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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Dor contratada

Por Míriam Leitão*, para O Globo 

Os economistas mostram que o erro é investir pouco na prevenção e gastar muito para remediar. Os meteorologistas descrevem encontros de fenômenos naturais que os tornam mais potentes. Os climatologistas alertam que vai piorar. Os urbanistas apontam erros do passado. Um conservacionista viajou pelo Brasil e viu a insensatez. Assim se contrata a dor presente e futura.

Cada especialista no seu ângulo registra um pedaço do erro. Eles juntos produzem uma zona de convergência de tragédias futuras. O Brasil é bom na emergência: os poderes se juntam, os diagnósticos são precisos, as soluções são prometidas, o dinheiro aparece, a generosidade brota, a imprensa se concentra. Cessou o momento extremo e tudo volta ao leito do rio dos adiamentos.

Marcelo Seluchi, meteorologista do Inpe, explicou ontem a coincidência dos fenômenos que vitimaram a Região Serrana do Rio:

- A Zona da convergência do Atlântico Sul produz umidade concentrada. Isso piorou pela nebulosidade da Serra, mas houve também o que a gente chama de Sistema de Bloqueio, que deixou essa umidade sobre o Rio e São Paulo. São fenômenos naturais, mas as grandes catástrofes estão ficando mais frequentes.

Chuvas, tempestades, enchentes sempre existiram, tragédias já marcaram o passado em eventos históricos, mas o que está convergindo são os avisos de especialistas de diversas áreas de que é perigoso insistir no mesmo padrão de comportamento. A presidente Dilma ontem sobrevoou a tragédia e disse que a população pode esperar medidas fortes. Que sejam também permanentes.

Do Japão, o climatologista Carlos Nobre mostrou empolgação com o sistema de alertas e prevenção de enchentes e deslizamentos em encostas que será criado no Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) usando computadores e sabedoria do INPE:

- Remover as pessoas de áreas de risco é mais difícil, mas é possível e factível um sistema de alertas efetivo. E esta será uma das minhas mais importantes tarefas no MCT.

Aumentou a volatilidade do clima, os fenômenos estão mais ativos, os extremos mais frequentes. Isso é evidente para qualquer leigo e uma constatação científica. Portanto, é mais do que repetição, é um movimento de piora constante. A cada nova tragédia, ela pode ser pior. Não tem volta, a humanidade já contratou uma parte da mudança climática. O que nos cabe agora é tentar mitigar seus efeitos, se adaptar aos seus rigores, evitar a continuação dos erros.

- O que tem sido observado globalmente é uma exacerbação dos ciclos naturais, isto é, extremos climáticos têm acontecido com mais freqüência, há maior volatilidade do clima. No Brasil, faltam estudos de longo prazo do clima contemporâneo para sermos mais conclusivos, mas é bom nos prepararmos para este aumento de volatilidade. Vamos desenvolver e implementar tão rápido quanto possível formas de reduzir riscos de desastres através do sistema de alerta. No longo pra$, esse aumento da volatilidade vai mexer profundamente com os usos da terra, principalmente nas áreas de risco e cidades. Há um limite para obras de engenharia. É preciso fazer a paisagem rural e urbana voltar a responder de maneira mais natural aos fenômenos climáticos — disse Carlos Nobre.

É como declarou ontem a presidente Dilma após visitar os locais da tragédia na Região Serrana. Cabe às autoridades atender às emergências e prevenir com política habitacional, drenagem, saneamento:

- Porque se o terreno aqui é uma camada fina sobre rocha e há deslizamento quando chove, que deslize, mas que não morra gente.

O sinal da presidente é exato: em vez de culpar a natureza, precisamos nos preparar. Para lidar com fenômenos que ela descreveu como “montanhas que se dissolveram.”

Foi o que viu também o conservacionista Miguel Milano. Ele acaba de voltar de uma viagem de 5 mil quilômetros, de carro, pelo interior do Brasil. Foi do Sul até a Bahia e passando por São Paulo, Minas, Rio, visitou o Vale do Paraíba e voltou pelo Espírito Santo, onde já pegou, na virada do ano, áreas alagadas:

- De propósito, fugi das grandes vias e viajei por dentro. Vi morro derretendo, vi todo o tipo de irregularidade. Não há áreas de preservação permanente, reserva legal, vegetação em declives. Vi encosta desmoronando por causa de erosão. Fiquei lembrando do que estudei de hidrologia florestal nos meus tempos de estudante, há décadas. Um desses estudos mostrava que a diferença entre o pico da cheia e o da seca nas áreas vegetadas é de sete vezes. Nas áreas degradadas, é de 20 vezes. A vegetação é proteção, atenua o impacto das chuvas, reduz o volume e o tempo do escorrimento, protege contra o vento e tem o efeito de transpiração, ou seja, as árvores bombeiam parte da água de volta para a atmosfera. Fui vendo isso e pensando na loucura do Brasil, que não só não respeita o Código Florestal como quer, a esta altura, mudá-lo.

No meio da mudança climática é estranho propor reduzir proteção das margens dos rios, dos picos dos morros, dos terrenos íngremes e diminuir as áreas de reserva legal. Mas é isso que o Congresso Nacional está votando na mudança do Código Florestal.

A presidente Dilma disse que agora é a hora de resgatar, amparar e cuidar das pessoas. Depois, reconstruir e prevenir.

É o triste momento de contar os mortos. Eles já passam dos 480. É também hora de ver que caminhamos no sentido contrário ao que manda a razão e a sensatez.

*Publicado originalmente na coluna da autora no site do jornal O Globo, em 14/01/2011 - http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2011/01/14/dor-contratada-356593.asp

(Envolverde/Portal do Meio Ambiente)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Tsunami de 100 metros ameaça o Brasil

Curta do Diretor Ademir Di Paula, procura misturar imagens reais de pessoas que viveram o terror de está diante de uma das maiores forças da natureza com efeitos de computação gráfica, usando a ficção de um suposto tsunami no Brasil.

A idéia do cineasta foi tentar passar realismo nas cenas como se uma pessoa estivesse lá gravando tudo. Por isso muitas cenas são visões de personagens olhando de dentro do carro, ou em algum prédio fugindo da onda. 70% das imagens são efeitos de computação gráfica criadas pelo diretor, inclusive algumas imagens durante as cenas de pânico foram filmadas na cidade de Goiana e misturadas com cenas de pânico reais. O curta foi exibido esta semana em uma Mostra de Cinema, e provocou arrepios segundo a crítica, pois o filme realmente nos mostra de forma aterrorizante, e até angustiante com a câmera nervosa a sensação diante de uma situação de pânico.

Ademir Di Paula, estará nas próximas semanas gravando uma nova sequência do curta que virou sensação em alguns paises A MENINA E O GIGANTE, e garante ao público Brasileiro que eles verão algo nunca visto no cinema nacional com cenas de tirar o fôlego. O curta será usado para promoção da captação de verbas para a produção do futuro longa-metragem de mesmo título e este material será apresentado para várias empresas inclusive aqui no youtube. Ademir agora trabalha com uma agencia que está procurando empresas interessadas em investir nessa nova linha de cinema. Uma coisa o diretor garante, quem pensa que é preciso muito dinheiro pra se fazer este tipo de cinema está enganado, pois o que conta é mais a criatividade.


Fonte: studio3filmes@hotmail.com

terça-feira, 13 de abril de 2010

A destruição sísmica começa em casa

Por Patricia Grogg* 


Existe uma escassa percepção do risco presente nos desastres telúricos para os edifícios de regiões vulneráveis como Cuba, afirmam especialistas.

HAVANA, 12 de abril (Terramérica).- Com as feridas expostas causadas pelos terremotos no Haiti, Chile e outros locais da América, o maior desafio passa por adequar a construção das casas à prevenção desses desastres naturais. “Um terremoto não é apenas um fenômeno físico, também é social”, segundo Fernando Guasch, pesquisador auxiliar do Centro Nacional de Pesquisas Sismológicas (Cenais) de Cuba, um dos países em área de risco e de edificações extremamente vulneráveis a impactos deste tipo.

No Chile, o terremoto de 27 de fevereiro de 8,8 graus Richter, seguido de um maremoto, causou a morte de quase 500 pessoas e prejuízos de US$ 30 bilhões, dos quais US$ 21 bilhões correspondem a perdas em infraestrutura, segundo o Ministério da Fazenda. No Haiti, o país mais pobre da América, os mortos pelo terremoto de 12 de janeiro, de sete graus Richter, passam de 220 mil, enquanto mais de um milhão de pessoas ficaram sem teto. Em janeiro e fevereiro de 2001, os movimentos sísmicos afetaram El Salvador e deixaram 1.159 mortos e 1,5 milhão de desabrigados.

O impacto econômico, tanto direto como indireto, foi avaliado em US$ 2,8 bilhões, de acordo com dados divulgados em 2003 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). A região da América Latina e do Caribe é uma das mais expostas do planeta às ameaças naturais, pois inclui ao menos quatro placas tectônicas, cujo choque é um fator permanente de atividade sísmica e vulcânica. A isso se acrescenta, em algumas áreas, como o Caribe, a combinação de furacões e inundações.

Documentos do Pnuma qualificam como alta a vulnerabilidade de Cuba diante de furacões, terremotos, inundações e secas. A devastação sofrida por Haiti e Chile, seguidos de uma ameaçadora atividade sísmica no Caribe, reavivaram em Cuba a adormecida percepção de risco de um desastre semelhante e a certeza de que é preciso se preparar para minimizar suas consequências. Neste ano, mais de 20 tremores de terra perceptíveis na parte mais oriental deste arquipélago tiveram seu clímax em 20 de março com um tremor de 5,6 graus que fez todo mundo abandonar suas casas, a maioria inadequadas para resistir a movimentos de grande intensidade.

O epicentro foi detectado 62 quilômetros a sudeste de Santiago de Cuba, com profundidade de 7,6 quilômetros, sendo perceptível em outras três províncias da região – Guantánamo, Granma e Holguín –, com menor grau e maior risco sísmico. Especialistas no assunto alertam que podem ocorrer terremotos de grande intensidade em todo o país. “Aqui sabemos o que fazer na temporada de furacões (de junho a novembro), mas como enfrentar algo que se desconhece quando pode acontecer?”, pergunta Maria Eugenia Rodríguez, moradora de Havana e com sua família dividida entre Santiago de Cuba e Guantânamo.

Em 2008, três furacões causaram a este país caribenho prejuízos estimados oficialmente em cerca de US$ 10 bilhões. Esse custo inclui os danos a mais de meio milhão de casas, acentuando o déficit habitacional crônico da ilha. Uma preocupação dos especialistas do Cenais, com sede em Santiago de Cuba, é a escassa percepção de risco de desastres telúricos. O maior perigo na porção mais oriental de Cuba se deve à proximidade do sistema de falhas Bartlett-Caimán, que constitui o limite ativo das placas litosféricas da América do Norte e do Caribe.

Uma das maiores vulnerabilidades de Santiago de Cuba, capital da província de mesmo nome e habitada por 500 mil pessoas, é a qualidade de suas casas, que vai de regular a má em quase 80% dos casos. Especialistas consultados pelo Terramérica, que pediram para não serem identificados, alertaram que muitas construções feitas em Santiago depois da década de 70 têm projeto antissísmico, mas a falta de manutenção, as infiltrações e a deterioração de 20 anos as deixam em condições ruins. Além disso, as mais novas não foram feitas com a qualidade necessária e não respeitam as normas de resistência a tremores de terra.

A norma sísmica estabelece parâmetros de construção para todo o país de acordo com o perigo da região, mas nem todas as empresas a seguem, porque não é obrigatória, encarece os projetos ou até porque muitos não sabem como empregá-la.

* A autora é correspondente da IPS.
Crédito da imagem: Jorge Luis Baños/IPS

Legenda: Rachaduras em um antigo edifício de Santiago de Cuba.

LINKS

Em busca de uma pecuária sem metano
http://www.tierramerica.info/nota.php?lang=port&idnews=3369&olt=457

A pecuária tem álibi, em espanhol
http://ipsnoticias.net/nota.asp?idnews=94883

O predador ignorado, em espanhol
http://ipsnoticias.net/nota.asp?idnews=94203

Fundação Takuara Renda, em espanhol
http://www.takuararenda.org/index.php


Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

Terramérica

Chuvas em excesso este ano no Brasil são atípicas, diz OMM

Por Daniela Traldi, da Rádio ONU em Nova York. 


Antônio Divino Moura, 3º vice-presidente da Organização Meteorológica Mundial, diz que El Niño está atuando na área central do Pacífico, provocando desde novembro do ano passado chuvas fortes, principalmente no sudeste brasileiro, incluindo o Rio de Janeiro e o Espírito Santo.

2010 tem sido um ano atípico em relação ao volume de chuvas no Brasil, principalmente nas regiões sul e sudeste do país.

A afirmação é do diretor-geral do Instituto Nacional de Meteorologia do Brasil, Inmet, Antônio Divino Moura, que também ocupa o cargo de 3º vice-presidente da Organização Meteorológica Mundial, OMM.

Excesso
Segundo Moura, o fenômeno climático conhecido como El Niño está atuando de maneira moderada a forte na área central do Pacífico, provocando desde novembro do ano passado chuvas fortes, principalmente no sudeste brasileiro, incluindo o Rio de Janeiro e o Espírito Santo.

Em entrevista à Rádio ONU, de Brasília, ele disse que a entrada de uma nova frente fria no Rio esta semana trouxe chuvas em excesso, piorando as condições do solo que já estava encharcado.

"Nós temos por exemplo várias medições na cidade do Rio de Janeiro, em regiões típicas como Tijuca, Santa Teresa e Copacabana, com mais de 200 milímetros de chuvas em 24 horas. Para se ter uma ideia 200 milímetros significa que, num quadrado de um metro por um metro, choveu de 20 a 200 litros de água. É uma coisa enorme, uma quantidade muito grande", afirmou.

Condições do Solo

Antônio Divino Moura ressaltou que as condições do solo associadas à ocupação irregular e à topografia da cidade, que tem muitos morros, encostas e bueiros com lixo, provocaram a recente tragédia na capital fluminense e em Niterói.

Segundo agências de notícias, as chuvas no Rio de Janeiro já provocaram mais de 180 mortes em todo o estado.

O representante da OMM ressaltou que os alertas de previsão do tempo foram passados de maneira adequada à Defesa Civil e aos governos, e que há uma tendência no litoral sul e sudeste do Brasil, devido às alterações climáticas, de aumento de chuvas, baseado em dados dos últimos 50 anos.

*Apresentação: Daniela Traldi, da Rádio ONU em Nova York.


Para ouvir esta notícia clique em: http://downloads.unmultimedia.org/radio/pt/real/2010/1004093i.rm
ou acesse: http://www.unmultimedia.org/radio/portuguese/detail/178586.html

Rádio ONU

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Relatório indica normas com incidência em adaptação às mudanças climáticas no Brasil relacionadas aos desastres



A conscientização dos cidadãos é importante na prevenção e resposta aos desastres, especialmente das populações que ocupam áreas de risco, tanto para instruí-las sobre ações preventivas, como para alertá-las para os perigos que representam determinadas condutas

O trabalho "Diagnóstico da legislação: identificação das normas com incidência em mitigação e adaptação às mudanças climáticas - Desastres", de autoria de Paula Lavratti, Coordenadora Técnica do Projeto Direito e Mudanças Climáticas nos Países Amazônicos, e Vanêsca Buzelato Prestes, Coordenadora-Geral, apresenta dados do Brasil sobre o tema. Após apresentar a relação entre os desastres e as mudanças climáticas, "que é clara e não pode ser ignorada", relaciona as normas com incidência em adaptação.

As autoras destacam dados do Ministério do Meio Ambiente, publicados no estudo "Vulnerabilidade Ambiental - Desastres naturais ou fenômenos induzidos?", como o fato de que, entre 2002 e 2007, mais de um milhão e meio de pessoas foram afetadas por algum tipo de desastre natural. Em primeiro lugar, figuram as inundações, com 58% das ocorrências; seguidas da seca, com 14%; e, logo após, os deslizamentos de terra, com 11% das ocorrências. Na sequência, encontram-se os vendavais (8%), as temperaturas extremas (6%) e as epidemias (3%).

Na legislação brasileira, segundo dados do relatório, a relação entre desastres e mudanças climáticas se expressa por intermédio da introdução do conceito de "efeitos adversos da mudança do clima", feita pela Política Nacional sobre Mudança do Clima, entendidos como "as mudanças no meio físico ou biota, resultantes da mudança do clima, que tenham efeitos deletérios significativos sobre a composição, resiliência ou produtividade de ecossistemas naturais e manejados, sobre o funcionamento de sistemas socioeconômicos ou sobre a saúde da população".

Com relação ao diagnóstico da legislação brasileira sobre desastres, o exame da normativa teve por objetivo identificar a existência de dispositivos que tenham incidência na adaptação às mudanças climáticas, ainda que não tenham sido originalmente criados com essa finalidade. Os resultados basearam-se na legislação federal e dos Estados do Acre, Amazonas, Bahia, Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul, totalizando cerca de 35 normas estudadas.

O relatório divide as normas com incidência em adaptação em três itens: Defesa Civil; Normas Urbanísticas e de Planejamento Urbano; e Educação e Informação sobre Desastres.

Sobre a Defesa Civil, destaca-se sua relevante atuação na gestão das áreas de risco. Nesse ponto, uma das conclusões da pesquisa é que, em pese todo o aparato normativo criado para viabilizar a Defesa Civil, a sua efetiva atuação vem sendo limitada, ano após ano, por problemas orçamentários, pelo menos no que toca à esfera federal. Dessa forma, relatam as autoras, "a reduzida destinação de recursos e a baixa execução orçamentária aliada à priorização das ações de remediação ao invés de ações de prevenção comprometem seriamente qualquer política de combate a desastres, por melhor que venha a ser sua estruturação jurídica".

O estudo destaca a Lei Federal de parcelamento do solo urbano, os Planos Diretores e os Códigos de Edificação dos Municípios como legislações que guardam grande relevância para o tema, "isso porque cidades melhor estruturadas e dimensionadas para fazer frente ao aumento da frequência de eventos climáticos extremos podem contribuir para reduzir, de forma significativa, a ocorrência de desastres". Se haverá mais episódios de precipitação intensa, chovendo grandes quantidades em pouco espaço de tempo, é fundamental, dentro de uma estratégia eficiente de adaptação às mudanças climáticas, dimensionar o sistema de escoamento de águas pluviais, de maneira a que possa dar adequada vazão às águas, evitando enchentes na zona urbana. Da mesma forma, o índice de permeabilidade de uma cidade é outro fator relevante para evitar inundações.

Além disso, as autoras afirmam que a conscientização dos cidadãos também é importante na prevenção e resposta aos desastres, "especialmente das populações que ocupam áreas de risco, tanto para instruí-las sobre ações preventivas, como para alertá-las para os perigos que representam determinadas condutas".

A disponibilização de informações é vista como essencial para o sucesso de uma estratégia de combate aos desastres, acessíveis ao público leigo e aos estudantes em geral.

Nota-se, dessa forma, que uma estratégia de adaptação eficiente e eficaz exige não só a inserção da variável climática em todas essas políticas como também um esforço de coordenação e cooperação entre as diferentes esferas da federação na utilização dos instrumentos existentes, concluem as autoras.

O relatório, na íntegra, pode ser acessado no endereço:
www.planetaverde.org/mudancasclimaticas/index.php?ling=por&cont=pesquisa&codpais=1

Fonte: Envolverde/Assessoria de Imprensa

O Pantanal ameaçado. Entrevista especial com Débora Calheiros


Por Redação IHU


Imprevisível dizer como será o novo perfil do Pantanal caso os 116 projetos de centrais hidrelétricas forem instalados nessa região. De acordo com Débora Calheiros, “o que se sabe é que, muito provavelmente, irá mudar o fluxo natural das águas de cada rio, e, por conseguinte, do sistema Pantanal como um todo”. Ela concedeu à IHU On-Line uma entrevista, por telefone, sobre as ameaças colocadas ao Pantanal em nome da produção de energia em função do crescimento econômico do país. Débora respondeu também questões sobre o desmatamento e criação de gado na região, além do que ela acha que está em jogo quando se trata da implementação de centrais hidrelétricas e barragens. “Criar 116 barragens sem nenhum estudo prévio, em uma região que deveria ser conservada, que é patrimônio nacional e da humanidade, além de ser uma reserva da biosfera, é temerante. Por isso, nós pesquisadores junto das ONGs e a sociedade civil do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul alertamos para esta questão”, opinou.

Débora Calheiros é biológa e, atualmente, trabalha na Embrapa Pantanal.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que significa, para o Pantanal, a instalação de 116 pequenas centrais hidrelétricas?

Débora Calheiros – Na verdade, são vários tipos de centrais, não só as pequenas. Existem as Usinas Hidrelétricas (UHEs) que têm potência superior a 30 megawatts, as PCHs, que têm potência de até 30 megawatts, e as Centrais Geradoras de Eletricidade (CGHs) que são menores ainda. Dessas 116, a maioria serão PCHs, mas também estão previstas as CGHs e as UHEs. Estamos preocupados com o efeito conjunto e cinérgico de todos esses empreendimentos nos rios formadores do Pantanal que estão ao redor do planalto.

Fizemos um workshop intitulado “A influência de usinas hidrelétricas no funcionamento hidroecológico do Pantanal Brasil”, na 8ª Conferência Internacional de Áreas Úmidas, a Intecol, que ocorreu em Cuiabá, em julho de 2008. Fizemos uma carta de recomendações que foi enviada a todos os órgãos envolvidos, tanto em nível federal quanto estadual. Agora o Ministério Público Federal também está atuando nesta questão, justamente para tentarmos fazer com que haja um planejamento e um estudos dos impactos de todo o conjunto de barragens que estão previstas. Atualmente, existem 29 barragens em operação, tanto grandes quanto pequenas, e 87 já em construção, licenciamento e sob estudo. O que queremos é evitar a mudança do pulso de inundação, dos ciclos de cheias e secas natural do sistema Pantanal.

IHU On-Line – Se forem instaladas essas PCHs no Pantanal, qual seria o novo perfil da região?

Débora Calheiros – É imprevisível. Como cada rio terá um regime diferente, por conta do funcionamento do regime da hidrelétrica, seja grande ou pequena, não temos como prever. O que se sabe é que, muito provavelmente, irá mudar o fluxo natural das águas de cada rio, e, por conseguinte, do sistema Pantanal como um todo. Por exemplo, a bacia do Rio Cuiabá, principal tributário do Rio Paraguai, é responsável por 40% da água do sistema. Esta bacia já tem barragens grandes em seus principais rios, o Manso, Itiquira, Correntes e São Lourenço.

Já temos evidências de que o curso de inundação já é alterado abaixo da cidade de Cuiabá, pela hidrelétrica de Manso. O conjunto dessas quatro hidrelétricas na mesma bacia é um problema. No fim dos rios Paraná e Paraguai, temos o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, que possui uma área ransa, além de ser uma unidade de conservação nacional. Temos que conservar esse ambiente. A mudança do pulso de inundação é um potencial importante para operar a ecologia da própria área do parque.

IHU On-Line – Neste momento, qual a situação do desmatamento na região do Pantanal?
Débora Calheiros – Na planície, ainda temos uma boa conservação do sistema, segundo dados do último levantamento realizado por ONGs, como WWF, TNC, SOS Pantanal e outras da região, junto com a EMBRAPA Pantanal. O levantamento na planície aponta que temos 15% de área alterada. No caso do Pantanal, não podemos falar só de desmatamento, pois não é só mata. A vegetação nativa inclui pastagens e arbustos. Falamos de supressão da área vegetal nativa.  O problema está no planalto. No planalto secundante estão as nascentes dos rios, formadores do Pantanal. Nesta região do planalto, de 60% a 80% da área está alterada. Isto é muito preocupante, pois é um desmatamento que não respeita a nascente e não respeita a mata ciliar, em geral. Não respeita, também, o código florestal e as áreas de preservação permanente que conservam os rios. Os rios que formam o Pantanal estão comprometidos já na área de nascente. Na região de planície, ainda há conservação e boa qualidade ambiental, pelo menos por enquanto.

IHU On-Line – Em que áreas estão concentradas as criações de gado? Essas áreas modificadas em pastagens têm diminuido?

Débora Calheiros – Na região de planície, a maioria dos sistemas de produção agrícola é tradicional. Este sistema respeita o ciclo das águas e se utiliza, na maior parte, de pastagens nativas. O manejo do gado é feito conservando o ambiente, tanto é que temos um dos biomas mais conservados do Brasil. O problema é que as fazendas estão mudando de dono, que estão vindo de fora da região. Geralmente são pessoas de São Paulo e do Paraná que têm a cultura de desmatar tudo e colocar pastagens exóticas, como a braquiária, uma gramínea africana. Isso altera profundamente o ambiente, e não respeita a questão das APPs. O desmatamento é indiscriminado e temos evidências de que isso está aumentando. Hoje as áreas desmatadas estão em 15%, mas, em 1999, eram apenas 5%. A tendência é que aumente, justamente por que as fazendas estão mudando de dono.

IHU On-Line – O que está em jogo em relação à construção dessas PCHs?


Débora Calheiros – É a questão da ampliação da matriz energética do país. Só que as PCHs geralmente têm um licenciamento muito superficial e são muitas no mesmo rio. Uma PCH é uma coisa, mas várias no mesmo rio é praticamente uma grande barragem. Elas, em geral, são um fio d’água, ou seja, não criam reservatório de água, mas alteram o fluxo das águas. Embora não se tenha um reservatório, quando se tem muitas PCHs no mesmo rio, há uma variação na vazão e a retenção de nutrientes, o que altera a qualidade da água, e, por conseguinte, o funcionamento ecológico do rio juzante da barragem. Este é um problema sério, mas o maior problema é essa proliferação indiscriminada de barragens sem planejamento. Ainda mais no caso do Pantanal, uma área que deve ser preservada. Se fosse em um rio, em São Paulo, onde já encontram vários problemas ambientais, é uma coisa. Mas criar 116 barragens sem nenhum estudo prévio, em uma região que deveria ser conservada, que é patrimônio nacional e da humanidade, além de ser uma reserva da biosfera, é temerante. Por isso, nós pesquisadores junto das ONGs e a sociedade civil do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul alertamos para esta questão.

Uma reportagem de um jornal de São Paulo apontou que, recentemente, o presidente da empresa de pesquisa energética, a EPE, afirmou que eles vão realizar, finalmente, o estudo que estávamos pleiteando, a Avaliação Ambiental Integrada. Este é um estudo feito pelo setor elétrico para saber o efeito sinérgico de várias barragens em uma mesma bacia. Pela Resolução Conama de 1985, relacionada com estudos de impacto ambiental e com a lei de recursos hídricos de 1997, temos que trabalhar sempre com a visão de bacia hidrográfica. Não se pode licenciar um empreendimento sem ter a noção do que irá acarretar na área da bacia hidrográfica. No caso da bacia do Rio Paraguai, como ela é grande e possui vários empreendimentos, deve se fazer uma análise de todos eles em conjunto. O setor elétrico já tem esse tipo de análise, que já fizeram no Rio Uruguai e em outros rios do país, por isso, estávamos pleiteando, desde 2008, para que colocassem a bacia do Rio Paraguai como prioridade.

Uma outra solicitação que fizemos na carta de recomendações é que se faça, também, uma avaliação ambiental estratégica. Esta é uma outra ferramenta e poderia ser feita pelo Ministério do Meio Ambiente. Inclusive, anteriormente, já houve uma tentativa de se fazer estudo na região, quando existia o Programa Pantanal, atualmente não existe nenhuma política pública voltada para o Pantanal. O estudo começou a ser feito, mas não teve finalização, para ver a questão do desenvolvimento da bacia como um todo, incluindo principalmente a questão da industrialização pesada que existe aqui na região e não só para a questão das hidrelétricas. A avaliação ambiental estratégica tem uma visão geral do sistema e de opções de desenvolvimento sustentável para o sistema, levando em conta todos os fatores dos empreendimentos e os propósitos de desenvolvimento. Estamos pleiteando esses dois estudos profundos, para que possamos, pelo princípio de precaução, evitar que se altere um ecossistema tão importante mundialmente como o Pantanal.

IHU On-Line – Porque não se fez uma avaliação ambiental integrada da região anteriormente?


Débora Calheiros – Não tenho ideia. Sabemos que existem várias bacias já contempladas. Além do Rio Uruguai, existem outros como Trombetas, no Pará. No site da EPE, encontra-se a lista de todos os rios contemplados e os estudos completos. Estamos sugerindo o estudo desde 2008, e o próprio Conselho Estadual de Recursos Hídricos do Mato Grosso do Sul e a Secretaria Estadual de Meio Ambiente estão preocupados com essa problemática, que levantamos durante a realização do workshop. Questionamos, ainda em 2008, a EPE sobre essa questão. O problema é que 70% de todos esses empreendimentos estão previstos para a parte norte da bacia, no estado de Mato Grosso, e isso pode alterar o pulso de inundação e o fluxo das águas para Mato Grosso do Sul, que está rio abaixo. A preocupação mais evidente foi do estado de Mato Grosso do Sul. O Ministério Público Federal também se sensibilizou com a questão e está atuando. Provavelmente, agora, em abril, eles irão informar a decisão de que estão preocupados com essa questão e estão pedindo também que se façam estudos para que não haja problemas no futuro, na questão de conservação do Pantanal Matogrossense.

IHU On-Line – Ao analisar os projetos de eficiência energética em andamento no Brasil, como Belo Monte, o complexo do Rio Madeira etc., podemos dizer que o Brasil precisa mesmo de toda essa energia?
Débora Calheiros – Não sou exatamente do setor energético, trato da questão ambiental e acho que devemos, simplesmente, pensar se queremos ou não preservar o Pantanal. Se queremos produzir energia na região, que a energia seja gerada no Pantanal para suprir São Paulo, Rio Grande do Sul etc., temos que saber que teremos perdas, e uma delas é a conservação do Pantanal. A outra opção que temos, que até propomos na carta de recomendações, é que as barragens do Pantanal não sejam ligadas ao sistema interligado nacional. Uma vez que se precisa de energia em São Paulo, a hidrelétrica de Mato Grosso terá de fornecer energia para lá. O regime de águas e de fucionamento do reservatório não é regido pelo fluxo natural das águas, é regido pela demanda de energia. Se ele não tiver esse vínculo, de fornecer energia para fora do sistema, seria uma opção de ter um funcionamento mais ecológico. Se pode produzir energia, mas de uma forma natural.

Fora esta questão, ainda tem aquela da retenção de nutrientes, a barragem impede a migração dos peixes. O pulso de inundação para o ecossistema e a população da região pantaneira depende do fluxo das águas, tanto para os ribeirinhos e os pescadores, quanto para o turismo, que é baseado em pesca e pecuária. A pecuária tem atividades tradicionais e econômicas da região e dependem da forma ambiental do ecossistema. Então, se alterarem o pulso de inundação, alteram a vida, a economia e a questão social de toda a região pantaneira. Além disso, o Brasil é signatário das metas do milênio e, dentre essas existem as metas ecossistêmicas do milênio. As metas ecossistêmicas colocam claramente que não se pode pegar uma região, como uma bacia com ecossistema, e dela retirar todos os serviços ambientais possíveis. Se deve escolher alguns deles que serão usufruidos, como água de boa qualidade e pesca ou energia. Não dá para se tirar todos os serviços ambientais de uma região sem perdas. Ou optamos que a bacia do Alto Paraguai seja fornecedora de energia, ou optamos pela sua conservação e do Pantanal.

IHU On-Line – Numa entrevista anterior, a senhora revelou que um dos problemas que o Pantanal vem enfrentando é a introdução de espécies exóticas de animais. Como está essa situação hoje?

Débora Calheiros – Uma vez que a espécie exótica é introduzida em um sistema natural, é muito difícil que ela saia. Uma vez que ela se estabelece, ela se adapta ao ambiente.  No caso do Pantanal, há espécies de peixes da amazônia, o Tucunaré e o Tambaqui, e alguns moluscos que são originários da China, o Mexilhão Dourado e a Corbícula. Esse é um problema que não se pode resolver, temos que conviver com isso. Há sempre um momento de explosão da população, já que não há predador, vírus ou bactérias que causem mortandade. A tendência é o aumento vertiginoso da população. No caso da bacia do Paraná e Paraguai, onde o Mexilhão Dourado foi introduzido através da Argentina, houve um problema seríssimo nas hidrelétricas desse sistema. Itaipu, por exemplo, tem um problema sério, que provavelmente demanda milhares de reais para poder limpar esses moluscos.

Como eles crescem rápido e vertiginosamente, sem predadores, eles acabam bloqueando as grades de proteção das turbinas, e os canos começam a fechar e a bloquear a passagem de água. Este é um problema sério, econômico e social. Na questão do Pantanal, este mexilhão é um pouco menos problemático do que na região do Rio Paraná, pois existe um fenômemo natural chamado Dequada, que acontece no processo de decomposição durante a enxente. A água transborda do rio, vai para a planície e há uma decomposição muito grande de plantas submersas. Isso abaixa o oxigênio, aumento o CO2 na água, essas espécies exóticas acabam morrendo e há um controle maior da população.

No caso do Rio Paraná, esta população explodiu de forma absurda e acabou se tornando um problema. Uma vez que se introduzem espécies, que não pertencem a uma bacia, e elas se adaptam, é muito difícil se controlar. Isto causa um desequilíbrio ecológico absurdo, pois essas espécies competem com as nativas por espaço e alimento, os peixes da região não estão acostumados a comer esses moluscos, e, quando comem, destroem o trato digestivo. Apenas algumas espécies já estão adaptadas para comer alguns moluscos nativos, e já têm dentes e um sistema digestivo apropriados. No caso dos peixes amazônicos é a mesma coisa. Eles competem com as espécies nativas e acabam desequilibrando as relações da cadeia alimentar. Infelizmente só vamos perceber a junção de todos esses problemas e impactos a médio e longo prazo.

Fonte: Envolverde/IHU-OnLine

terça-feira, 6 de abril de 2010

Relatório indica normas com incidência em adaptação às mudanças climáticas no Brasil relacionadas aos desastres



  
A conscientização dos cidadãos é importante na prevenção e resposta aos desastres, especialmente das populações que ocupam áreas de risco, tanto para instruí-las sobre ações preventivas, como para alertá-las para os perigos que representam determinadas condutas

O trabalho "Diagnóstico da legislação: identificação das normas com incidência em mitigação e adaptação às mudanças climáticas - Desastres", de autoria de Paula Lavratti, Coordenadora Técnica do Projeto Direito e Mudanças Climáticas nos Países Amazônicos, e Vanêsca Buzelato Prestes, Coordenadora-Geral, apresenta dados do Brasil sobre o tema. Após apresentar a relação entre os desastres e as mudanças climáticas, "que é clara e não pode ser ignorada", relaciona as normas com incidência em adaptação.

As autoras destacam dados do Ministério do Meio Ambiente, publicados no estudo "Vulnerabilidade Ambiental - Desastres naturais ou fenômenos induzidos?", como o fato de que, entre 2002 e 2007, mais de um milhão e meio de pessoas foram afetadas por algum tipo de desastre natural. Em primeiro lugar, figuram as inundações, com 58% das ocorrências; seguidas da seca, com 14%; e, logo após, os deslizamentos de terra, com 11% das ocorrências. Na sequência, encontram-se os vendavais (8%), as temperaturas extremas (6%) e as epidemias (3%).

Na legislação brasileira, segundo dados do relatório, a relação entre desastres e mudanças climáticas se expressa por intermédio da introdução do conceito de "efeitos adversos da mudança do clima", feita pela Política Nacional sobre Mudança do Clima, entendidos como "as mudanças no meio físico ou biota, resultantes da mudança do clima, que tenham efeitos deletérios significativos sobre a composição, resiliência ou produtividade de ecossistemas naturais e manejados, sobre o funcionamento de sistemas socioeconômicos ou sobre a saúde da população".

Com relação ao diagnóstico da legislação brasileira sobre desastres, o exame da normativa teve por objetivo identificar a existência de dispositivos que tenham incidência na adaptação às mudanças climáticas, ainda que não tenham sido originalmente criados com essa finalidade. Os resultados basearam-se na legislação federal e dos Estados do Acre, Amazonas, Bahia, Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul, totalizando cerca de 35 normas estudadas.

O relatório divide as normas com incidência em adaptação em três itens: Defesa Civil; Normas Urbanísticas e de Planejamento Urbano; e Educação e Informação sobre Desastres.

Sobre a Defesa Civil, destaca-se sua relevante atuação na gestão das áreas de risco. Nesse ponto, uma das conclusões da pesquisa é que, em pese todo o aparato normativo criado para viabilizar a Defesa Civil, a sua efetiva atuação vem sendo limitada, ano após ano, por problemas orçamentários, pelo menos no que toca à esfera federal. Dessa forma, relatam as autoras, "a reduzida destinação de recursos e a baixa execução orçamentária aliada à priorização das ações de remediação ao invés de ações de prevenção comprometem seriamente qualquer política de combate a desastres, por melhor que venha a ser sua estruturação jurídica".

O estudo destaca a Lei Federal de parcelamento do solo urbano, os Planos Diretores e os Códigos de Edificação dos Municípios como legislações que guardam grande relevância para o tema, "isso porque cidades melhor estruturadas e dimensionadas para fazer frente ao aumento da frequência de eventos climáticos extremos podem contribuir para reduzir, de forma significativa, a ocorrência de desastres". Se haverá mais episódios de precipitação intensa, chovendo grandes quantidades em pouco espaço de tempo, é fundamental, dentro de uma estratégia eficiente de adaptação às mudanças climáticas, dimensionar o sistema de escoamento de águas pluviais, de maneira a que possa dar adequada vazão às águas, evitando enchentes na zona urbana. Da mesma forma, o índice de permeabilidade de uma cidade é outro fator relevante para evitar inundações.

Além disso, as autoras afirmam que a conscientização dos cidadãos também é importante na prevenção e resposta aos desastres, "especialmente das populações que ocupam áreas de risco, tanto para instruí-las sobre ações preventivas, como para alertá-las para os perigos que representam determinadas condutas".

A disponibilização de informações é vista como essencial para o sucesso de uma estratégia de combate aos desastres, acessíveis ao público leigo e aos estudantes em geral.

Nota-se, dessa forma, que uma estratégia de adaptação eficiente e eficaz exige não só a inserção da variável climática em todas essas políticas como também um esforço de coordenação e cooperação entre as diferentes esferas da federação na utilização dos instrumentos existentes, concluem as autoras.

O relatório, na íntegra, pode ser acessado no endereço:
www.planetaverde.org/mudancasclimaticas/index.php?ling=por&cont=pesquisa&codpais=1

Fonte: Envolverde/Assessoria de Imprensa

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Em 2050 serão 250 milhões de refugiados do clima

Por Fernanda B Muller, do Carbono Brasil

As mudanças climáticas podem se tornar a principal causa de migrações de refugiados, disse um oficial da ONU na quarta-feira durante a COP 14.

“O clima sempre foi um elemento, uma das razões que forçam as pessoas a se mudarem, mas não a principal razão”, comentou o conselheiro do Alto Comissário da ONU para Refugiados José Riera. Segundo ele, estimativas conservadoras prevêem que cerca de 250 milhões de pessoas sejam forçadas a se mudar devido às mudanças climáticas em 2050.

Por esta razão é essencial um acordo internacional para ajudar os países mais pobres, e mais vulneráveis, a se adaptarem aos eventos climáticos extremos que devem ocorrer como conseqüência das mudanças climáticas, segundo a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas.

Os deslocamentos devem ocorrer dentro dos próprios países, ressaltou Riera. Ele completou relembrando a importância de discutir questões como quem será o responsável por estas pessoas e quais serão seus direitos.

A ONU e a Cruz Vermelha salientaram que a população deve ser preparada para enfrentar estes eventos, por exemplo, através da informação, proteção das fontes de água, plantio de árvores para evitar escorregamentos de terra e a desertificação e melhoria nas técnicas de construção em áreas de risco.

O secretário geral da Federação Internacional da Cruz Vermelha Bekele Geleta colocou um valor sobre a resposta aos desastres dizendo que a cada US$1 investido na redução de risco, pode-se economizar de US$ 3 a US$ 10.

* Com informações da Associated Press.

Fonte: Envolverde/CarbonoBrasil

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Clima incerto e tragédia previsível

A relação entre as mudanças climáticas globais e os fenômenos que deixaram mais de uma centena de mortos e cerca de 80 mil desabrigados em Santa Catarina é ainda uma incógnita. Mas a relação entre a tragédia e o fracasso das políticas de acesso à moradia e de ocupação do espaço urbano é uma certeza, de acordo com Wagner da Costa Ribeiro, professor do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP).

Durante o seminário “Controle de Enchentes – 10 Anos do Plano Diretor de Macrodrenagem da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, que terminou na terça-feira (3), em São Paulo, Ribeiro também ressaltou a necessidade de aperfeiçoamento dos sistemas de previsão do clima e de inundações.

Segundo ele, as mudanças climáticas poderão aumentar os riscos de eventos extremos – como as chuvas que causaram as inundações em Santa Catarina –, criando a necessidade de adaptações. Mas, antes de pensar em problemas futuros, será preciso encontrar soluções para os antigos.

“Os problemas que precisamos enfrentar imediatamente são resultado do processo brasileiro de urbanização. As mortes em Santa Catarina estão relacionadas à nossa política de acesso à moradia e não à mudança climática”, disse o geógrafo.

Segundo ele, as conseqüências das mudanças no clima precisam ser levadas em conta, mas elas ainda estariam inseridas em um quadro de incerteza – isto é, um cenário no qual estaria confirmada a possibilidade de ocorrência de certos eventos sem que se possa definir sua probabilidade.

“Vetores importantes, como o aumento na temperatura e a variação de chuvas, ainda não são conhecidos com precisão. Por isso, não se pode aferir os impactos das mudanças climáticas nas cidades brasileiras. Mesmo assim, temos que trabalhar com o pior cenário possível para pensar em adaptações”, afirmou.

De acordo com Ribeiro, a maior freqüência de chuvas causada pelas mudanças climáticas, se for confirmada, vai agravar problemas já conhecidos.

“Cuidar das áreas de risco hoje, no caso do Brasil, é pagar uma dívida social – não se trata de prever mudanças climáticas. Trata-se de reparar um processo de urbanização muito intenso que ocorreu sem planejamento, dirigido sob uma lógica de mercado e exploração imobiliária agressiva”, destacou.

Para Luis Carlos Molion, do Departamento de Meteorologia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), as mudanças climáticas não tiveram relação com as chuvas torrenciais que devastaram Santa Catarina.

“Os impactos desastrosos das chuvas em Santa Catarina não são conseqüência do aquecimento global, mas do péssimo planejamento da ocupação do espaço. Muita gente foge da região ribeirinha para evitar inundações e se instala nas encostas. As mortes ocorreram nessa situação”, afirmou.

Molion, conhecido por fazer críticas severas às conclusões do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), afirma que as mudanças climáticas estão mais ligadas a fenômenos naturais que ao aumento de emissões de carbono pela atividade humana.

“Chuvas como essas já ocorreram no passado. A mais recente aconteceu em maio de 1983, mas também houve desastres naturais semelhantes no Vale do Itajaí nas décadas de 1950 e 1960. Os primeiros registros são do século 19”, afirmou.

A hipótese levantada por ele é que as variações na temperatura do oceano Pacífico controlam grande parte das oscilações climáticas. “O Pacífico teve fases de aquecimento entre 1925 e 1946 e entre 1977 e 1998. Esfriou entre 1947 e 1976 e está esfriando nos últimos dez anos. Esses ciclos coincidem com momentos de alta e baixa das médias de temperatura”, disse.

De acordo com ele, no entanto, os fenômenos não tinham conseqüências tão importantes em décadas passadas, no Brasil, porque a concentração populacional nas cidades era bem menor. Nas áreas urbanas impermeabilizadas, segundo ele, uma chuva de 100 milímetros provoca um fluxo d’água de 100 mil metros cúbicos a cada quilômetro quadrado.

“Hoje, 80% da população está nas cidades, que absorveram essa população sem planejamento urbano. Para consertar isso, serão necessários investimentos muito maiores do que os recursos necessários para o planejamento há 30 ou 40 anos”, disse.

Segundo Molion, é preciso que as cidades pequenas e médias comecem a se planejar a partir de agora. Para ele, seria preciso investigar melhor a dinâmica da várzea dos rios e estudar as séries históricas de registros hidrológicos e meteorológicos a fim de entender o tempo de retorno de chuvas fortes, acima de 100 ou 200 milímetros.

“Temos cerca de 250 municípios com mais de 100 mil habitantes. A grande maioria dos mais de 5 mil municípios do país está começando a crescer. Seria aconselhável pensar em medidas de planejamento para minimizar problemas do tipo no futuro”, afirmou.

Fatores externos - Para Oswaldo Massambani, professor titular do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, não há dúvida de que o clima global passa por uma fase de abrupto aquecimento e que os distúrbios são causados pela atividade antropogênica.

“Cresceu muito a capacidade científica para entender o clima global. De fato, os modelos climáticos têm deficiências, porque são modelos matemáticos que tentam representar fenômenos de um sistema complexo. Mas à medida que se associam vários modelos e cenários eles se tornam mais precisos”, afirmou.

“A relação de causa e efeito entre a temperatura e as emissões de dióxido de carbono não é algo claro, mas há sem dúvida uma relação de associação entre os dois fatores. Já a vulnerabilidade aos eventos extremos é de fato uma questão de natureza política”, disse.

Segundo Massambani, o clima global é controlado por um sistema extremamente sensível e complexo, que, além dos fatores relacionados à atmosfera e à superfície terrestre, é determinado também por fatores externos, como a radiação solar e a geometria variável do sistema Terra-Sol.

“O Sistema Solar se formou há 4,5 bilhões e chegou ao atual equilíbrio passando por um processo de crescente complexidade. Esse complexo sistema não-linear está relacionado ao sistema climático, que possui uma variabilidade intrínseca e é muito sensível a processos radiativos, com uma camada atmosférica muito fina, de apenas 20 quilômetros. Isso fez com que o clima oscilasse ao longo da história”, afirmou.

Fonte: Fábio de Castro/ Agência Fapesp

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Plano poderá contribuir para evitar catástrofes causadas pela mudança do clima

O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, afirmou que o Plano Nacional sobre Mudanças do Clima, lançado ontem, poderá contribuir para evitar tragédias como a que está ocorrendo em Santa Catarina. Ele informou que o documento contempla a realização de planos estaduais e municipais de mudança climática. "Havendo um plano estadual não se licenciará alguns tipos de empreendimentos em áreas com risco de alagamento, em áreas de encosta e poderemos impedir catástrofes", disse.

Para ele, muito do que hoje se vê em diversos municípios catarinenses está relacionado ao mau uso do solo, ao desmatamento, à ocupação desordenada das encostas. "O plano clima prevê ações de mitigação e de adaptação que poderiam, se tomadas previamente, não evitar, mas minimizar consideravelmente as conseqüências de tragédias como a que se abateu sobre Santa Catarina", disse.

Em seu discurso na solenidade de lançamento do plano, o presidente Lula disse que solicitou um estudo para entender o que motivou a tragédia de Santa Catarina. Ele afirmou que é preciso compreender o que aconteceu naquele estado para que se possa dimensionar os impactos das mudanças climáticas e evitar que problemas assim se repitam em outros estados. "Nós nunca tivemos conhecimento de catástrofes como essa que está acontecendo. Precisamos fazer um levantamento para evitar que ocorram outras enchentes e entender melhor o porquê desse volume de chuvas", disse Lula.

O presidente afirmou que o plano é um ganho para o País. "Não basta ter o plano, nós temos que ter um processo de conscientização da sociedade brasileira sobre a vantagem comparativa que o Brasil tem de preservar a natureza, de cuidar das suas florestas, porque isso termina sendo um ganho para o país em vez de um prejuízo como se pensava alguns anos atrás".

Fonte: MMA

Uma reflexão sobre a Tragédia em Santa Catarina

Por Professores de Universidades Catarinenses

As imagens de morros caindo, de desespero e morte, de casas, animais e automóveis sendo tragados por lama e água, vivenciadas por centenas de milhares de pessoas no Vale do Itajaí e Litoral Norte Catarinense nos últimos dias, são distintas, e muito mais graves, das experiências de enchentes que temos na memória, de 1983 e 1984.

Por que tudo aconteceu de forma tão diferente e tão trágica? Será que a culpa foi só da chuva, como citam as manchetes? Nossa intenção não é apontar culpados, mas mencionar alguns fatos para reflexão, para tentar encaminhar soluções mais sábias e duradouras, e evitar mais e maiores problemas futuros.

Houve muita chuva sim. No médio vale do Itajaí ocorreu mais que o dobro da quantidade de chuva que causou a enchente de agosto de 1984. Aquela enchente foi causada por 200 mm de chuva em todo o Vale do Itajaí. Agora, em dois dias foram registrados 500 mm de precipitação, ou seja, 500 litros por metro quadrado, mas somente no Médio Vale e no Litoral.

A quantidade de chuva de fato impressiona. Segundo especialistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), a floresta amazônica é a principal fonte de precipitações de grande parte do continente e tudo o que acontecer com ela modificará de maneira decisiva o clima no Sul e no norte da América do Sul. Assim, as inundações de Santa Catarina e a seca na Argentina seriam atribuídas à fumaça dos incêndios florestais, que altera drasticamente o mecanismo de aproveitamento do vapor d'água da floresta amazônica. Outros especialistas discordam dessa hipótese e afirmam que houve um sistema atmosférico perfeitamente possível no Litoral Catarinense.

Existe uma periodicidade de anos mais secos e anos mais úmidos, com intervalo de 7 a 10 anos, e entramos no período mais úmido no ano passado. Esse mecanismo faz parte da dinâmica natural do clima. De qualquer forma, outros eventos climáticos como esse são esperados e vão acontecer.

Mas o Vale do Itajaí sabe lidar com enchentes melhor do que qualquer outra região do país. Claro que muito pode ser melhorado no gerenciamento das cheias, à medida que as prefeituras criarem estruturas de defesa civil cada vez mais capacitadas e à medida que os sistemas de monitoramento e informação forem
sendo aperfeiçoados.

De todos os desastres naturais, as enchentes são os mais previsíveis, e por isso mais fáceis de lidar. Os deslizamentos e as enxurradas não. Esses são praticamente imprevisíveis, e é aí que reside o real problema dessa catástrofe.

É preciso compreender que chuvas intensas são parte do clima subtropical em que vivemos. E é por causa desse clima que surgiu a mata atlântica. Ela não é apenas decoração das paisagens catarinenses, tanto como as matas ciliares não existem apenas para enfeitar as margens de rios. A cobertura florestal natural das encostas, dos topos de morros, das margens de rios e córregos existe para proteger o solo da erosão provocada por chuvas, permite a alimentação dos lençóis d´água e a manutenção de nascentes e rios, e evita que a água da chuva provoque inundações rápidas (enxurradas).

A construção de habitações e estradas sem respeitar a distância de segurança dos cursos d’água acaba se voltando contra essas construções como um bumerangue, levando consigo outras infra-estruturas, como foi o caso do gasoduto. Esse é um dos componentes da tragédia.

Já os deslizamentos, ou movimentos de massa, são fenômenos da dinâmica natural da Terra. Mas não é o desmatamento que os causa. A chuva em excesso acaba com as propriedades que dão resistência aos solos e mantos de alteração para permanecerem nas encostas. O grande problema de ocupar encostas é fazer cortes e morar embaixo ou acima deles. Há certas encostas que não podem ser ocupadas por moradias, principalmente as do vale do Itajaí, onde o manto de intemperismo, pouco resistente, se apresenta muito profundo e com vários planos de possíveis rupturas (deslizamento), além da grande inclinação das encostas. E é aí que começa a explicação de outra parte da tragédia que estamos vivendo.

A ocupação dos solos nas cidades não tem sido feita levando em conta que estão assentadas sobre uma rocha antiga, degradada pelas intempéries, e cuja capacidade de suporte é baixa. Através dos cortes aumenta a instabilidade. As fortes chuvas acabaram com a resistência e assim o material deslizou.

A ocupação do solo é ordenada por leis municipais, os planos diretores urbanos. Esses planos diretores definem como as cidades crescem, que áreas vão ocupar e como se dá essa ocupação. Por falta de conhecimento ecológico dos poderes executivo, judiciário e legislativo (ou por não leva-lo em consideração), o código florestal tem sido desrespeitado pelos planos diretores em praticamente todo o Vale do Itajai, e também no litoral catarinense, sob a alegação de que o município é soberano para decidir, ou supondo que a mata é um enfeite desnecessário. Da mesma forma, as encostas têm sido ocupadas, cortadas e recortadas, à revelia das leis da Natureza.

Trata-se de uma falta de compreensão que está alicerçada na idéia, ousada e insensata, de que os terrenos devem ser remodelados para atender aos nossos projetos, em vez de adequarmos nossos projetos aos terrenos reais e sua dinâmica natural nos quais irão se assentar.

A postura não é diferente nas áreas rurais, onde a fiscalização ambiental não tem sido eficiente no controle de desmatamentos e intensidade de cultivos em locais impróprios, como mostram as denúncias frequentes veiculadas nas redes que conectam ambientalistas e gestores ambientais de toda região. A irresponsabilidade se estende, portanto, para toda a sociedade.

Deslizamentos, erosão pela chuva e ação dos rios apresentam fatores condicionantes diferentes, mas todos fazem parte da dinâmica natural. A morfologia natural do terrreno é uma conquista da natureza, que vai lapidando e moldando a paisagem na busca de um equilíbio dinâmico. Erode aqui, deposita ali e assim vai
conquistando, ao longo de milhões de anos, uma estabilidade dinâmica. O que se deve fazer é conhecer sua forma de ação e procurar os cenários da paisagem onde sua atuação seja menos intensa ou não ocorra.

As alterações desse modelado pelo homem foram as principais causas dos movimentos de massa que ocorreram em toda a região. Portanto, precisamos evoluir muito na forma de gestão urbana e rural e encontrar mecanismos e instrumentos que permitam a convivência entre cidade, agricultura, rios e
encostas.

Por isso tudo, essa catástrofe é um apelo à inteligência e à sabedoria dos novos ou reeleitos gestores municipais e ao governo estadual, que têm o desafio de conduzir seus municípios e toda Santa Catarina a uma crescente robustez aos fenômenos climáticos adversos. Não adianta reconstruir o que foi destruído, sem considerar o equívoco do paradigma que está por trás desse modelo de ocupação. É necessário pensar soluções sustentáveis. O desafio é reduzir a vulnerabilidade.

Uma estranha coincidência é que a tragédia catarinense ocorreu na semana em que a Assembléia Legislativa concluiu as audiências públicas sobre o Código Ambiental, uma lei que é o resultado da pressão de fazendeiros, fábricas de celulose, empreiteiros e outros interesses, apoiados na justa preocupação de pequenos agricultores que dispõe de pequenas extensões de terra para plantio.

Entre outras propostas altamente criticadas por renomados conhecedores do direito constitucional e ambiental, a drástica redução das áreas de preservação permanente ao longo de rios, a desconsideração de áreas declivosas, topos de morro e nascentes, além da eliminação dos campos de altitude (reconhecidas paisagens de recarga de aqüíferos) das áreas protegidas, são dispositivos que aumentam a chance de ocorrência e agravam os efeitos de catástrofes como a que estamos vivendo. Alega o deputado Moacir Sopelsa que a lei ambiental precisa se ajustar à estrutura fundiária catarinense, como se essa estrutura fundiária não fosse, ela mesma, um produto de opções anteriores, que negligenciaram a sua base de sustentação.

Sugerimos que os deputados visitem Luiz Alves, Pomerode, Blumenau, Brusque, só para citar alguns municípios, para aprender que a estrutura fundiária e a urbana é que precisam se ajustar à Natureza. Dela as leis são irrevogáveis e a tentativa de revogá-las ou ignorá-las custam muitas vidas e dinheiro público e privado.

É hora de ter pressa em atender os milhares de flagelados. Não é hora de ter pressa em aprovar uma lei que torna o território catarinense ainda mais vulnerável para catástrofes naturais.

Prof. Dra. Beate Frank (FURB, Projeto Piava)
Prof. Dr. Antonio Fernando S. Guerra (UNIVALI)
Prof. Dra. Edna Lindaura Luiz (UNESC)
Prof. Dr. Gilberto Valente Canali (Ex-presidente da Associação Brasileira de Recursos Hídricos)
Prof. Dr. Hector Leis (UFSC)
João Guilherme Wegner da Cunha (CREA/CONSEMA)
Prof. Dr. Juarês Aumond (FURB)
Prof. Dr. Julio Cezar Refosco (FURB)
Prof. Dr. Lino Fernando Bragança Peres (UFSC)
Prof. Dra. Lúcia Sevegnani (FURB)
Prof. Dr. Luciano Florit (FURB)
Prof. Dr. Luiz Fernando P. Sales (UNIVALI)
Prof. Dr. Luiz Fernando Scheibe (UFSC)
Prof. Dr. Marcus Polette (UNIVALI)
Prof. Dra. Noemia Bohn (FURB)
Núcleo de Estudos em Serviço Social e Organização Popular - NESSOP (UFSC)
Prof. Dra. Sandra Momm Schult (FURB)
Equipe do Projeto Piava (Fundação Agência de Água do Vale do Itajaí).

Se você também quer uma discussão mais aprofundada sobre o Código Ambiental e deseja que os parlamentares saibam disso, acesse o site www.comiteitajai.org.br/abaixoassinado


Fonte: Apremavi

Estudos prevêem que as mudanças globais vão amplificar os fenômenos climáticos

Por Paula Cassandra, da Agência Chasque

A quantidade de chuvas que vem ocorrendo há uma semana em Santa Catarina vem preocupando tanto a população do Estado quanto de outras regiões do país. Até a tarde de sexta-feira (28), foram registrados 78.707 casos de pessoas desalojadas e desabrigadas. A Defesa Civil do Estado também registrou 100 óbitos e 19 desaparecidos. No total, são mais de 1,5 milhão derpessoas afetadas.

Pesquisadores apontam que o motivo da enxurrada é resultado de uma seqüência de eventos meteorológicos. O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônica (INPA), Antonio Manzi, explica que um bloqueio atmosférico foi o responsável pelo início das chuvas. No entanto, ainda não é possível dizer porque o fenômeno ocorreu em Santa Catarina, já que a intensidade de chuva no local não é comum nesta época do ano.“Há algumas situações atmosféricas da variação do tempo no dia-a-dia que estabelecem uma massa de ar com alta pressão sobre uma região, e aí ela não deixa passar, por exemplo, as frentes frias que vem do sul, que chegam até a região e não conseguem avançar. Isso produz chuva no local”, diz.Manzi argumenta que é possível relacionar a enxurrada catarinense com as mudanças climáticas globais. Mesmo que ainda não existam dados suficientes, estudos prevêm que as mudanças globais vão aumentar os fenômenos climáticos.

O meteorologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Olívio Bahia do Sacramento, relata que o fato dos eventos meteorológicos ocorrerem por dias consecutivos, acentuou a quantidade das chuvas. “Nós tivemos um intenso anti-ciclone atuando sobre o Atlântico e a circulação associada a ele trazia muita umidade do oceano para o continente. Além desses ventos, tivemos outro sistema meteorológico atuando em torno de quatro, cinco mil metros de altura, que era o vórtice ciclônico, que intensificava ainda mais a instabilidade provocando grande volume de chuva ”, explica.

Diante da calamidade que tomou o Estado durante a enxurrada, os pesquisadores concordam que um planejamento urbano, que preveja eventos de tal magnitude, é o único modo de minimizar os efeitos. Sacramento, do INPE, pondera que, assim como outros Estados, Santa Catarina não está preparada para agir numa situação de emergência deste tipo.

Imagem: Agência Chasque/Paula Cassandra

Fonte: Envolverde/Agência Chasque

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Ocupação humana contribui para a tragédia de Santa Catarina

Por Paula Scheidt, do CarbonoBrasil

Especialistas afirmam que o processo de urbanização inadequada ajudou a provocar o desastre no estado, especialmente no Vale do Itajaí, e alertam que ainda é precipitado relacionar o problema às mudanças climáticas.

Ainda é cedo para relacionar a tragédia das chuvas em Santa Catarina com possíveis mudanças no clima causadas pelo aquecimento global, porém a ação humana é um fator que, para muitos especialistas, aumenta indiscutivelmente a vulnerabilidade a eventos climáticos extremos e pode ser incluída como um dos fatores que provocaram este desastre.

“O Sul do Brasil é uma região de chuvas abundantes, então cada vez mais terá que se pensar no processo de ocupação urbana”, comenta a coordenadora de previsão do tempo do Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia de Santa Catarina (Ciram/Epagri), Laura Rodrigues, que destaca ser precipitado relacionar este evento ao aquecimento global.

“Tivemos um volume muito grande de chuvas, mas já tivemos condições atmosféricas similares, como em dezembro de 1995, que provocou enchentes na Grande Florianópolis”, afirma.

Apesar das condições atmosféricas anormais, Laura ressalta que não se pode apenas querer culpar a chuva pelo problema. O modo como crescem as cidades, sem a devida atenção para os limites ambientais, aumenta a vulnerabilidade a desastres. “Cada vez mais, com a maior ocupação, construções irregulares, a situação ficará pior. Fatores como desmatamento também acabam contribuindo com o desastre”, diz Laura, ressaltando que, uma inundação como esta a 10 anos atrás não causaria tantos estragos.

O processo de urbanização aumenta a impermeabilização do solo que, nas áreas planas, reforça o problema das enchentes e, nas de encostas, acelera a velocidade de descida da água. A professora de Arquitetura e Urbanismo Maria Inês Sugai, da Universidade Federal de Santa Catarina, alerta também para a ocupação inadequada nos morros.

Maria Inês explica que a construção de servidões perpendiculares que cortam o morro na vertical ao invés de acompanhar as curvas de níveis fragiliza a estrutura ambiental e coloca a área em risco de deslizamentos. “É uma prática que herdamos dos portugueses, nos séculos 18 e 19. Porém hoje temos tecnologia, regulamentações e sabemos que isto é inadequado. A prefeitura não poderia aceitar este tipo de ocupação”, afirma. Ao invés de linhas verticais, o correto seria a construção de estradas como a Serra do Rio do Rastro, no planalto catarinense.

A falta de muros de contenção, inclusive nas estradas, e o desmatamento também são fatores que contribuem para o desastre. “A vegetação ajuda a segurar a terra e dependendo do tipo de solo, varia o recorte que deve ser feito no morro”, afirma Maria Inês.

A metereologista Cláudia Camargo, também da Ciram/Epagri, reforça que a alteração do solo é um fator muito importante para explicar esta tragédia, principalmente devido ao grande número de deslizamentos registrados. “No momento em que você retira o solo do morro e coloca asfalto, constrói uma casa, você altera a drenagem natural e colabora para que o efeito do excesso de chuvas seja mais drástico”, afirma.

Chuvas em excesso

Laura explica que, com relação ao sistema climático, foram diversos fatores que convergiram para esta situação, como a primavera chuvosa no estado, que deixou os solos encharcados; a maré alta, que dificultou o escoamento das águas do rio para o oceano, além, é claro, do volume elevado de chuvas, que em três ou quatro dias alcançou 500 mm. “Isto significa jogar 500 litros de água em um metro quadrado, praticamente uma caixa d´água”, compara. No mês de novembro o volume de chuvas passou de 900 mm no Vale do Itajaí, enquanto que a média para o mês de novembro é de 150 mm.

Itajaí fica debaixo d´águaDe acordo com o Ciram/Epagri, entre sexta e domingo (21 e 23/11) choveu até o dobro da média prevista para todo o mês em municípios catarinenses como Balneário Camboriú (455 mm), Itajaí (403 mm), Blumenau (300 mm), São José (254 mm) e Florianópolis (216 mm).

Com base em estudos que mostram os efeitos das mudanças do clima em Santa Catarina nos últimos anos, Cláudia não descarta a hipótese de que as mudanças climáticas possam ter influenciado estas enchentes. “Pode haver uma relação, até porque outros estudos tendem a um aumento nas temperaturas, mas tudo precisa ser cientificamente comprovado antes de tirarmos qualquer conclusão”, afirma.

Reflexo para o futuro das cidades

O cientista Carlos Nobre, do Instituto de Pesquisas Aeroespaciais (Inpe), coordenador dos estudos sobre mudanças climáticas no país, afirma que a tragédia que acontece em Santa Catarina é um espelho do futuro das cidades brasileiras. “Seriam necessários estudos com dados de cem anos. Mas já é possível dizer que, se o aquecimento continuar, as cenas de Santa Catarina serão muito repetidas”, disse. Segundo Nobre, as indicações são de extremos de chuvas torrenciais e grandes secas.

Para o jornalista Washington Novaes, entrevistado pelo Projeto "Percepção de Risco, a descoberta de um novo olhar", "estamos despreparados, desinformados e desatentos para as mudanças que já estão acontecendo. As reuniões da Convenção do Clima têm falado muito em mitigação e adaptação. Mitigação no sentido de como é que vai se fazer para reduzir esses impactos e segundo, como fazer para se adaptar aos impactos que já se tem". O projeto é desenvolvido pelo Departamento Estadual de Defesa
Civil e Centro de Estudos e Pesquisas sobre Desastres da UFSC.

Entenda o sistema atmosférico que causou as chuvas em Santa Catarina - http://ciram.epagri.rct-sc.br/portal/Controlador?command=ExibirNoticia&module=website&idNotic=441&tipo_notic=meteorologia&ixFoto=0&pag=0

Estudo “Mudanças climáticas globais e seus efeitos sobre a biodiversidade”, do Ministério do Meio Ambiente - http://www.mma.gov.br/estruturas/imprensa/_arquivos/livro%20completo.pdf


Crédito de imagem: Neiva Daltrozo/Secom


Fonte: Envolverde/CarbonoBrasil

Enchentes refletem aquecimento global

Por Rodolfo Borges, da UnB Agência

Climatologista acredita que tragédia está relacionada ao efeito estufa, mas diz que Brasil pode virar um dos países mais limpos do mundo.

Santa Catarina sofre há três dias com chuvas intensas. A água já matou mais de 79 pessoas e desalojou outras 54 mil. Em palestra no auditório da reitoria, o climatologista Carlos Nobre avaliou que a explicação para o estado de calamidade da região está no aquecimento global. “Isso é uma demonstração do que as mudanças climáticas são capazes, mesmo num estado como Santa Catarina com o melhor sistema de Defesa Civil do Brasil”, disse o especialista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Convidado do Seminário Franco-Brasileiro de Mudanças Climáticas, Nobre considera inegável que o homem esteja influenciando as variações de temperatura do planeta, e de “uma forma sem precedentes na nossa história”. Mais do que influir na amplitude das mudanças climáticas, o climatologista considera que o homem aumenta a velocidade do aquecimento pelo qual o mundo passa, e numa ordem de 50 a 100 vezes.

Nesse cenário catastrófico, o Brasil pode desempenhar um papel muito importante, apesar de estar numa posição vulnerável, de acordo com o especialista. “O Brasil ainda é um país em desenvolvimento e tem 50% de sua população abaixo da linha da pobreza, mas a redução de emissões no país não afetaria diretamente a sua economia”, disse.

Nobre explica que 80% das emissões de CO2 da China, por exemplo, estão associadas diretamente ao crescimento do seu Produto Interno Bruto (PIB). Poluir menos, portanto, significaria diminuir o crescimento do país. No Brasil, contudo, 55% das emissões estão relacionadas ao desmatamento. “Quando diminuir o desmatamento na Amazônia, o Brasil vai se tornar um dos países mais limpos do mundo, e sem que a sua economia sofra impactos negativos”, garantiu.

BIOCOMBUSTÍVEL – Os biocombustíveis também desempenham papel fundamental entre as medidas que pretendem diminuir as agressões do homem ao meio ambiente, segundo o climatologista. E o Brasil está entre os mais interessados no campo dos combustíveis renováveis. “Se houver expansão na área de biocombustíveis, ela acontecerá na América do Sul e na África, onde há clima adequado para plantações de cana-de-açúcar, terra disponível e água”, disse Nobre.
Marcelo Poppe, que também participou do seminário de mudanças climáticas, chamou atenção para a eficiência do bioetanol de cana-de-açúcar durante sua exposição. “O balanço energético da cana é muito positivo. Ela é capaz de produzir de oito a dez vezes a quantidade de energia utilizada para a sua produção”, disse o membro do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) do Ministério da Ciência e Tecnologia. “A beterraba, por exemplo, gera apenas três vezes mais energia do que exige”, completou.

Segundo Poppe, o Brasil já consome mais bioetanol de cana-de-açúcar do que gasolina em carros leves, e sem nenhum prejuízo ao desempenho dos automóveis. “Existe um desconhecimento muito grande sobre o assunto no exterior. Atualmente o percentual de álcool na gasolina brasileira é de 25%, e nós utilizamos esse combustível em carros importados”, lembrou, ao dizer que as restrições dos estrangeiros à mistura não se justifica.

O pesquisador do CGEE finalizou sua palestra dizendo que o Brasil tem uma possibilidade bastante ampla de expansão na área de biocombustíveis, mas precisa de uma política rigorosa para evitar a utilização de áreas impróprias para o plantio.


Crédito da imagem: Daiane Souza/UnB Agência


Fonte: Envolverde/UnB Agência

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Cuba: O desastre do novo século

Por Dalia Acosta, da IPS

Havana, 12/09/2009 – Como o furacão de 1932, o Flora de 1963 ou o Michelle em 2001, a combinação fatal dos furacões Ike e Gustav ficará na memória histórica de Cuba como um dos maiores desastres naturais que esta ilha do Caribe precisou enfrentar. Quando ainda não se havia terminado a contabilidade dos danos causados por Gustav no dia 30 de agosto no ocidente do país, Ike entrou pelo leste na noite da última segunda-feira, saiu ao mar para se fortalecer e no dia seguinte voltou a atravessar a ilha de sul a norte pela província de Pinar del Rio, a cerca de 140 quilômetros de havana.

Antecedido pelas penetrações do mar na cidade de Baracoa, acompanhado de intensas chuvas e uma extensa área de influência com ventos que superavam os 200 km/h, Ike afetou praticamente todo o território cubano e sua população de 11,2 milhões de pessoas. Enquanto o ciclone se afastava ao norte pelo golfo do México, Cuba continua sofrendo rajadas de vento, chuvas, cheias de rios e inundações, e o governo de Raúl Castro punha toda sua ênfase no início dos trabalhos de recuperação, incluindo o restabelecimento dos serviços básicos de água, eletricidade e comunicações.

“Nada igual”, “um desastre”, “nem no caso do Flora”, “não lembro de ter vivido algo assim”, repetem as pessoas entrevistadas em algumas das localidades mais afetadas, onde a imprensa nacional conseguiu chegar com o apoio das máximas autoridades do país. Cinco pessoas morreram na ilha vítimas de Ike e há informes de 19 feridos, dados preliminares que podem aumentar com persistência das inclemências climáticas, mas consideradas insignificantes se for considerada a magnitude do desastre.

A redução ao mínimo possível das vítimas fatais se associa diretamente às medidas preventivas aplicadas pela Defesa Civil em Cuba. Até o último dia 9, mais de 2,6 milhões de pessoas foram evacuadas em todo o país, a maioria levada para casas de parentes e vizinhos, afirmou o coronel José Ernesto Betancourt. Fontes do Estado Maior da Defesa Civil informaram que para enfrentar o impacto de Ike foram ativados 1.236 órgãos de direção de leste a oeste, 2.300 abrigos estatais, 9.600 equipes de transporte e de carga. Aproximadamente 118 mil pessoas trabalharam nas tarefas de atenção e máxima proteção da população.

“Esta cidade retrocedeu pelo menos 70 anos. Está irreconhecível. Teremos de trabalhar muito para seguir adiante”, disse à IPS, por telefone, uma moradora de Holguín, um dos territórios mais afetados pela passagem do furacão a cerca de 700 quilômetros de havana. Tristeza, vazio, desolação. Imagens aéreas dos municípios de Banes e Gibara, em Holguín, mostradas pela televisão nacional, mostram populações inteiras devastadas, quilômetros e quilômetros de construções sem teto, enclaves econômicos e também casas de famílias total ou parcialmente destruídas.

“As imagens de casas e instalações destruídas, colheitas arruinadas, árvores derrubadas, rios transbordando, casas invadidas pelas águas em territórios planos, pessoas arrastadas pela força das correntes de água e salvas com desesperados esforços, eram desoladoras”, disse o ex-presidente Fidel Castro em uma carta enviada na quarta-feira ao programa de televisão Mesa Redonda. O mar penetrou terra adentor na localidade de Santa Cruz del Sul em Camagüey, e Caimito, Majana, la Sabana e El Corujal, em Havana. As intensas chuvas converteram a comunidade de Alacrán em um rio caudaloso e provocaram inundações em numerosos assentamentos e cidades como Matanzas, Ciego de Ávila e Camagüey.

Ike prejudicou mais de 200 mil casas em Cuba, das quais 30 mil caíram completamente, informou Victor Ramírez, presidente do Instituto Nacional da Habitação. Se forem somadas as afetadas por Gustav, são mais de 320 mil danificadas, a maioria ficando sem teto. “Muitos telhados estavam projetados para ventos menores do que os registradas nas últimas semanas’, disse Ramírez após percorrer o oeste dopais. As chuvas causam pelo menos 16 desmoronamentos, totais ou parciais, dado que pode aumentar quando terminarem as chuvas e o sol começar a secar estruturas umedecidas de um grande número de edificações que já estavam em franco processo de deterioração.

Enquanto o setor do turismo não informou danos importantes e o parque eólico de Gibana, inaugurado este ano como parte de um projeto nacional de energia renovável, suportou rajadas de vendo superiores a 220 quilômetros por hora, os danos são graves na zona produtora de níquel de Moa, no sistema eletro-energético e das comunicações. Ricardo González, diretor da União Elétrica Nacional, garantiu que Ike afetou as linhas de transmissão de todas as províncias do país, mas os microsistemas que funcionam com óleo combustível e diesel conseguiram suprir as necessidades vitais da população.

Na agricultura há informações de severos danos em plantações de tabaco e cítricos, importantes itens de exportação de Cuba. Também foram afetadas grandes extensões de cultivos em todas as províncias produtoras de alimentos, um golpe econômico que as autoridades pretendem ressarcir com a plantação acelerada de cultivos de ciclo curto. “Creio que o valor total dos prejuízos materiais e econômicos ainda vai demorar para ser conhecido, mas a meu ver poderá ficar entre dois bilhões e três bilhões de pesos”, disse Ariel Terrero, comentarista de temas econômicos da revista na televisão Buenos Dias.

Para este tipo de cálculo Cuba aplica a taxa oficial de câmbio do dólar pelo peso cubano de um por um. “Talvez esteja ficando curto”, acrescentou o jornalista. Nesse caso, Ike se situaria como o desastre natural de maior impacto econômico, superior ao causado pelo furacão Michelle, que em 2001 deixou cinco mortos, mais de 1890 mil casas afetadas e perdas econômicas estimadas em mais de 1,8 bilhão de pesos. (IPS/Envolverde)


(Envolverde/IPS)

Terremoto no Atlântico não oferece risco de tsunami

O terremoto de magnitude 6,6 na escala Richter (que vai até 8,0) detectado na quarta-feira (10) no Oceano Atlântico, a 1.260 quilômetros da Costa de Parnaíba, no Piauí, e a 1.542 quilômetros de Caiena, capital da Guiana Francesa, não oferece riscos de tsunami, segundo o o professor de Geofísica da Universidade de Brasília (UnB), George Sand França. O tremor ocorreu a dez quilômetros de profundidade no leito da Dorsal Meso-Atlântica, informou o Observatório de Sismologia da UnB.

De acordo com França, o terremoto é comum. Ele explicou que o abalo sísmico, apesar da grande magnitude, teve o epicentro no meio do oceano, muito distante de regiões habitadas. França afirmou que o tremor ocorreu em zona de divergência, onde os terremotos acontecem não por causa de choques entre placas tectônicas, mas por causa de seu afastamento. "Só há formação de tsunami quando há encontro entre placas", disse. (Fonte: Carina Urbanin/ Estadão Online)

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Furacões e enchentes realizam previsões climáticas, diz ONU

Os furacões no Atlântico e as inundações na Índia devem servir de alerta para o mundo sobre os riscos associados às mudanças climáticas, disse na segunda-feira (1°) o diretor do Programa Ambiental da ONU, Achim Steiner.

Segundo ele, os atuais transtornos são compatíveis com as previsões feitas pelo Painel Climático da ONU, e ressaltam a necessidade de que até o final de 2009 os governos concluam um novo tratado global contra o aquecimento.

"Esses desastres naturais de fato refletem um padrão de mudança que está de acordo com as projeções", disse ele à Reuters por telefone de Genebra.

Citando os furacões no Atlântico e as inundações da Índia, ele disse que "claramente temos mais razões do que nunca para estarmos preocupados com o desenrolar de padrões que o IPCC (comissão científica da ONU) previu".

Ele admitiu, porém, ser impossível vincular diretamente fatos como o furacão Gustav às mudanças climáticas provocadas por atividades humanas como a queima de combustíveis fósseis.

O furacão Gustav atingiu na segunda-feira a costa sul dos EUA, um pouco a leste de Nova Orleans, cidade que já havia sido devastada há três anos pelo furacão Katrina.

Em Bihar (leste da Índia), o transbordamento do rio Kosi, depois do rompimento de uma represa no Nepal, deixou pelo menos 3 milhões de desabrigados e 90 mortos.

Steiner lembrou que, além do sofrimento humano, há também "uma escalada econômica quanto aos danos por desastres naturais". A seguradora Munich Re estima que desastres naturais (muitos deles climáticos) provocaram prejuízos de 50 bilhões de dólares no primeiro semestre.

"O crescimento das populações e da infra-estrutura significa que vamos enfrentar cada vez mais fatos dessa natureza [e que eles vão] se tornar um grande risco para nossas economias", disse Steiner. "Nossas sociedades não podem suportar isso, nosso setor de seguros não pode suportar uma escalada nos riscos." (Fonte: Estadão Online)

Gustav passa por Cuba sem deixar mortos e já se aproxima de costa dos EUA

O furacão Gustav, que deixou Cuba e agora se aproxima da costa norte-americana no golfo do México, deixou um rastro de destruição no país, principalmente nas províncias de Pinar del Rio e Isla de la Juventud (oeste). Entretanto, não foram registradas mortes até a tarde deste domingo (31), um dia depois que ventos de 230 km/h a 240 km/h começaram a afetar o país.

Em Nova Orleans e na região norte-americana do golfo do México, dezenas de milhares de pessoas deixaram suas casas neste domingo (31), para fugir do furacão, que deve chegar ao local na manhã de segunda-feira (1º). Apesar do temor, o fenômeno deve chegar mais fraco que o Katrina, de 2005.

O prefeito de Nova Orleans, Ray Nagin determinou a retirada obrigatória da cidade, que tem praticamente 240 mil habitantes e disse aos moradores que "essa ainda é uma tempestade grande e feia, ainda forte". Ele afirmou que qualquer pessoa que se negue a sair estará em extremo perigo.

O fenômeno já havia causado a morte de ao menos 86 pessoas na República Dominicana, Haiti e Jamaica - esse número pode chegar a 96. "Circuitos de alta tensão foram derrubados, telhados caíram de casas em bairros inteiros, escolas foram destruídas e, em Palácios, até o estádio de baseball foi destruído", afirma o câmera da agência Reuters, Heriberto Rodriguez, sobre a situação em Cuba.

Destruição

Moradores eram vistos chorando entre os escombros de suas casas. Os 800 mil habitantes de Pinar del Rio e Isla de la Juventud ficaram sem energia durante todo o dia, assim como mais de 3 milhões de pessoas da província de Havana e da capital. Os ventos também derrubaram árvores e postes telefônicos.

A chuva e os ventos também destruíram plantações de banana e outros cultivos na província de Havana. Mortes por furacões são raras em Cuba, onde o processo de retirada da população é organizado e feito com antecedência.

Ao menos 300 mil pessoas foram retiradas da trajetória de Gustav. Segundo a presidente do Conselho Municipal de Defesa da Ilha de la Juventud, Ana Isa Delgado, quase todas as estradas da ilha foram inundadas e algumas regiões estão inatingíveis.

'Tem sido difícil aqui. É difícil imaginar, é uma situação muito complexa, muito difícil, porque os danos são numerosos', acrescentou Delgado, afirmando que algumas localidades da ilha estão incomunicáveis.

O primeiro aviso de ciclone deste domingo adverte que, em Cuba, 'continuarão as ressacas em toda a costa sul e as inundações litorâneas nas zonas baixas' desse mesmo litoral, de Cienfuegos (centro) até Havana (oeste).

Fuga

Em Nova Orleans, o prefeito Nagin determinou um toque de recolher e prometeu mandar para a prisão saqueadores que possivelmente queiram se aproveitar da situação.

Por enquanto, a retirada da população está acontecendo normalmente, apesar da lentidão do trânsito e do fechamento de algumas rodovias. Mais de 11,5 milhões de pessoas em cinco Estados podem sentir o impacto da tempestade.

A guarda costeira dos Estados Unidos registrou a primeira morte possivelmente relacionada ao fenômeno, na Flórida - um homem caiu no mar quando seu barco foi atingido por fortes ondas.

Prevenção

Gustav perdeu força, para uma ainda perigosa categoria três, ao passar por Cuba. A escala de Saffir-Simpson, que mede essa intensidade, pode chegar até cinco. Entretanto, o Centro Nacional Americano de Furacões (NHC, na sigla em inglês) trouxe algum alívio ao informar que a tempestade estava ficando, gradativamente, mais fraca.

Katrina era um furacão de categoria quatro quando chegou à cidade em 29 de agosto de 2005. Nova Orleans virou um cenário de caos e as pessoas afetadas esperaram por dias a chegada de apoio governamental.

Agora, os autoridades mobilizaram trens e centenas de ônibus para realizar a retirada de 30 mil pessoas que não conseguiriam sair sozinhas --o prefeito afirma que 15 mil pessoas foram retiradas do local, incluindo usuários de cadeiras de rodas.

Novo perigo

Depois da passagem de Gustav, os meteorologistas já alertam para uma nova tempestade tropical que pode chegar a Cuba.

A tempestade tropical Hanna deve chegar perto das ilhas de Turks e Caicos no final deste domingo e depois seguir caminho pelas Bahamas até chegar em Cuba, nos próximos dias. Esta tempestade tropical se desloca a 19 km/h e seus ventos máximos sustentados são de cerca de 95 km/h.

O Departamento de Estado dos EUA pediu aos norte-americanos que tomem cuidado com os riscos apresentados por Hanna e que evitem viajar à região nos próximos dias. O Departamento pediu também que cidadãos norte-americanos nas ilhas procurem abrigos seguros e que considerem deixar a região enquanto ainda há aviões disponíveis.
(Fonte: Folha Online)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Ambiente: Expectativa em Cuba pela chegada de Gustav

Por Dalia Acosta, da IPS

Havana, 29/08/2008 – Enquanto a tempestade tropical Fay ainda ameaça os Estados Unidos e a oitava depressão da atual temporada de ciclones nasce com o nome de Hanna, a população do ocidente de Cuba segue com atenção a evolução de Gustav, que já causou pelo menos 22 mortes no Caribe. Esta tempestade tropical, que ontem já começava a afetar o norte da Jamaica com fortes chuvas e rajadas de vento, poderia intensificar-se nas horas seguintes e, segundo previsões especializadas, atingir a categoria de furacão e se fortalecer bastante quando avançar pelas águas do Caribe.

“O calor oceânico, entre 31 e 32 graus, e as condições favoráveis na atmosfera superior” aumentam as probabilidades de Gustav se converter em “um furacão importante”, disse na televisão José Rubiera, chefe do Centro Nacional de Previsão do Instituto de Meteorologia de Cuba. “Há um fortalecimento rápido do sistema”, acrescentou, alertando que, embora as possíveis trajetórias afastem o sistema tropical de Cuba pelo sul, o ocidente desta ilha deve ficar em alerta. “Em 2002 tivemos um sistema semelhante que margeou a Jamaica e depois afetou o ocidente” cubano, recordou. No entanto, Hanna “não representa um perigo” para a maior ilha do Caribe, disse o meteorologista.

Informações de imprensa procedentes da Jamaica indicam que essa ilha vizinha amanheceu ontem paralisada à espera de Gustav, enquanto as maiores expectativas eram em torno da ameaça potencial da tempestade para as instalações petroleiras dos Estados Unidos no golfo do México. A Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah) informou que trabalha com as autoridades do país para ajudar as vítimas da tempestade tropical Gustav, que na quarta-feira “provocou fortes ventos, chuvas torrenciais e inundações no sul de seu território”.

Os efetivos da Minustah ajudam a evacuar milhares de pessoas com botes ou caminhões e, segundo o serviço de notícias das Nações Unidas em Cuba, houve preparativos para dar assistência imediata a cerca de três mil famílias nas localidades afetadas. As vítimas fatais nesse país são estimadas em pelo menos 14, número que se soma às mais de 50 pessoas mortas este mês quando tentaram cruzar de carro um rio que transbordou durante a tempestade tropical Fay.

Os danos também são altos na República Dominicana, que compartilha a ilha La Española com o Haiti, onde a Defesa Civil registrou mais de 5.700 refugiados e cerca de mil casas danificadas. Uma família de oito pessoas morreu nesse país devido a um deslizamento de terra. “Gustav pode ficar mais forte e chegar a categoria de furacão e ganhando maior intensidade em sua trajetória sobre o mar do Caribe ocidental, ao sul de Cuba, nesta sexta-feira”, afirma a última previsão divulgada pelo Instituto de Meteorologia de Cuba.

Segundo o Aviso de Ciclone Tropical nº 5, divulgado ao meio-dia de ontem, Gustav tem ventos máximos de 110 km/h, com rajadas superiores, e sua pressão mínima caiu para 983 hectopascais, um indicador de sua intensificação. Como sempre nestes casos, uma equipe da televisão estatal se dirigiu à sede do Instituto, no povoado de Casa Blanca, em Havana, de onde os especialistas desse órgão mantêm a população informada sobre a evolução do ciclone tropical e as possíveis trajetórias.

No entanto,o Estado Maior da Defesa Civil manteve a fase de alerta de ciclone para cinco províncias orientais e decretou a fase informativa para as ocidentais de Havana, em Ciudad de Havana, Pinar del Rio e Ilha da Juventude, ao sul de Cuba. As medidas preventivas, tomadas rapidamente no oriente cubano, agora se traslada para o ocidente da ilha. Apesar da distância ainda do sistema, que pode chegar a esta zona no final de semana, Havana amanheceu nublada e com chuvas isoladas.

“Nos últimos dias choveu quase todas as tardes e sempre minha casa inunda”, disse à IPS Vigen Gómez, moradora de uma casa velha multifamiliar na zona central do Vedade. “Cada vez que vem um ciclone dizem que devo sair, mas não deixo minha casa por nada”, acrescentou a mulher de 58 anos, com 2,2 milhões de habitantes, a capital cubana recebe cada ciclone com a agonia de seus moradores que temem o impacto que possam ter em suas casas as fortes rajadas de vento, as chuvas intensas e as invasões do mar, nas zonas costeiras da cidade.

Além da capital, o ciclone poderia afetar a província ocidental de Pinar del Rio, território que conta com as mais importantes plantações de tabaco de Cuba e grandes reservas naturais do sistema cubano de áreas protegidas, com a da Sierra del Rosario e a Península de Guanacahabides. O alerta de chuvas que acompanham Gustav se mantém no oriente da ilha, onde a Defesa Civil aplicou as medidas preventivas previstas para estes casos, que incluem evacuação da população em situação vulnerável. Também foram protegidos recursos os econômicos de cada território.

Só em Santiago de Cuba, a 700 quilômetros de Havana, foram evacuadas 31.140 pessoas e cerca de 16 mil animais foram levados para locais seguros, segundo a televisão da província. Medidas especiais de proteção foram tomadas também na baía de Santiago para evitar perdas econômicas. Mas, o Conselho de Defesa da província de Guantânamo informou sobre a evacuação de 984pessoas para casas de parentes e vizinhos, o traslado de mais de 11 mil animais e 31 equipamentos de irrigação, bem com a colheita de alimentos prontos para consumo da população.

Em Holguín, o membro do Comitê Político do Partido Comunista de Cuba e presidente do Conselho de Defesa Provincial, Miguel Díaz Canell, orientou a evacuação de mais de 1.500 pessoas, moradoras em zonas baixas com risco de inundações e penetrações da água do mar, segundo a versão digital do jornal local Ahora. Ao meio-dia de ontem, já havia registros de chuvas em várias províncias orientais do país que poderiam causar danos maiores, principalmente nas montanhas e zonas costeiras. “Amanheceu tranqüilo, mas o tempo começa a mudar e temos chuva”, disse à IPS por telefone Aberlardo Jiménez, morador em Santiago de Cuba.

A zona oriental da ilha ainda pode esperar “chuvas fortes e localmente intensas, que afetarão sobretudo as regiões montanhosas e a costa sul. Também pode-se esperar inundações costeiras”, afirmou Rubiera, reiterando o chamado da Defesa Civil à população para se manter informada. Algo semelhante aconteceu em meados deste mês com a tempestade tropical Fay, que em sua passagem por Cuba isolou vários povoados montanhosos e causou a cheia de um rio na comunidade de Falcón, no centro da ilha. Cerca de 200 casas foram danificadas penas nessa localidade devido às chuvas. (IPS/Envolverde)

(Envolverde/IPS)