de apresentar o plano brasileiro de mudanças climáticas deve incentivar as discussões em Poznan pelo fato de estabelecer metas, como a redução da média anual de desmatamento da Amazônia em 40% no período de 2006 a 2009. Minc, segundo assessores, embarca para Poznan no dia 9.

Perspectivas futuras

No ano passado, em Bali, os Estados-membros da Conferência das Partes (COP) da Convenção-Quadro de Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (UNFCCC, sigla em inglês) prometeram amarrar o novo acordo até dezembro de 2009 - tempo necessário para uma eventual ratificação -, ainda que a data pareça, na realidade, difícil de cumprir.

Desde a entrada em vigor de Kyoto em 2005, a negociação climática acontece em dois níveis: a UNFCCC (192 países) e o Protocolo de Kyoto. Até agora, apenas os 37 países industrializados signatários de Kyoto estão sujeitos a metas de redução de suas emissões poluentes até 2012, o que levou os EUA a rejeitarem o tratado.

O novo acordo deverá, então, decidir sobre uma sobrevida de Kyoto, modificado e ampliado aos países emergentes, ou sobre a adoção de um “Protocolo de Copenhague”, que englobe todo mundo e permita, sobretudo aos EUA, sair do zero.

Em Poznan, o secretário-executivo da UNFCCC, Yvo de Boer, não conta com o anúncio em números da redução de um ou outro país, mas declarou que espera “uma linha de ação política mais clara”.

De acordo com o IPCC…

Todos querem saber o que os governos representados na COP-14 vão apresentar de concreto para evitar os impactos do aquecimento global sobre o clima do planeta. Segundo o Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudanças Climáticas (IPCC), caso a temperatura média da Terra exceda os 2ºC, poderemos ter:

* escassez de água para até 3,2 bilhões de pessoas;

* risco de inundação costeira a cada ano, afetando 15 milhões de pessoas;

* subida do nível do mar devido ao derretimento de placas de gelo, no longo prazo;

* perda de até 80% das florestas tropicais e de sua biodiversidade;

* aumento da mortalidade por ondas de calor, inundações e secas;

* aumento da desnutrição, diarréia, doenças infecciosas e cardiorrespiratórias;

* perda da imensa biodiversidade dos recifes de corais.

Na reunião da ONU de 2007, em Bali, o 4° Relatório do IPCC foi acertado com uma linha de negociação para a segunda fase do Protocolo de Kyoto, com a previsão de processos para financiar e fornecer tecnologias limpas aos países em desenvolvimento e um fundo para ajudar as vítimas do aquecimento global.

“Os impactos das mudanças climáticas estão correndo a frente das projeções científicas”, afirmou Stephanie Tunmore, da campanha de Clima do Greenpeace Internacional. “No entanto, estamos vendo uma falta de liderança nas negociações. Há governos que ainda não entenderam a urgência da crise climática. Somente um acordo mais amplo, profundo e forte do que o Protocolo de Kyoto pode amenizar as conseqüências dessa crise”, afirma.

Segundo os cientistas, as emissões dos países industrializados deveriam parar de crescer a partir de 2015 e, então, cair drasticamente até 2050, mas os grandes países emergentes, como China, Índia e Brasil, também estão sendo convocados para controlar a inflação de sua poluição.

Ainda sim, organizações como Greenpeace, já fizeram a lição de casa com base nos cálculos e indicações do IPCC e propõem resoluções mais amplas e diretas que o Protocolo de Kyoto. Entre as resoluções, o Greenpeace exigirá que “os países desenvolvidos assumam metas de reduções obrigatórias das emissões de CO2 entre 25% e 40%, em relação aos níveis de 1990, até o final de 2020, conforme indicações do IPCC; os países desenvolvidos adotem uma meta global de redução das emissões para o período de 2013 a 2017, que seja coerente com o cumprimento das reduções até 2020; os governos elaborem um plano de negociações para servir de base para o acordo de 2009; os governos elaborem um plano de trabalho para 2009, com modelos de negociações eficazes; os governos assumam o compromisso de criar fundos para a Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD), com mecanismos que permitam que mercados e financiamento públicos invistam no combate do desmatamento; os países desenvolvidos estipulem o valor para os fundos de redução do desmatamento e definam como o dinheiro será levantado; os governos criem financiamento para mecanismos tecnológicos que visem a redução de emissão dos gases de efeito estufa, a partir de 2013.”

Fonte: Mercado Ético

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

As grandes etapas da luta contra o aquecimento climático

A 14ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, que será realizada de 1º a 12 de dezembro em Poznan (Polônia), faz parte de uma agenda que começou com a Eco-92, no Rio de Janeiro - um calendário voltado para a luta contra o aquecimento global.

Seguem as principais etapas deste combate nos âmbitos científico e diplomático:

- 1988: Criação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC em inglês), pela Organização Meteorólogica Mundial e o Programa para o Meio Ambiente das Nações Unidas a pedido do G7 (os sete países mais industrializados). O IPCC nasceu da percepção de que a ação humana poderia estar exercendo uma forte influência sobre o clima do planeta e que era necessário acompanhar esse processo.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas é, hoje, um órgão composto por delegações de 130 governos para prover avaliações regulares sobre a mudança climática.

- 1990: O IPCC tem publicado diversos documentos e pareceres técnicos. O primeiro Relatório de Avaliação sobre o Meio Ambiente (Assessment Report, ou simplesmente AR) foi publicado em 1990 e reuniu argumentos em favor da criação da Convenção do Quadro das Nações Unidas para Mudanças do Clima (em inglês, UNFCC), a instância em que os governo negociam políticas referentes à mudança climática. Seguiram-se outros relatórios divulgados em 1995, 2001 e 2007 - confirmando a responsabilidade humana no aumento do efeito estufa responsável pelo aquecimento constatado no século XX, sobretudo através da emissão de gases como o dióxido de carbono (CO2), óxido nitroso (N2O) e metano (CH4).

- 1992: Adoção no Rio da da Convenção do Quadro das Nações Unidas para Mudanças do Clima (em inglês, UNFCC) pela qual os 192 Estados participantes, hoje signatários, se declaravam "resolvidos a preservar o sistema climático para as gerações presentes e futuras".

- 1997: Conclusão do Protocolo de Kyoto ratificado por 183 Estados. Entrando em vigor em fevereiro de 2005, impõe a 37 países industrializados e à União Européia objetivos de reduções das emissões dos seis principais gases de efeito estufa entre eles o CO2, além do metano, óxido nitroso e outros três gases fluorados (HFC, PFC, SF6) no período 2008-2012.

- 2001: Os Estados Unidos, responsáveis por um quarto das emissões mundiais dos Gases de Efeito Estufa, rejeitam o Protocolo de Kyoto que consideram muito caro para a sua economia e "injusto", uma vez que nem a China nem os grandes países emergentes se submeteram às obrigações de redução desses gases.

Os Estados Unidos são hoje o único país industrializado a não ter ratificado o protocolo de Kyoto.

- 2007: O 4º relatório do IPCC estima que até o fim deste século a temperatura da Terra deve subir entre 1,8ºC e 4ºC, o que aumentaria a intensidade de tufões e secas. Nesse cenário, um terço das espécies do planeta estaria ameaçada. Populações estariam mais vulneráveis a doenças e desnutrição.

O grupo também calcula que o derretimento das camadas polares pode fazer com que os oceanos se elevem entre 18 cm e 58 cm até 2100, fazendo desaparecer pequenas ilhas e obrigando centenas de milhares de pessoas a engrossar o fluxo dos chamados refugiados ambientais - pessoas que são obrigadas a deixar o local onde vivem em conseqüência da piora do meio ambiente.

A estimativa do IPCC é de que mais de 1 bilhão de pessoas poderia ficar sem água potável por conta do derretimento do gelo no topo de cordilheiras importantes, como o Himalaia e os Andes.

- No segundo relatório, o IPCC alerta que partes da Amazônia podem virar savana. Segundo os cientistas que participaram da elaboração do documento, entre 10% e 25% da floresta poderia desaparecer até 2080, com 50% de possibilidade de que a maior floresta tropical do mundo se transforme parcialmente em cerrado. O Nordeste brasileiro poderia ver, no pior cenário, até 75% de suas fontes de água desaparecerem até 2050. Os manguezais também seriam afetados pela elevação do nível da água. Entretanto, por falta de dados fornecidos por países emergentes, as conclusões do IPCC são menos incisivas nas chamadas "questões regionais.

Fonte: Yahoo!

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Redução de impacto

As mudanças climáticas terão impactos devastadores se as emissões de gases que provocam efeito estufa não forem reduzidas em 80% até 2050 – uma meta bem mais severa que a de 50%, discutida por vários países até agora. E, mesmo com uma redução dessa magnitude, será necessário investir em adaptação, já que alguns impactos serão inevitáveis.

O alerta foi feito por Martin Parry e Vicente Barros, dois dos coordenadores do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que apresentaram palestras na última quinta-feira (31/10), na sede da FAPESP, em São Paulo. O evento, organizado pela Fundação e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), integra o Programa Fapesp de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG).

Parry é professor do Centro de Políticas Ambientais do Imperial College, em Londres, na Inglaterra, e foi co-presidente do Grupo de Trabalho II do IPCC até 2007. Barros é professor titular do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de Buenos Aires, na Argentina, e atual co-presidente do mesmo grupo de trabalho, que concluirá o próximo relatório de avaliação em 2013.

De acordo com Parry, os efeitos das mudanças climáticas já começaram e é preciso ter uma liderança global que permita fazer as mudanças necessárias a fim de evitar os piores cenários. Para ele, o Brasil terá um papel central nessa liderança.

“É importante que os países emergentes – e sobretudo o Brasil – assumam uma posição de liderança durante a Conferência Mundial sobre Mudanças Climáticas para defender a adoção de um percentual de 80% como meta de redução das emissões por todos os países”, disse à Agência Fapesp.

Durante a Conferência Mundial sobre Mudanças Climáticas, que será realizada em dezembro de 2009 na Dinamarca, uma nova meta de corte das emissões será estabelecida para o acordo que substituirá, a partir de 2012, o Protocolo de Kyoto.

Parry destacou que, mesmo com muito investimento em adaptação, será preciso adotar a meta de 80% e começar a reduzir as emissões imediatamente para evitar danos que atingirão milhões de pessoas em todo o planeta, como a severa restrição de água.

“O nível dos oceanos já está subindo e a margem que temos para ação sobre os efeitos da mudança climática é muito pequena. Não podemos mais perder tempo. Cada dez anos de atraso para agir significa um aumento de 0,5ºC na temperatura. Os países desenvolvidos falam muito sobre ação, mas sempre serão apontados como os grandes responsáveis pelas emissões. Por isso, seria interessante ter uma liderança como o Brasil”, disse.

Segundo Parry, a partir de agora será necessário dar mais atenção às medidas de adaptação, que ele afirma serem ainda muito pouco estudadas e pouco desenvolvidas em todo o mundo.

“Perdemos dez anos falando apenas sobre mitigação, mas agora temos que recuperar esse tempo perdido, porque mesmo com o corte de 80% nas emissões vamos ter impactos inevitáveis e os danos residuais poderão ser imensos se não investirmos em adaptação agora”, afirmou.

As áreas prioritárias para adaptação, segundo Parry, seriam as regiões tropicais e equatoriais, a África, os megadeltas de bacias hidrográficas – especialmente na Ásia – e as pequenas ilhas. “As adaptações mais urgentes terão que ser feitas em alimentos e água – especialmente nas regiões áridas – e nos assentamentos suscetíveis a inundações.”

De acordo com ele, em um cenário pessimista, caso as emissões não sejam reduzidas drasticamente, a temperatura subiria 4°C, causando a extinção de 50% das espécies de árvores da Amazônia. Um aumento de 2°C seria suficiente para eliminar um quarto das espécies.

Conhecimento necessário - Barros reforçou que mesmo com todos os esforços mundiais concentrados na redução de emissões será preciso investir em esforços de adaptação. Um dos maiores entraves para que isso seja feito é o ainda escasso conhecimento sobre o assunto.

“No melhor dos cenários ainda teremos um aumento de temperatura que nos obrigará a fazer um esforço adaptativo. O problema é que há muito pouca literatura sobre adaptação”, disse à Agência Fapesp.

O cientista argentino ressaltou que a literatura científica existente sobre adaptação tem o foco em “como deveria ser” e não em “como é”. “A consciência sobre a mudança climática ainda é recente. Essa literatura do ‘como deveria ser’ indica como agir no melhor dos mundos, mas não no mundo real”, apontou.

Barros afirma que o interesse sobre o que pode ser feito em termos de adaptação está aumentando no debate público, que até agora vinha se concentrando excessivamente nas discussões sobre mitigação. “O principal fator para a adaptação é a aquisição da consciência da mudança climática por atores-chave”, disse.

Segundo ele, é provável que os esforços de adaptação se concentrem nas chamadas adaptações reativas, realizadas depois que os efeitos das mudanças climáticas já estão consumados.

“A adaptação reativa resulta de decisões mais individualizadas. As adaptações antecipatórias são mais problemáticas, porque para fazê-las é preciso prever mudanças tecnológicas, socioeconômicas e de infra-estrutura que deverão acontecer em um tempo remoto. Além disso, os modelos climáticos globais não são muito aptos a descrever as variabilidades interdecadais, o que complica ainda mais as ações”, afirmou.

Fonte: Fábio de Castro/Agência Fapesp