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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

ONU faz campanha sobre impacto do efeito estufa

Por Leda Letra, da Rádio ONU em Nova York

Uma campanha do Escritório das Nações Unidas de Assistência Humanitaria, Ocha, está pedindo mais investimentos no preparo de países mais vulneráveis às tragédias climáticas.

Segundo o Ocha, Moçambique, no sul da África, é um bom exemplo de nação que conseguiu lidar de maneira positiva com os desastres naturais.

Perdas

A ONU afirma que nos últimos 20 anos, os desatres naturais dobraram passando de 200 para 400 por ano.

O subsecretário-geral de Assuntos Humanitarios, John Holmes, lembrou que o mundo já está sentindo os efeitos das mudanças climáticas.

Entre 1988 e 2007, mais de 75% de todas as tragédias ocorridas no mundo estavam relacionadas ao clima. E mais da metade das perdas econômicas foi causada por desastres naturais.

Fonte: Envolverde/Rádio ONU

Radares velozes

Por Fábio Reynol, de Campinas (SP)

Agência FAPESP – O projeto KyaTera, do Programa Tecnologia da Informação no Desenvolvimento da Internet Avançada (Tidia) da FAPESP, tem auxiliado uma ciência cada vez mais solicitada nos dias de hoje, a climatologia.

A plataforma óptica de ensino e pesquisa que liga universidades, laboratórios e empresas com velocidade de transferência de dados centenas de vezes maior do que a da internet convencional deverá ser utilizada para a conexão e a troca de informações entre radares de laser que analisam a atmosfera, bem como para a sua operação remota.

Um equipamento com esse objetivo está para entrar em operação no Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (Cptec) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em Cachoeira Paulista (SP). Por meio da rede KyaTera, ele trocará informações com o sistema Lidar (sigla para Light Detection and Ranging ou Detecção e Direcionamento de Luz).

O Lidar, um laser capaz de medir em tempo real a poluição atmosférica, foi desenvolvido pela equipe do físico Eduardo Landulfo no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) e está em operação desde 2001 no campus da instituição, na capital paulista – o desenvolvimento do sistema teve apoio da FAPESP.

Os pesquisadores estão atualmente trabalhando em sistemas de automatização do equipamento. “Um detector de mudanças climáticas deverá fechar o teto retrátil que protege o radar antes da chegada de uma chuva”, disse Landulfo.

Porém, a maior contribuição que a KyaTera dará ao projeto não está na automação. A rede deverá servir de plataforma de comunicação para uma rede de monitores ambientais. “Um só ponto de medida não adianta. Planejamos ter outros quatro radares em outras instituições para trabalhar em conjunto com o do Ipen”, disse Landulfo durante o Workshop KyaTera 2008, realizado no último dia 29 na Universidade Estadual de Campinas.

Entre os focos de pesquisa que poderiam entrar na pauta de estudos da rede de radares laser estão as queimadas da cana-de-açúcar, comuns no interior de São Paulo, e o auxílio do monitoramento da bacia do rio Corumbataí, também no interior do estado.

A rede deverá ajudar a delinear um mapa atmosférico mais detalhado e preciso de algumas regiões paulistas e possibilitar a atualização em tempo real das informações coletadas por cada um, o que pode ser feito em intervalos de dois minutos.

O princípio de funcionamento do equipamento é similar ao dos radares sonoros. O Lidar emite um facho de laser na atmosfera e depois recebe o seu reflexo por meio de uma técnica chamada de retroespelhamento.

Com a análise da luz refletida é possível identificar partículas suspensas, aerossóis e alguns gases em suspensão, especialmente útil na análise da determinação da poluição atmosférica de uma região. O alcance do Lidar é de 10 quilômetros de altitude e cada leitura corresponde a um intervalo de 15 metros. “A cada ano temos aprimorado o radar e ampliado as suas aplicações”, disse Landulfo.

Crédito da imagem: Divulgação

Fonte: Envolverde/Agência Fapesp

Cientistas explicam como se formam os icebergs

Um processo que contribui para o aumento dos níveis do mar é a formação de icebergs a partir dos mantos de gelo da Groenlândia e da Antártida. À medida que essas expansões de gelo fluem da terra para dentro da água, formam extensões flutuantes, ou plataformas. E é da principal extremidade dessas plataformas que os icebergs se desprendem.

Cientistas que estudam o impacto potencial das mudanças climáticas precisam ser capazes de simular como se comportam os mantos de gelo e as plataformas, incluindo a rapidez com que se formam os icebergs. Mas ninguém foi capaz de formular uma regra fundamental para sua formação.

Agora, Richard B. Alley, da Universidade Estadual da Pensilvânia, e colegas encontraram uma teoria. A taxa de formação, afirmam eles na publicação "Science", é primariamente uma função da taxa pela qual uma plataforma de gelo se espalha.

Essa regra bastante simples foi desenvolvida após um longo estudo com dados de plataformas de gelo, incluindo a maior do mundo, Ross, na Antártida. Eles descobriram que plataformas de crescimento mais rápido possuem uma taxa mais alta de formação, enquanto as que se espalham mais lentamente devido a apoios laterais ou do fundo do mar produzem icebergs em taxas mais baixas.

Os pesquisadores afirmam que mesmo sua regra não sendo perfeita, ela pode ser útil quando associada a modelos de computador para ajudar a estudar o comportamento de mantos de gelo no mundo em aquecimento.

Fonte: G1

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A dor que nunca passa

Marina Silva
De Brasília (DF)


Nos anos 1970, quando abriam a BR-364 no Acre, ela cortou ao meio o Seringal Bagaço, onde eu morava com minha família. À derrubada da mata seguiu-se uma epidemia violenta e incontrolável de sarampo e malária. Era gente doente ou morrendo em quase todas as casas. Perdi um primo e meu tio Pedro Ney, que foi uma das pessoas mais importantes da minha infância. Morreu minha irmã de quase dois anos e, quinze dias depois, outra irmã, de seis meses. Seis meses depois, morreu minha mãe. Tudo
era avassalador, assustador. Uma dor enorme, extrema, que nunca passou. Para sair disso, tivemos que reconstruir, praticamente, o sentido inteiro do mundo. Aceitar o inaceitável, mas carregá-lo para sempre dentro de si. Ir em frente, enfrentar a dureza do cotidiano, sobreviver, cuidar dos outros. Viver, enfim, e dar muito valor à vida e às pessoas.

Em 1985, numa das maiores enchentes do rio Acre em Rio Branco, eu morava no bairro Cidade Nova, na periferia da cidade, numa pequena casa de onde tivemos que sair às pressas, levando o que foi possível numa canoa. O resto foi levado pelas águas, inclusive o único retrato que tínhamos de minha mãe.



Penso agora nisso tudo e acho que consigo entender o que sentem os catarinenses, mas ainda estou longe de alcançar o significado estarrecedor de uma perda tão total e instantânea como a que sofreram. Na escuridão, o morro descendo, destruindo tudo, a busca desesperada pelos filhos, a impotência. E, depois, descobrir-se só em meio ao caos: acabou a casa, foram-se as pessoas amadas, o lugar no mundo. Não há mais nada, só a vida física e a força do espírito.

Meus filhos andam pela casa com todo vigor, com toda a beleza da juventude, e sequer consigo imaginar o que seria, de uma hora para outra, vê-los engolidos pela terra, debaixo de toneladas de escombros ou mutilados para o resto da vida. É algo terrível demais até no plano da imaginação. Fere a própria alma tão fundo que chega a ser impossível entender plenamente a profunda tristeza de quem enfrenta essa realidade.

Na Londres de 1624, os sinos da catedral de São Paulo, onde o poeta John Donne era o Deão, tocavam quase ininterruptamente anunciando as milhares de mortes causadas pela peste. Atingido por grave enfermidade (que chegou a ser confundida com a peste) Donne escreveu então um de seus textos mais conhecidos, a Meditação XVII: "Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo; se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, assim como se fosse uma parte de teus amigos ou mesmo tua; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti."

Hoje, no mundo, os sinos dobram por todos nós e para nos acordar. Grandes desastres podem virar acontecimentos corriqueiros. Não se pode afirmar peremptoriamente que a tragédia de Santa Catarina deriva, em linha direta, das mudanças climáticas identificadas no relatório do IPCC, o Painel Internacional de Mudanças Climáticas da ONU. Mas em tudo se assemelha às previsões de possíveis impactos da mudança no clima do sul do Brasil, até o final do século 21.

A natureza, numa pedagogia sinistra, parece exemplificar o que significam esses fenômenos extremos que, em várias regiões do planeta, tenderão a provocar períodos de seca muito mais severos e outros com precipitações intensas.

As ações de mitigação necessárias e as adaptações para enfrentar esses efeitos e reduzir nossa vulnerabilidade diante deles ainda são precárias e estão atrasadas. Os países ricos, detentores de recursos, conhecimento e tecnologia, já avançam em medidas para se proteger. As piores conseqüências deverão recair sobre os países pobres e os em desenvolvimento. A urgência é auto-explicável. Não é um cientista quem o diz e nem um livro. É a natureza, cujos avisos e alertas têm sido insanamente ignorados.

O Brasil, que ontem lançou o seu Plano Nacional de Mudanças Climáticas, não tem como deixar de fazer a sua parte, mesmo sem os meios disponíveis nos países ricos. O acontecido em Santa Catarina é um sintoma e deve ser seguido de um esforço de grandes proporções, de início imediato, para tentar evitar que se repita.

É preciso que cada um de nós, autoridades públicas, empresas e cidadãos, pensemos nos mortos, nas famílias inteiras soterradas, nas vidas destroçadas debaixo do barro, antes de sermos tolerantes com ocupação em encostas, com destruição de matas ciliares, com o adensamento de áreas de risco, com mudanças de conveniência nas legislações. Não há mais espaço para empurrar os problemas ambientais com a barriga, como tentam fazer alguns, e deixar para "o próximo" o ônus de medidas ditas antipáticas. A omissão que ceifa vidas humanas tem que acabar, mesmo à custa de incompreensões.

Nos tempos atuais, há mais um componente na agenda ética: não se deixar corromper diante das pressões para ignorar a proteção ambiental e as medidas de precaução exigidas pela intensificação dos fenômenos naturais. Quem detém algum tipo de representação pública deve se convencer de que é preciso mudar profunda, rápida e estruturalmente os usos e costumes, de modo a preparar o País para um futuro de sérios desafios ambientais. Cada vez mais, não é só uma questão de errar, corrigir o erro e aprender com ele. Agora a palavra de ordem é prevenir o erro, para que não se repitam os olhares perdidos, os rostos esvaziados, o choro inconsolável, a desesperança e as mortes que vimos nesses últimos dias em Santa Catarina.

Marina Silva é professora secundária de História, senadora pelo PT do Acre e ex-ministra do Meio Ambiente.

Fale com Marina Silva: marina.silva08@terra.com.br

Ambiente - EUA: Com pressa, sem parar e contra a corrente

Por Stephen Leahy, da IPS

Uxbridge, Canadá, 03/12/2008 – Enquanto a comunidade mundial se reúne nesta semana na Polônia, tentando encontrar soluções para a crise climática, George W. Bush aproveita suas ultimas semanas como presidente dos Estados Unidos para aprovar a todo vapor leis que a agravam. Quase um milhão de hectares de terras virgens nos Estados centrais de Wyoming e Utah foram abertos à extração de xisto betuminoso. A Lei de Espécies Ameaçadas é desarticulada. Também as regulamentações das fazendas industriais e a Lei de Ar Limpo. E cumes de montanhas são removidos para cavar em busca de carvão.

“Há muitas mudanças de ultima hora, e algumas draconianas”, disse à IPS Josh Dorner, do Sierra Club, em nome de uma rede de 29 organizações ambientalistas que lançaram uma advertência a respeito desta intensa atividade da Casa Branca. O Poder Executivo pode fazer essas mudanças arbitrariamente, sem aprovação ou consulta ao Congresso ou ao público. Mais de 60 destas leis foram aprovadas em novembro, com a intenção de atar as mãos do governo de Barack Obama, que assumirá em janeiro. Com algumas delas será difícil voltar atrás, mas Obama o fará, seguramente, com muitas das piores, previu Dorner. “O governo Bush não é tão hábil quanto pensa”, acrescentou.

Em 2009 haverá um clima totalmente novo na Casa Branca, assegurou a coalizão de organizações ambientalistas, que se reuniu na semana passada com a equipe de Obama e apresentou um “mapa do caminho para a ação presidencial sobre estímulo econômico, energia, mudança climática e outras questões graves”. As “prioridades do novo governo em matéria de energia, economia e meio ambiente se enquadram bem com nosso mapa”, disse Margie Alt, diretora-executiva da Environment America. Obama disse que até 2020 quer reduzir as emissões de gases de efeito estufa dos Estados Unidos aos níveis de 1990 e baixá-los em mais 80% até 2050.

A maioria das organizações ambientais estão a favor de estabelecer objetivos mais duros, originalmente recomendados pelos mais de dois mil científicos que integram o Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC), segundo os quais os Estados Unidos deverão reduzir suas emissões até 2020 entre 25% e 40% em relação a 1990. Há um amplo consenso de que a solução para a atual crise econômica é se passar rapidamente para uma economia verde alimentada por fontes de energia limpas, disse Francês Beinecke, diretora-executiva do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais.

“Podemos solucionar três problemas de uma só vez: a economia, a segurança energética e o meio ambiente”, disse Beinecke à IPS. Com investimentos em eficácia energética e produção de energia com fontes renováveis se pode criar cinco milhões de empregos. Introduzir um sistema de teto e um mercado de carbono serviria para criar fundos dirigidos a investimentos em modernização de edifícios e desenvolvimento de fontes de energia limpa, como a eólica e a solar, afirmou. A equipe de Obama trabalha em um pacote de estímulos econômicos que, segundo diversas versões, superará os US$ 500 bilhões. Os ambientalistas esperam que haja um grande componente verde que, entre outras coisas, melhore a antiquada infra-estrutura energética do país e mais, disse Beinecke.

“Vinte e cinco por cento da energia gerada nos Estados Unidos são perdidos na transmissão”, afirmou Kevin Knobloch, presidente da Union of Concerned Scientists. “Construir uma rede elétrica inteligente será muito mais eficiente e menos propenso ao fracasso”. Além disso, é preciso uma nova rede para maximizar os benefícios da geração desde fontes alternativas de energia. Construir uma rede inteligente criará trabalhos de qualidade que não podem ser subcontratados, acrescentou.

“O melhor que o governo pode fazer pela população é reduzir seu uso de energia, para que possam economizar dinheiro nesta crise econômica”, disse Larry Schweiger, presidente da National Wildlife Federation. De outro modo, “ressurgirão os custos mais elevados da energia”, disse à IPS. Após oito anos de negligência e exploração, é preciso potencializar a proteção das terras e águas dos Estados Unidos, e especialmente do mar Ártico. A coalizão propôs um Fundo de Terra e Conservação de US$ 450 milhões para proteger as áreas virgens, criar mais parques e otimizar as oportunidades recreativas, acrescentou.

“A natureza necessita adaptar-se à mudança climática”, enfatizou Schweiger. Restaurar e garantir a saúde e a diversidade das paisagens naturais e criar corredores para que as espécies se desloquem na medida em que mudam as condições é crucial para proteger o capital natural da nação. São necessárias urgentes medidas para a conservação da água e para proteger o Ártico, afirmou.

A coalizão pretende que a licitação de licenças de perfuração para extrair petróleo e gás nas águas do Ártico seja suspensa imediatamente, e que se adote um novo enfoque preventivo para qualquer atividade industrial na região, que é a primeira afetada, e que sofre os piores impactos da mudança climática. “Confiamos que o governo de Obama nos levará na direção correta. Agora é hora para a mudança, e essa mudança é a economia verde”, ressaltou Dorner.

Fonte: IPS/Envolverde


(Envolverde/IPS)

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O planeta tem pressa

Até mesmo os mais incrédulos já concordam: a temperatura da Terra está subindo e a maior parte do problema é provocada por ações do homem, como a queima de combustíveis fósseis. Ainda persistem divergências acerca do tamanho do impacto sobre a vida humana. As soluções também são controversas

Por Ronaldo França e Ronaldo Soares
Revista Veja - 07/05/2008

VEJA listou 50 perguntas e respostas que vão ao centro da questão. O conjunto demonstra que é preciso agir agora.


PREVISÕES

1. EXISTE ALGUMA DÚVIDA CIENTÍFICA INCONTESTÁVEL DE QUE O PLANETA ESTÁ SE AQUECENDO?
Não. Nem os cientistas mais céticos colocam esse fato em dúvida. Nos últimos 100 anos, a temperatura média mundial subiu 0,75 grau Celsius. Também não existe contestação séria ao fato de que isso vem ocorrendo em um ritmo muito elevado. Entre 1910 e 1940 (portanto, em trinta anos), a temperatura média do planeta se elevou 0,35 grau. Entre 1970 e hoje (38 anos), subiu 0,55 grau. Nos últimos doze anos o planeta experimentou onze recordes consecutivos de altas temperaturas.

2. ALÉM DAS MEDIÇÕES, EXISTEM OUTRAS EVIDÊNCIAS IRREFUTÁVEIS DO AQUECIMENTO?
O derretimento do gelo especialmente na calota norte, o Ártico, que vem perdendo área a cada verão, é uma forte evidência. Na calota sul, a Antártica, as perdas são menores e há até aumento da massa total de gelo mesmo com diminuição da área. Paradoxo? Não. Esse aumento é atribuído ao aquecimento global, que elevou a umidade na região, em geral mais seca do que o Deserto do Saara. Com mais chuvas, forma-se mais gelo.

3. OS CIENTISTAS DISPÕEM DE INSTRUMENTOS CONFIÁVEIS PARA AVALIAR AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS?
Os sinais do aquecimento global não são produto de modelos de computador, mas de medições por instrumentos precisos. Entre as mais concretas estão as medições feitas por satélites e por sondas flutuantes nos oceanos, que fornecem dados em tempo real, segundo a segundo.

São consideradas também as medições menos diretas, como a que detecta a espessura e a extensão do chamado "permafrost", o terreno eternamente congelado no Círculo Polar Ártico. Até as flutuações de cores nas auroras boreais fornecem dados sobre a temperatura da Terra. O interessante é que todas as medições, diretas e indiretas, apontam para o aquecimento, sem discrepâncias.

4. A TEMPERATURA DA TERRA TEM CICLOS NATURAIS DE AQUECIMENTO E RESFRIAMENTO. POR QUE O AQUECIMENTO VERIFICADO AGORA NÃO É NATURAL?
Há menos de quarenta anos, na década de 70, alguns cientistas chegaram a prever que o planeta estava entrando em uma nova era glacial, tamanha a agressividade dos invernos no Hemisfério Norte. Essa previsão não pode ser comparada à previsão de aquecimento de agora.

Nunca houve consenso sobre a iminência de uma nova era glacial, tratava-se de pura especulação. Agora existe um consenso mundial entre os cientistas de todas as tendências de que o planeta está se aquecendo. Menos consensual, mas majoritária, é a noção de que o aquecimento é causado pelo atual estágio civilizatório humano, em especial as atividades industrial e de consumo.

5. POR QUAIS PERÍODOS DE AQUECIMENTO A TERRA JÁ PASSOU?
Nos últimos 650 000 anos foram identificados pelo menos quatro. O primeiro há 410 000 anos, o segundo há 320 000, o terceiro há 220.000 e o quarto há 110 000. Em todos esses casos, mesmo sem intervenção humana, houve aumento da concentração de gases que capturam o calor e acentuam o chamado efeito estufa. A fonte mais provável desses gases foram as grandes erupções vulcânicas.

6. SE A METEOROLOGIA NÃO CONSEGUE AFIRMAR COM 100% DE CERTEZA SE VAI FAZER SOL NO FIM DE SEMANA, COMO ELA PODE PREVER O QUE VAI ACONTECER DAQUI A CINQÜENTA OU 100 ANOS?
Saber se vai dar praia ou não é mesmo mais complexo do que fazer um modelo confiável de longo prazo. A modelagem climática lida com tendências e faz afirmações gerais sobre mudanças mínimas na temperatura global. Já a meteorologia imediata trabalha sobre o microclima e sua interação com outros eventos climáticos mais gerais. Essas interações são, por definição, caóticas.

7. AS ESTIMATIVAS DE QUE A TEMPERATURA MÉDIA DO PLANETA SUBIRÁ ATÉ 4 GRAUS ATÉ 2100 SÃO CONFIÁVEIS?
Esse é o cenário mais pessimista projetado pelos cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), que reúne as maiores autoridades do mundo nesse ramo da pesquisa. É um cenário catastrófico, mas ele só ocorrerá, na avaliação dos cientistas, se nada for feito. A projeção mais otimista dá conta de que o aumento projetado seria de 1,8 grau. Isso exigiria um corte de até 70% nas emissões de gases até o ano 2050.

8. EM QUE PONTOS OS CIENTISTAS DIVERGEM?
Todos concordam que o mundo está mesmo se aquecendo. As principais
divergências são sobre a extensão da influência humana e, em especial, sobre se vale a pena ainda buscar a qualquer custo a redução drástica das emissões de gases do efeito estufa.

Quem discorda dessa linha sugere que todo o esforço científico e financeiro dos países seja colocado no desenvolvimento de tecnologias que permitam à civilização conviver com os efeitos de um planeta mais quente.

9. QUANDO O AQUECIMENTO PASSOU A ACONTECER COM MAIS INTENSIDADE?
O acúmulo de gases começou com o advento da Revolução Industrial, no século XVIII. O aquecimento é diretamente proporcional à atividade industrial. Portanto, quanto mais intensa ela for, mais dióxido de carbono (CO2), metano e óxido nitroso (N2O) serão lançados na atmosfera. Os problemas começaram a se manifestar agora porque esses gases tendem a se acumular.

10. QUANTO A TEMPERATURA GLOBAL JÁ SUBIU?
Durante o século XX, a temperatura média global subiu cerca de 0,75 grau.

11. O EX-VICE-PRESIDENTE AMERICANO AL GORE GANHOU O OSCAR E O NOBEL DA PAZ POR SEU FILME EM QUE MOSTRA CONSEQÜÊNCIAS TRÁGICAS DO AQUECIMENTO. TODAS AS SUAS PREVISÕES ESTÃO CORRETAS?
Al Gore optou por mostrar as conseqüências esperadas para os piores cenários. Fez um filme de propaganda, e não um documentário científico. Um exemplo: ele ressalta a previsão de que o nível do mar subirá 6 metros até 2100. O IPCC falava em um aumento máximo de 60 centímetros. Gore, o catastrofista, exagerou feio.

A favor dele, diga-se que as previsões têm sido recalibradas para cima. Os mesmos cientistas do IPCC consideram agora que se pode chegar a 1,2 metro de elevação do nível do mar em 2100.

RAZÕES

12. O AQUECIMENTO GLOBAL É PROVOCADO PELA AÇÃO HUMANA?
Como se viu, a Terra já experimentou ciclos de aquecimento muito antes de o homem fazer sua primeira fogueira. O que parece claro, agora, é que a atividade humana está contribuindo para o aumento no ritmo da elevação da temperatura média global. Isso se dá pela emissão principalmente de CO2, o que dificulta a dissipação do calor para o espaço. Atualmente, a atividade humana produz mais CO2 do que a natureza.

Antes da Revolução Industrial, as emissões de origem humana somavam 290 ppm (partes por milhão) de CO2. Agora chegam a 380 ppm. Uma das principais razões é a ineficiência energética. Para se ter uma idéia, uma única lâmpada, ao final de sua vida útil, terá consumido em eletricidade o equivalente a 250 quilos de carvão (cálculo, claro, válido para os países que geram energia elétrica com carvão mineral).

13. POR QUE A EMISSÃO DE CO2 AUMENTA A TEMPERATURA?
O aumento da concentração de gases cria uma barreira na atmosfera. Ela impede que o calor do sol, quando refletido pela Terra, se dissipe no espaço. O calor fica retido entre a superfície do planeta e a camada de gases. Daí o nome efeito estufa. O CO2 é o principal vilão porque sua presença é predominante. Equivale a 70% da concentração desses gases.

14. QUE OUTROS FATORES PODEM CONCORRER PARA O AUMENTO DA CONCENTRAÇÃO DE GASES DO EFEITO ESTUFA?
Além da atividade humana, fatores naturais contribuem para as alterações climáticas: o processo de decomposição natural de florestas, o aumento na atividade solar e as erupções vulcânicas. Mas nenhum desses fatores produziu transformações com a velocidade que a atividade humana vem provocando.

15. QUAL O PRINCIPAL AGENTE DA EMISSÃO DE CO2?
A queima de combustíveis fósseis. Ela é responsável por cerca de 80% das emissões globais desse gás, o que coloca o mundo numa espécie de sinuca de bico. Não há desenvolvimento sem consumo de energia, e a energia disponível em larga escala depende de carvão, petróleo e gás natural. A principal razão é que os combustíveis fósseis, quando queimados, emitem, em forma de gás, o carbono que ficava armazenado no subsolo. Isso aumenta a concentração na atmosfera.

16. QUAL O PESO DO DESMATAMENTO E DAS QUEIMADAS NESSE FENÔMENO?
Cerca de 18% das emissões de CO2 são originadas de queimadas.

17. QUAL A PARCELA DE RESPONSABILIDADE DOS PAÍSES EMERGENTES NO AQUECIMENTO GLOBAL?
Quando se analisa historicamente, a parcela de culpa desses países é pequena. A questão é como eles vão se comportar daqui em diante. Como são muito populosos e têm grande potencial de crescimento econômico, podem se tornar os grandes vilões do futuro.

18. QUAL A PARTICIPAÇÃO DO BRASIL, EM ESPECIAL?
A maior preocupação em relação ao Brasil é quanto às queimadas e aos desmatamentos. Esses dois fatores respondem por 75% das emissões de CO2 no país. Se forem consideradas apenas as emissões de CO2 decorrentes da queima de combustíveis fósseis, o Brasil é o 16º maior poluidor do mundo. Mas, se for levada em conta a devastação ambiental, o país salta para a quarta posição.

19. É RAZOÁVEL ESPERAR QUE OS PAÍSES EMERGENTES REDUZAM SUA TAXA DE CRESCIMENTO PARA NÃO CONTRIBUIR AINDA MAIS PARA O AQUECIMENTO GLOBAL?
É uma resposta difícil. Agora que o Hemisfério Sul começou a crescer e proporcionar melhores condições de vida a sua população surge a questão da sustentabilidade que não existia quando os atuais países ricos se industrializaram. O melhor que as nações ricas podem fazer é ajudar as emergentes a ter acesso mais rápido a tecnologias limpas.

CONSEQÜÊNCIAS

20. O RITMO DE CRESCIMENTO DA TEMPERATURA DÁ SINAIS DE ESTAR ARREFECENDO?
Não. Tudo indica que ele está sendo mantido e continuará assim.

21. POR QUE ACREDITAR QUE ESSE RITMO SERÁ MANTIDO?
O aquecimento que se observa hoje é uma soma das ações do passado com as ações presentes. Não há, a médio prazo, nenhuma alternativa energética com potencial de substituir os combustíveis fósseis em larga escala. Para mudar radicalmente as emissões, seriam necessárias intervenções muito profundas, que dificilmente seriam feitas de uma hora para outra. O ritmo de implementação das ações previstas no Tratado de Kioto principal instrumento dos países e das organizações multilaterais para a redução das emissões de gases do efeito estufa está sendo mais lento do que se esperava. O tratado é até agora um fracasso. Os países não-signatários de Kioto aumentaram suas emissões em ritmo menor do que os que assinaram o documento.

22. ATÉ QUE TEMPERATURA A VIDA NA TERRA É VIÁVEL?
A experiência em regiões desérticas e tropicais mostra que a vida humana em sociedade é possível à temperatura constante de 45 graus. Isso não significa que a vida seria tolerável se todo o planeta atingisse esse pico de temperatura. O desarranjo obrigaria a humanidade a buscar novas estratégias de sobrevivência. Por outro lado, nem o mais pessimista dos cientistas acredita que o aquecimento global ofereceria risco de sobrevivência para toda a raça humana.

23. HÁ O RISCO DE MORRER GENTE?
Sim. Muitos cientistas acreditam que a onda de calor que matou mais de 30 000 pessoas na Europa durante o verão de 2003 já seja reflexo do aquecimento global. Se essas ondas se tornarem mais freqüentes, farão mais vítimas, principalmente entre os mais pobres (que não têm alternativas de proteção) e os mais indefesos, caso de crianças e idosos.

24. QUAIS AS CONSEQÜÊNCIAS PREVISÍVEIS PARA O BRASIL?
A mais grave seria a mudança de vegetação em metade da Amazônia, que se tornaria uma espécie de savana ou cerrado, já a partir de 2050. Isso porque a temperatura na região subiria pelo menos 3 graus. Com a temperatura média do país, que hoje é de 25 graus, passando aos 29 graus, milhares de famílias teriam de deixar o sertão nordestino em busca de regiões de clima mais ameno. O nível do mar também subiria nas cidades litorâneas, como Recife e Rio de Janeiro.

25. HÁ RISCO DE AUMENTO DE DOENÇAS COMO MALÁRIA, FEBRE AMARELA OU DENGUE, POR EXEMPLO?
Esse é um ponto controverso. Os que discordam são em número muito maior do que os que concordam. A exceção são aquelas doenças em que a relação é direta, caso da dengue, cujo mosquito transmissor se reproduz em maior escala no calor.

26. AS GELEIRAS VÃO DERRETER COMPLETAMENTE?
Não vão. A previsão mais pessimista indica que 2% de todas as geleiras derreterão até 2100. Esse derretimento é que levará ao aumento de 1,2 metro no nível do mar.

27. QUAIS OS RISCOS DE FALTAR ÁGUA? A ÁGUA POTÁVEL VAI ACABAR? OS RIOS VÃO SECAR? É POSSÍVEL DIZER TAMBÉM QUE O SERTÃO NORDESTINO VAI SE DESERTIFICAR?
A disponibilidade hídrica do planeta não mudará. A distribuição das chuvas pelo globo é que será alterada. Aumentará a disponibilidade de água em alguns lugares, principalmente nas latitudes médias e nas regiões tropicais úmidas. Quanto às regiões equatoriais, existe muita incerteza. Mas pode-se dizer que haverá mais seca nas regiões áridas e semi-áridas. O fim da água potável pode ocorrer, mas não somente por causa do aquecimento. Está relacionado também à poluição provocada pelo homem e ao aumento de demanda por água, principalmente para a agricultura irrigada.

28. QUE OUTROS IMPACTOS PODERIAM OCORRER NO DIA-A-DIA DAS PESSOAS?
As chuvas seriam muito mais intensas, e isso afetaria todas as regiões. Esperase que haja um maior número de noites quentes e ondas de calor, mas também invernos mais rigorosos. A temperatura variaria em extremos. Se for mantido oatual ritmo de emissões e levando-se em conta as projeções de crescimento econômico, populacional etc. , haverá elevação do nível do mar, redução de florestas, enchentes nas regiões mais úmidas, secas mais severas nas regiões de clima árido e semi-árido.

29. A DISPONIBILIDADE DE ALIMENTOS ESTARÁ COMPROMETIDA?
Depende do aumento da temperatura. Se a elevação for de 2 graus (no máximo), poderá haver aumento da área plantada, incorporando-se vastas áreas do Canadá e da Sibéria à produção mundial. Se a temperatura subir além disso, 4 graus ou mais, toda a agricultura mundial será prejudicada. Outro problema é a mudança das chuvas, que pode provocar secas mais severas na África e no sul da Ásia.

30. PODE-SE ESPERAR QUE O AQUECIMENTO INVIABILIZE A VIDA EM ALGUMAS REGIÕES DO PLANETA, PROVOCANDO MIGRAÇÕES POPULACIONAIS EM MASSA?
Mais uma vez depende de quanto a temperatura vai aumentar. No pior cenário, haverá migração em massa de populações pobres, da ordem de dezenas de milhões de pessoas, em razão da falta de água para beber e para a agricultura. No sudeste da Ásia também podem ocorrer fugas em massa, mas por causa de inundações.

31. A ELEVAÇÃO DO NÍVEL DO MAR PODERÁ ENGOLIR PARTES INTEIRAS DO LITORAL DOS PAÍSES?
Caso se confirme a elevação do nível da água do mar entre 30 e 60 centímetros, os efeitos serão reduzidos. Mas a aceleração do degelo na Groenlândia e na Antártica Ocidental obrigou os cientistas a rever suas previsões. Um exemplo: a Holanda tem mais de 40% de seu território abaixo do nível do mar.

Se a elevação da água for pequena, será possível contornar o problema com a construção de diques. Mas, se chegar ao limite máximo imaginado pelos cientistas, o país poderá perder uma parte enorme de seu território. Durante o século XX, o aumento do nível do mar na costa brasileira foi de 20 centímetros. A média global foi de 17 centímetros.

32. O AQUECIMENTO GLOBAL SERÁ A PRINCIPAL CAUSA DE EXTINÇÃO DE ESPÉCIES?
Sim. Já neste século e no próximo, o aquecimento vai superar os dois grandes vilões atuais, que são a caça predatória e a fragmentação de hábitats.

33. JÁ HÁ ALGUMA ESPÉCIE AMEAÇADA POR ESSE MOTIVO?
Pelo menos 74 espécies de sapo desapareceram nas montanhas da América Central devido ao aumento de 1 grau na temperatura média. Isso mudou o microclima e fez com que um fungo da pele dos sapos se desenvolvesse descontroladamente. Os anfíbios de todo o planeta também correm perigo.

34. PODE-SE ESPERAR ALGUM BENEFÍCIO DO AQUECIMENTO OU APENAS TRAGÉDIA?
Os impactos são principalmente negativos, pois perturbam um sistema já equilibrado. Mas há alguns positivos, sim, como o incremento à agricultura em lugares hoje muito frios e a diminuição, na média mundial, na freqüência de noites muito frias, o que trará benefícios à saúde humana.

SOLUÇÕES

35. O MUNDO NÃO TEM PROBLEMAS QUE EXIGEM ENFRENTAMENTO MAIS URGENTE DO QUE O AQUECIMENTO GLOBAL?
A fome, a falta d'água e as doenças matam mais gente hoje. Mas o mundo não pode se dar ao luxo de ignorar o aquecimento global. Isso porque, além de efeitos desastrosos, tudo o que se fizer agora só terá resultado décadas à frente. Além disso, para muitos dos problemas atuais há soluções tecnológicas iminentes.

O buraco na camada de ozônio é um exemplo. Ele se fechará num futuro próximo, graças a ações já empreendidas. No caso do aquecimento, se o mundo parar de emitir gases de efeito estufa hoje, o problema ainda levará séculos para ser resolvido. Alguns limites já foram até ultrapassados.

O melhor exemplo é o gelo ártico. Em 2050, ele poderá desaparecer totalmente durante o verão. Não há mais o que fazer. Não se pode esperar mais cinco ou dez anos para começar a agir vigorosamente.

36. QUANTO SERÁ NECESSÁRIO INVESTIR NA SUAVIZAÇÃO DOS EFEITOS DA MUDANÇA CLIMÁTICA?
Num primeiro cálculo, estimou-se que seriam necessários 150 bilhões de dólares anuais para cumprir as metas do Protocolo de Kioto. Mas é possível que a conta seja menor, dados o avanço tecnológico e os ganhos em eficiência energética. Um exemplo são os combustíveis fósseis, os que mais emitem gases do efeito estufa.

Já existem hoje tecnologias capazes de reduzir em 20% as emissões. Há outros exemplos mais simples. Os sistemas de iluminação com LED, diodos de efeito luminoso, têm eficiência quase vinte vezes superior à das lâmpadas de bulbo.

37. É POSSÍVEL REVERTER TOTALMENTE O AQUECIMENTO?
Não. O máximo que se pode fazer é reduzir o ritmo. Caso se reduzam as emissões globais entre 60% e 70% até 2050, a temperatura subirá até o fim do século entre 2 e 2,5 graus. Se não se fizer nada, ela poderá aumentar entre 4 e 5 graus no mesmo período, com efeitos desastrosos.

38. REDUZIR A EMISSÃO DE GASES DO EFEITO ESTUFA, COMO O CO2, É MESMO O MELHOR CAMINHO?
O que importa é a concentração "líquida", ou seja, a diferença entre o que é emitido e o que é absorvido pela Terra. Ao mesmo tempo em que se reduz a emissão de gases do efeito estufa, pode-se investir no seqüestro de carbono, seja biológico (caso do aumento de área de florestas), seja geológico (armazenagem de gás carbônico no subsolo, tecnologia ainda em estudo). Há ainda o aumento da eficiência energética em relação à que se tem hoje.

39. É ECONOMICAMENTE VIÁVEL REDUZIR AS EMISSÕES DE CO2 EM ESCALA SUFICIENTE PARA RESOLVER O PROBLEMA?
Se nada for feito, a economia mundial sofrerá um abalo descomunal. O Estudo Stern (do ex-economista-chefe do Banco Mundial Nicholas Stern) fala em perdas anuais de até 20% no PIB mundial (o conjunto de riquezas produzidas pelas nações). Em economia, o que torna possível pagar o preço de uma solução é o valor do prejuízo causado pela inação. O estudo calcula que o investimento necessário para resolver o problema chegaria a 1% do PIB.

40. NÃO SERIA MAIS FÁCIL RESOLVER O PROBLEMA ATRAVÉS DO DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO?
Ainda que se obtenha um elevado grau de desenvolvimento tecnológico, vai demorar para que isso aconteça. Não há tempo para esperar sem trabalhar para reduzir as emissões.

41. FONTES DE ENERGIA ALTERNATIVA SUPREM AS NECESSIDADES DE REDUÇÃODE EMISSÕES DE CO2?
Todas as fontes renováveis, juntas, não substituiriam sequer metade da quantidade do combustível fóssil usado hoje. Portanto, é preciso reduzir as emissões de CO2 em no mínimo 55% até 2050. O papel das fontes de energia alternativas é auxiliar nesse esforço, assim como na busca de eficiência energética.

42. NÃO SERIA MAIS FÁCIL ACEITAR QUE AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS SÃO INEVITÁVEIS E INVESTIR EM FORMAS DE CONVIVER COM ELAS?
Buscar formas de adaptação será necessário de qualquer jeito. A diferença está no grau de intervenção que será necessário. Dependerá da extensão das mudanças climáticas.

43. ATITUDES INDIVIDUAIS, COMO ECONOMIZAR PAPEL E ÁGUA, POR EXEMPLO, SURTEM ALGUM EFEITO?
Somente com atitudes individuais se poderá promover uma mudança no perfil do consumo, com impacto ambiental significativo. O planeta tem de buscar a máxima reciclagem dos produtos e torná-los mais duradouros. E isso deve ocorrer paralelamente às mudanças em grande escala, como a substituição de fontes de energia e a otimização no uso dos transportes.

44. O QUE É DE RESPONSABILIDADE DOS PAÍSES E O QUE COMPETE EXCLUSIVAMENTE AOS CIDADÃOS?
Devido à urgência, são os governos que devem começar a fazer sua parte primeiro.

45. É POSSÍVEL ESPERAR QUE A HUMANIDADE CONSIGA SE ADAPTAR PLENAMENTE, SEJA QUAL FOR A INTENSIDADE DA MUDANÇA CLIMÁTICA?
Dependendo da elevação da temperatura, torna-se impossível a adaptação, em razão da falta de água para beber e para a agricultura. Mas é preciso dizer que as mudanças não afetarão a humanidade de forma igual. Quem mora na Sibéria, por exemplo, se beneficiará. Para os países pobres da África, Ásia e América Latina, no entanto, elas serão prejudiciais, com o risco de migrações em massa.

46. O CONTROLE DE EMISSÕES DE GÁS CARBÔNICO CONFORME ESTABELECIDO NO TRATADO DE KIOTO TERÁ ALGUM RESULTADO PRÁTICO?
O único efeito prático do tratado foi deslanchar um vigoroso esforço mundial para o desenvolvimento de tecnologias alternativas. O esforço conjunto dos países é o único caminho.

47. POR QUE OS ESTADOS UNIDOS NÃO QUEREM ASSINÁ-LO?
O principal argumento é o impacto negativo na competitividade da economia americana. É grande a influência da indústria automobilística e do petróleo sobre as decisões do governo americano. Para escapar das pressões internacionais, o governo daquele país resolveu investir bilhões de dólares na busca de tecnologias mais limpas e tem conseguido melhores resultados do que os dos signatários do protocolo.

48. O QUE GOVERNOS E ORGANISMOS INTERNACIONAIS JÁ ESTÃO FAZENDO DE CONCRETO?
Alguns países, como Inglaterra e Alemanha, estão tão avançados na redução das emissões e na busca de novas tecnologias que deverão alcançar, já no próximo ano, as metas definidas para 2012. A União Européia começou a se impor novas metas, mais arrojadas, para 2020.

49. AS MEDIDAS COMPENSATÓRIAS, COMO O MERCADO DE CRÉDITOS DE CARBONO, TERÃO RESULTADOS GLOBAIS EXPRESSIVOS?
O resultado ainda é pequeno, pois o mercado de carbono funciona como compensação. Ou seja, o que se planta de novas árvores no Brasil apenas compensa o CO2 emitido por outro país. Ele não vai além, promovendo uma redução líquida. Conclusão: é bem-vindo, mas insuficiente.

50. HÁ TEMPO PARA EVITAR O DESASTRE?
Há tempo de evitar as conseqüências mais negativas, mas não todas. A Terra já está se aquecendo. O objetivo viável é evitar que se aqueça catastroficamente.

Entre os especialistas consultados por VEJA na elaboração deste questionário destacam-se alguns dos integrantes do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática. São eles os cientistas Carlos Nobre, José Marengo, Roberto Schaeffer e Suzana Kahn Ribeiro, que colaboraram na revisão das respostas.

Fonte:
Revista Veja

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Crise ambiental pode ser maior do que as crises de mercado

Por Thiago Romero, da Agência Fapesp

Luiz Pinguelli Rosa, secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, defende a criação de novas políticas para o setor de transportes. “A crise financeira atual pode ser pequena frente à crise ambiental”, alerta.

Os incentivos oferecidos pelo governo brasileiro para a indústria automobilística têm permitido que o país registre o crescimento exponencial dos veículos flex fuel: cerca de 7 milhões de unidades já foram produzidas desde 2003, sendo que praticamente 90% de toda a produção atual nacional de veículos leves usa também o biocombustível.

Luiz Pinguelli Rosa, secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, alerta, no entanto, que o Brasil necessita criar rapidamente políticas estratégicas para o setor.

“Os incentivos financeiros à indústria automobilística devem ser condicionados a políticas de restrição dos automóveis pesados utilizados pelas famílias nas grandes cidades. São verdadeiros carros de combate que, na minha opinião, não têm outra finalidade a não ser dar status para quem os têm”, disse na semana passada durante a Conferência Internacional sobre Biocombustíveis, em São Paulo.

“Estamos vivendo uma crise econômica e sabemos que o mercado por si só não resolverá o problema. Na questão climática, não será diferente: a venda de automóveis flex fuel não resolverá todas as questões. O Brasil precisa de políticas públicas que mudem o perfil de consumo no setor de transportes. A crise financeira atual pode ser pequena frente ao que poderá ser a crise ambiental”, alertou o também diretor do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Pinguelli Rosa mencionou que o uso em escala do álcool como combustível no Brasil se deu por meio de políticas públicas do governo brasileiro, criadas durante o primeiro choque do petróleo, em 1974, quando foi lançado o Programa Brasileiro de Álcool (Proálcool) visando à substituição em larga escala dos derivados de petróleo.

“Apesar de, felizmente, terem sido bem-sucedidas, essas políticas não foram criadas por motivações ambientais. Mas, hoje, chegamos a um ponto crítico ambientalmente em que é preciso incentivar o transporte público ao mesmo tempo em que se incentiva o uso do álcool nos automóveis”, disse.

Pinguelli Rosa contou que o Plano Nacional de Mudança Climática deverá ser assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no início de dezembro, antes da próxima Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), na Polônia. Para ele, um assunto importante que deve ser discutido junto ao governo no âmbito desse plano de ações é o uso do carvão vegetal. “O Brasil não tem apenas o álcool automotivo como biocombustível. É preciso estimular a siderurgia com carvão vegetal proveniente de florestas plantadas. Hoje, metade do carvão vegetal utilizado na siderurgia vem da floresta plantada”, afirmou.


Crédito da imagem: T.Romero


Fonte: Envolverde/Agência Fapesp

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Crise nos mercados globais pode antecipar nova "Era Verde"

Atual crise nos mercados globais pode oferecer oportunidade para o sistema financeiro mundial se reconstruir promovendo um crescimento que não prejudique o meio ambiente. “Os governos têm agora uma oportunidade para criar e fortalecer políticas que estimulem a competição para financiar indústrias limpas”, disse o Secretário Executivo da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), Yvo de Bôer. Como ainda é muito cedo para medir as conseqüências da atual crise econômica, se levarmos em conta a atual situação, a demanda por energia deve aumentar em mais de 50% até 2030, exigindo um investimento de 22 trilhões de dólares – a metade disso em países em desenvolvimento – na criação de infra-estrutura. Um crescimento massivo na emissão de gases nocivos deve acontecer a não ser que tais fundos sejam destinados à energia limpa. Pela primeira vez desde a Conferência Sobre Mudanças Climáticas da ONU em Bali (Indonésia), em dezembro do ano passado, onde países concordaram em estabelecer negociações formais para alcançar um acordo global em longo prazo sobre mudanças climáticas, dezenas de ministros do meio ambiente irão se encontrar na próxima semana, antes da próxima rodada de negociações acontecer na cidade de Poznań, na Polônia, em dezembro. O Secretário Executivo disse que a conferência de Poznań terá uma importância especial por ser a primeira vez que um texto sucessor do Protocolo de Kyoto será discutido. “Nesse contexto, será muito importante que os ministros foquem suas atenções em uma visão de ação cooperativa”, ele observou.
Fonte: Envolverde/Pauta Social

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Fundador da CNN pede acordo para combater aquecimento global

O empresário norte-americano Ted Turner previu nesta segunda-feira (6) um futuro catastrófico para o homem caso os líderes mundiais não cheguem a acordos, nos próximos 50 anos, para combaterem o aquecimento global ou frearem a deterioração do ambiente.

Ted Turner, fundador da rede de TV CNN, fez esta declaração durante discurso no Congresso Mundial da Natureza, do qual participa como representante da ONU (Organização das Nações Unidas) e que foi iniciado na segunda-feira em Barcelona.

Mais de 7.000 especialistas em assuntos ambientais, grupos indígenas, ONGs, empresas e instituições debaterão em Barcelona a defesa da diversidade dos ecossistemas e a luta contra a mudança climática.

Turner advertiu sobre os riscos de não se chegar a consensos sobre assuntos fundamentais como desarmamento nuclear, aquecimento do planeta, crescimento da população mundial, conservação das florestas ou desertificação.

"Não podemos fracassar", disse Turner, para quem os próximos 50 anos serão fundamentais. "A humanidade tem a possibilidade de viver em um mundo similar a um jardim do Éden ou morrer em um inferno ardendo entre chamas", declarou o representante da ONU.

Entre as principais ameaças à humanidade, Turner destacou a proliferação do armamento nuclear, que se concentra especialmente nas mãos dos Estados Unidos e da Rússia, mas que também está ao alcance de países como o Irã.

A afirmação de Turner de que a existência de armamento nuclear transforma o homem em uma "espécie em perigo de extinção" mereceu aplausos dos presentes à cerimônia de abertura do congresso.

Segundo o fundador da CNN, frear a deterioração do ambiente e combater suas ameaças é possível com o uso dos orçamentos que os Estados dedicam para fins militares. "Necessitamos de um novo Renascimento", afirmou.

Mediterrâneo - Já um grupo de especialistas ambientais defendeu a necessidade urgente de se criar uma rede de áreas marinhas protegidas para salvaguardar a biodiversidade no Mar Mediterrâneo, que tem apenas 3,8% de proteção ou gestão.

O Mediterrâneo dispõe de 7% de todas as espécies marinhas conhecidas, das quais boa parte é considerada exclusiva da região.

Neste sentido, os especialistas alertaram que, por se tratar de um mar fechado e rodeado por uma costa "superpopulosa", o Mediterrâneo está sendo gravemente danificado pela exploração excessiva de seus recursos e uma contaminação ligada à presença humana.

Fonte: Folha Online

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Aquecimento Global e Portugal em 2100


Esta é uma previsão para Portugal em 2100 depois do aumento do nível do mar em consequência do Aquecimento Global e do descongelamento dos pólos.

A origem da imagem é desconhecida.

Leia mais em: Ciencias Naturais

Fonte: OeirasLocal

Aprimorando o Globo Amazônia

Escrito por Rodolfo Salm

O Amazonia.vc, disponível no portal da Globo, é um aplicativo que exibe imagens de satélite com um bom poder de aproximação de toda a região Amazônica. Até aí nada demais, pois são as mesmas fotografias de satélites que já nos disponibilizam a Wikimapia, ou o Google Earth. As novidades são a sobreposição às imagens de símbolos representando eventos recentes de desmatamentos e queimadas individualizados detectados pelo INPE e a possibilidade de registrar "protestos" contra esses eventos através do Orkut.

A reportagem do Fantástico, que há duas semanas lançou o site "Globo Amazônia", partiu da seguinte manchete: "A Amazônia está pedindo socorro e você pode ajudar". Preocupa-me a sugestão da Globo de como fazê-lo: "Pelo computador [sem sair de casa] você pode vigiar e defender esse patrimônio da natureza". Por outro lado, com pequenas alterações, que eu gostaria de sugerir mais abaixo, talvez este tipo de estratégia seja possível.

O funcionamento do aplicativo define rankings de duas naturezas. Aponta os locais de desmatamentos com o maior número de protestos e irá transformá-los em reportagens e foco da ação das autoridades. E classifica os internautas que protestam mais vezes, convertendo-os em celebridades instantâneas. O campeão e o vice daquele momento, Diogo e Adavilson, haviam realizado 15.413 e 15.331 protestos, respectivamente. Coitados, provavelmente adquiriram, por conta de tantos cliques, algum tipo de lesão por esforço repetitivo (LER). Enquanto escrevo este texto, 216 mil pessoas já instalaram o aplicativo e fizeram mais de onze milhões de protestos contra desmatamentos e queimadas. Mas o que significa isso na prática?

rodolfo_queimadas.jpg

No que se refere ao meio ambiente, o Orkut pode ser muito útil para tirar dúvidas sobre reciclagem, jardinagem e compostagem, por exemplo (há várias comunidades dedicadas a isso). Mas nenhum dos debates que vi ali sobre a Amazônia me entusiasmou, seja pela superficialidade e descontrole das discussões seja pela apatia generalizada. E agora? Teríamos finalmente algo de realmente interessante e importante para a preservação da Amazônia ligado ao Orkut?

Para responder melhor a esta questão, instalei o aplicativo Amazonia.vc no meu computador e fui testá-lo com meus "desmatamentos favoritos" do momento: nas serras que acompanham o rio Xingu, além do limite norte da Terra Indígena Kayapó, que pude testemunhar em andamento, na última viagem que fiz por este rio em julho deste ano, e sobre o qual escrevi em meu último artigo para o Correio. Para a minha decepção, estes desmatamentos não estão identificados no mapa interativo da Globo. Já temos então um primeiro problema, pois, se aqueles desmatamentos são recentes e não foram individualizados no mapa interativo, o sistema evidentemente subestima a devastação total. Assim pode não dar uma idéia completa da gravidade da situação.

Mas tudo bem, ainda havia áreas destacadas sujeitas a protestos com o símbolo de desmatamentos a apenas algumas dezenas de quilômetros do local onde procurei inicialmente, contra as quais eu poderia direcionar minha indignação. Para fazer meu protesto, escolhi um ponto bem próximo ao limite (possivelmente até mesmo dentro) da Terra Indígena Kayapó. Clicando sobre o seu símbolo, descobri que aquele desmatamento, no município de São Felix do Xingu (PA), detectado no dia 29 de julho de 2008, correspondia a uma área de 0,94 km², e que está nas proximidades da Estação Ecológica da Terra do Meio (não há referência alguma à terra indígena, bem mais perto). Apertei solenemente o botão "eu protesto".

Para reforçar a minha indignação, tentei protestar novamente, mas o programa informou que eu só poderia me manifestar contra aquele ponto de devastação uma única vez. E era tudo o que eu poderia fazer por ele. Até aquele momento, 8.375 pessoas haviam protestado contra aquele desmatamento. Pode parecer muito para um lugar remoto, distante da beira do rio, já visto por pouquíssimas pessoas vivas, e que até agora andava totalmente esquecido. Mas é muito pouco perto do número pessoas que já se manifestaram eletronicamente contra outras áreas na região de Novo Progresso e Alta Floresta, no norte do Mato Grosso, onde são registrados os números recordes: mais de vinte mil cliques para cada evento de desmatamento.

Novas buscas realizadas no sistema, que mostraram que todos os desmatamentos destacados, em várias regiões da Amazônia, foram detectados no dia 29 de julho de 2008, me deixaram com uma dúvida. Uma vez que este seria o "desmatamento em tempo real", todos aqueles anteriores ao programa foram assim, digamos, anistiados? Tudo bem, considerando-se que temos que começar em algum momento. Mas o que acontecerá com estes desmatamentos à medida que novas áreas devastadas forem sendo acrescentadas ao longo dos anos? Acumular-se-ão numa profusão emaranhada, que o software e seus usuários dificilmente poderiam tratar? Ou serão apagados impunes, junto com todos os seus protestos? Qual é o seu tempo de validade dentro deste conceito de tempo real?

Para quem viveu a ditadura militar e seus resquícios nos anos subseqüentes, quando ainda gritava-se na rua, em passeata, "o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo", é difícil dissociar a emissora da idéia de manipulação da informação, agindo contra o povo e pela manutenção do poder estabelecido. Entretanto, apesar do viés muitas vezes confuso, do ataque equivocado aos problemas ou mesmo da omissão na maior parte dos casos, a emissora tem apresentado recentemente iniciativas positivas para debates como o do aquecimento global (ver "Mundo de Valentina", de Danilo Pretti Di Giorgi). Poderia o mapa interativo do portal Globo Amazônia ser mais uma delas?

Com pequenas melhorias em seu funcionamento, o Amazonia.vc poderia ser bem mais útil. A possibilidade de se fazerem protestos contra os fatores responsáveis pelo desmatamento, e não apenas contra os desmatamentos em si, seria mais interessante para o debate. Alguns entre muitos exemplos possíveis de protestos mais aproveitáveis: contra a pavimentação da BR-163 e da rodovia Transamazônica, contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte, das hidrelétricas do Madeira e contra a expansão da agropecuária e dos cultivos de soja sobre a floresta.

Além disso, imaginem se o usuário, além de registrar um protesto, pudesse redigir ou modificar um texto relativo a este desmatamento, da mesma forma como se faz com os verbetes da Wikipédia: "Esse desmatamento fica perto de onde eu moro", "eu vi", "quem pagou por este foi o empresário tal, que vive no Rio de Janeiro ou São Paulo", "financiado pelo banco tal", "esse subornou o IBAMA", "tem amigos na PF", "esse matou quem vivia ali", "aquele é de um tal figurão famoso", "do deputado, do senador, do governador", "da família Roberto Marinho"... Está claro porque não vai acontecer? Que ninguém se engane, em sua forma atual está claro que, muito mais do que conter os desmatamentos, o objetivo da Globo é fazer com que mais e mais internautas fiquem grudados em seu portal na internet.

Rodolfo Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, é professor da Universidade Federal do Pará.

Fonte: Correio da Cidadania

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O mundo sem nós

O que aconteceria com o mundo se de repente nós, humanos, desaparecêssemos?

No livro “O Mundo Sem Nós”, o autor Alan Wrisman nos dá uma idéia do que aconteceria, pois descrevecom detalhes o que aconteceria com as estruturas criadas pelo homem, e o caminho de volta do meio ambiente ao seus estado naturais, pré homem.

O que realmente representa nossa passagem por aqui, nesta bolinha azul?

Somos tão absortos nas coisas do dia dia, nas tecnologias, nos problemas da atualidade, que acabamos nos acostumando que sempre foi desta maneira, a despeito de algumas aulas de geografia e história nos ter ensinado que não é bem assim.

Muitos religiosos também não se permitem pensar que a terra já existiu sem nós, homens, pois com sua idéia estapafúrdias sobre criacionismo pregam que o mundo foi criado para o homem a apenas 6 mil anos.

A idade do homem moderno, cerca de 30 mil anos, se comparada com a idade da terra, que hoje é estimada em cerca de 4,57 bilhões de anos, se mostra de uma efemeridade absurda, vale ressaltar que os dinossauros andaram por aqui por mais de 160 milhões de anos, e ainda nos restam vários exemplares desta época ainda hoje.
Neste gráfico abaixo, e aqui, dá pra ter uma idéia do que aconteceria se desaparecêssemos de uma hora para outra.

Nossas grandes conquistas, invenções, em algumas centenas de anos estariam varridas da terra, porém a arte feita por nós em forma de bronze, resistiriam por alguns milhões de anos. Algumas outras construções mais resistentes deixariam vestígios por mais de 10 mil anos.

Por outro lado grande parte de nosso legado, que duraria muito mais tempo para desaparecer evocando a presença humana seria o lixo. Rejeitos como polímeros, que não tem tempo de vida estimado, PCB´s e dioxinas, ainda estarão aqui 10 milhões de anos depois que nos formos. O lixo nuclear, como por exemplo o Urânio 238 ficaria presente por mais 4,5 bilhões de anos.
Boas lembranças deixaríamos à terra, não?

Uma das primeiras grande mudanças que se notaria seria o silêncio. Sem operadores para carros, altos falantes, celulares, indústrias e maquinário pesado, a terra estaria no mais absoluto silêncio, restando apenas o som dos animais e do vento. Quem já foi a uma floresta intacta já pode perceber o quanto isso é bom. Admito que depois que quando passava cerca de 20 dias na mata, eu sentia falta de civilização, queria ver carros e interruptores, afinal sou animal urbano antes de tudo, mas acho que com tempo acostumaria com falta de civilização.

Após o silêncio, a próxima mudança que se notaria, seria a melhoria da qualidade do ar, já que sem energia, todas fontes fixas ou móveis de lançamento de gases tóxicos, parariam de funcionar em poucos dias, e com a diluição do que já foi lançado, em alguns meses o ar das zonas mais poluídas estariam praticamente limpos.

Em poucos dias não haveriam mais iluminação artificial e abastecimento de água. Represas transbordariam e grande parte dos sinais eletromagnéticos cessariam, mas nossas transmissões de rádio e tv ficariam para sempre se propagando no universo como a lembrança de que um dia nós existimos.

Com excessão talvez de alguns animais e insetos que vivem à nossa volta, tais como ratos, baratas, gatos e cachorros, o restante da fauna e da flora agradeceriam nosso sumiço, e voltariam a retomar o espaço que outrora nós tomamos deles.

Nós criamos coisas maravilhosas, como esculturas, pinturas, arquitetura, a cultura toda em si, nas suas diversas formas de expressão. Mas por outro lado a atual relação que temos com o meio ambienteé a de total dominação e usurpação, com total falta de consciência e respeito à terra que nos possibilita a vida.

É notório que precisamos rever nossa relação, valores e atitudes para com o meio do qual viemos, de forma a viver em harmonia com o restante da vida que compartilha esse mesmo planeta conosco.

Talvez estejamos com essa prática atual, caminhando para o descrito acima, em direção à nossa própria extinção. O que não seria o fim do mundo, mas apenas o fim de uma raça que se mostra mais mesquinha, gananciosa e destruidora do que harmoniosa e que não sabe conviver com o meio que a cerca, acaba indo em direção a autodestruição.

Fonte Ciência e Tecnolgia, Meio Ambiente

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Mudança climática: Dióxido de carbono escandinavo não diminui

Por Ida Karlsson, da IPS

Nações Unidas, 26/09/2008 – Os governos escandinavos se comprometeram a desempenhar um papel importante na luta contra a mudança climática. Mas, Dinamarca e Noruega estão longe de alcançar seu objetivo. Na Dinamarca, de fato, as emissões de dióxido de carbono lançadas pelo transporte rodoviário aumentaram 36% desde 1990, segundo o Instituto Nacional de Pesquisa Ambiental. Na Noruega, as emissões deste e de outros gases que provocam o efeito estufa nunca foram tão altas como agora. No ano passado aumentaram 3%, segundo o Centro de Estatísticas Nacional.

Dióxido de carbono, metano e óxido nitroso são alguns dos gases que causam o efeito estufa aos quais a maioria dos cientistas atribui o aquecimento global. A situação “tem muito a ver com nossa produção de gás e petróleo”, disse à IPS o primeiro-ministro norueguês, Jens Stoltenberg, que está em Nova York para participar da 63ª sessão da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas. “Nos próximos anos nossas emissões aumentarão, mas depois diminuirão”, acrescentou. a Noruega destina muito dinheiro para o combate do desmatamento para reduzir suas emissões, disse o primeiro-ministro.

Esse país cumpre um papel importante na matéria, associado com a ONU em iniciativas como o programa UM-REDD, que ajuda as nações em desenvolvimento em sua luta contra o desmatamento que acelera a mudança climática. O governo norueguês financia a fase inicial com US$ 35 milhões. Na semana passada, Oslo anunciou que destinará US$ 1 bilhão para preservar a selva do Amazonas, devido ao seu caráter de sumidouro de carbono. A Dinamarca, por sua vez, organizará a Conferência sobre Mudança Climática da ONU em 2009. O primeiro-ministro dinamarquês, Anderes Fogh Rasmussen, disse que sua ambição é “alcançar um acordo global e integral para substituir o Protocolo de Kyoto” e “tomar medidas decisivas com vista à redução das emissões de dióxido de carbono”.

O Protocolo de Kyoto da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática foi acordado nessa cidade japonesa em 1997 e entrou em vigor em 2005. Este convênio impõe aos 37 países industriais que o assinaram e ratificaram a obrigação de reduzir suas emissões de seis gases causadores do efeito estufa a volumes 5,2% inferiores aos de 1990. O prazo para essas reduções vence em 2012. Mas, não ficar claro se os países escandinavos tomarão medidas dentro de seus próprios territórios.

Na Noruega, a indústria, a produção de petróleo e o transporte motorizado são os setores com mais emissões desses gases e representaram 72% em 2007. Mas o chanceler norueguês, Jonas Gahr Store, não se preocupa muito com estatísticas. “A Noruega dará o melhor de si para cumprir seus objetivos no contexto do Protocolo de Kyoto. Mediante a captura e o armazenamento do dióxido de carbono poderemos nos aproximar de nosso objetivo”, disse à IPS. O armazenamento e a captura de dióxido de carbono foram promovidos para “descarbonizar” os combustíveis mediante a eliminação e o depósito do composto durante a produção de energia.

O governo norueguês embarcou em um programa de captura de dióxido de carbono. Em uns poucos anos, o país pretende operar um importante complexo dentro de uma central de geração de eletricidade. Desde a década de 90 a Noruega armazena dióxido de carbono sob o leito marinho. Mas as organizações ambientalistas se preocupam com os efeitos do armazenamento no longo prazo. Um especialista do Fundo Mundial para a Natureza (WWF) disse que “ainda são muitas as perguntas sem respostas para se considerar a captura e o armazenamento de dióxido de carbono como uma solução imediata”.

Na Dinamarca, os gases causadores do efeito estufa emitidos pelo transporte de veículos continuam sendo consideráveis, especialmente o dióxido de carbono, o mais problemático deles. “Tivemos um aumento nas emissões no setor de transportes, mas, temos um plano de infra-estrutura para lidar com elas no futuro”, disse à IPS o primeiro-ministro norueguês.

Os Estados Unidos são os maiores emissores de dióxido de carbono. Apenas seu setor energético lança mais de 2,8 bilhões de toneladas na atmosfera a cada ano. A China vem em seguida com 2,7 bilhões de toneladas/ano, seguida da Rússia com 661 milhões, Índia 583 milhões, Japão 400 milhões, Alemanha 356 milhões, Austrália 226 milhões, África do Sul 222 milhões, Grã-Bretanha 212 milhões e Coréia do Sul com 185 milhões de toneladas, segundo dados do Controle de Carbono para a Ação (Carma).

Se as emissões não forem reduzidas, o custo para a humanidade será elevado. Mas, conter o aquecimento global e estabilizar os gases causadores do efeito estufa da atmosfera até 2030 não é uma carga tão pesada, segundo o Painel Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC), integrado por cerca de 2.500 cientistas especializados na matéria. Este organismo vinculado à ONU estima que o custo das medidas paliativas pode ficar entre 0,2% e 3% do produto interno bruto mundial.

Na conferência da ONU realizada na ilha de Bali, na Indonésia, em dezembro de 2007, os governo acordaram a necessidade de reduzir as emissões entre 25% e 40% em relação aos volumes de 1990, até 2020. Os governos terão de negociar os termos e as condições de um novo acordo internacional para substituir o Protocolo de Kyoto na próxima conferência da ONU, na cidade polonesa de Poznan em dezembro. O convenio deverá ficar pronto na reunião de Copenhague, marcada pra o final de 2009.


(IPS)

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Pensando pequeno


BMW e Fiat se unem para enfrentar as restrições de emissões de poluentes na Europa

BMW e Fiat olham para o futuro de mãos dadas e com um pé no passado. Enquanto os alemães planejam a reedição do Isetta, os italianos querem adotar o apelido do 500 original, Topolino, em um modelo produzido sobre a plataforma do minicarro bávaro. Parcerias assim não são inéditas e quase sempre têm como objetivo reduzir custos de desenvolvimento.

Dessa vez, a união de forças tem como principal meta enfrentar as restrições mais rígidas de emissão de poluentes – a Comissão Européia quer adotar o limite de 120 g/km a partir de 2012. Isetta e Topolino chegariam às ruas na próxima década, impulsionados pelo novo motor Fiat de dois cilindros, 900 cm3 e menos de 90 g/km, apresentado no conceito Panda Aria, revelado pelos italianos em... Frankfurt, no ano passado! Casamento pode ser de conveniência, mas com separação de bens...

(Por Iuri Pitta - Revista Quatro Rodas - 09/2008)

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Água - Uganda: Kampala afogada no excremento climático

Por Joshua Kyalimpa, da IPS

Kampala, 22 /08/2008 – O fornecimento de água potável aos dois milhões de habitantes da capital de Uganda corre perigo por causa de uma combinação de mau planejamento urbano e mudanças no padrão das chuvas. O fornecimento a Kampala cabe à Corporação Nacional de Água e Saneamento e a vários mananciais naturais dispersos pela cidade. Essas duas fontes estão cada vez mais contaminadas. Kampala foi tomada de improviso pelas conseqüências da mudança climática, segundo o especialista Oweyegha Afyunaduula, ativista e professor do Departamento de Zoologia da Universidade de Makerere.

A magnitude das chuvas é imprescindível e isso obriga uma cidade mal planejada a lutar contra esses efeitos, explicou. “As colinas abrigam residências luxuosas. A água que eliminam não encontra terreno que a absorva naturalmente, devido ao excesso de chuvas, e segue para os vales”, explicou. A água excessiva causa grandes inundações nos vales, onde se concentra a população pobre, incapaz de pagar uma casa nas colinas. Os excrementos acabam na água de beber porque a maior parte do conteúdo da rede de esgoto flui pelo canal Nakiovubo, um grande curso a céu aberto que atravessa a cidade, rumo ao lago Vitória sem tratamento, explicou Afunaduula.

O pântano de Nakiovubo, que antes funcionava como filtro natural, se reduziu com rapidez devido ao excessivo acúmulo das próprias águas de esgoto. A situação de Kampala é complicada pelo fato de apenas 8% de seus habitantes terem ligação com a rede de esgoto operada pela Corporação Nacional de Água e Saneamento. O restante usa fossas. Inclusive algumas pessoas fazem suas necessidades em sacos plásticos que depois jogam no lixo ou nos canais de água.

Um informe da divisão de Kawempe, da prefeitura de Kampala, revelou que a maior parte da água da cidade também está contaminada. Todas as amostras coletadas das torneiras dos distritos de Bwaise II, Mulango II e Kyebando, em Kawempe, revelaram a presença de coliformes (bactérias procedentes de material fecal), disse David Semwanga, inspetor de saúde da divisão. Isso indica que a água está contaminada por excrementos de animal ou humanos que chegam ao sistema. Altos níveis de coliformes são causadores de cólera, diarréia e disenteria, disse Robert Odongo, inspetor ambiental do Ministério da Saúde de Uganda.

Considera-se que até 50 colônias destas bactérias em cada cem milímetros não é prejudicial. A mostra do distrito de Kyebando tinha 64 colônias, a de Mulango II 58 e a de Bwaise II 37. Já foram registrados casos de cólera em Kampala. Algumas pessoas se queixam de mal-estar estomacal. Esther Arego, residente em Kinawataka, outro subúrbio de Kampala, acredita que a água do manancial de Mukwano que ela usa está contaminada, mas, não tem alternativa. “O que posso fazer? É a única fonte de água na região. Poderia ferver, mas isso é só para beber. E a que uso para lavar os pratos?”, protestou.

Às vezes tem dores de estomago e sua vizinha também se queixou do mesmo problema, disse Arego, mas não está certa de a causa ser a água. A porta-voz da Corporação Nacional de Água e Saneamento, Miriam Kadaga, discordou do informe. “Nossa água é segura. Temos uma unidade de tratamento com tecnologia de vanguarda e estamos melhorando nossa rede de distribuição. Não há necessidade de criar alarme porque a água não está contaminada com bactérias”, insistiu.

Mas as conclusões preocupante das contaminação crescente condizem com o último estudo divulgado pela organização humanitária Oxfam, que detalha o impacto da mudança climática, em especial sobre a população mais pobre do país, tanto urbana quanto rural. “Prendendo a calefação” é o título do estudo da Oxfam, motivado pelas inundações do ano passado que devastaram zonas do leste de Uganda e Kampala. Kampala e outras cidades do país sofrerão freqüentes inundações, que propiciarão a incidência de doenças e acentuarão a pobreza, segundo o informe da Oxfam.

O derretimento das geleiras da cadeia montanhosa Rwenzori afetou, segundo o estudo, a cabeceira de muitos rios que fluem para o lago Vitória e o rio Nilo. O Ministério da Água informou que muitos poços secaram. A secretária do ministério, Miria Mutagamba, explicou que as camadas freáticas ficaram abaixo dos poços. “Estamos escavando poços entre 60 e 80 metros de profundidade. Agora, consideramos recomendar aumentar para 80 a 100 metros”, afirmou. Este fenômeno pode obstaculizar as gestões do governo para garantir a água potável para toda a população até 2015, no contexto dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas. (IPS/Envolverde)


(Envolverde/IPS)

R$ 18 milhões para meteorologia

A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) lançou chamada pública voltada para a área de meteorologia, com recursos não-reembolsáveis no valor de R$ 18 milhões. As propostas devem ser enviadas até 25 de setembro.

Segundo a Finep, o objetivo é criar e articular a infra-estrutura necessária para que entrem em operação sistemas de monitoramento por meio da formação de duas redes de instituições. A primeira, que contará com R$ 10 milhões, será destinada às mudanças climáticas e à previsão de secas.

A segunda rede, focada no monitoramento oceânico e de alerta antecipado de fenômenos oceanográficos e meteorológicos extremos no Atlântico Sul e Tropical, terá R$ 8 milhões.

As redes deverão ser associadas a centros regionais de meteorologia ou a órgãos gestores dos recursos hídricos nos estados brasileiros. Será apoiada apenas uma instituição coordenadora de rede por unidade da federação, sendo que podem se candidatar institutos de pesquisa, órgãos de governo e entidades privadas.

As propostas para as Redes de Mudanças Climáticas devem ter valor mínimo de R$ 500 mil, e as dos projetos vinculados às Redes de Fenômenos Extremos, R$ 1 milhão. (Fonte: Agência Fapesp)

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Água pode ser o motivo de uma próxima crise mundial

Por Paula Scheidt, do CarbonoBrasil

Se hoje os altos preços do barril de petróleo e dos alimentos andam dando dor de cabeça para muita gente, em breve a preocupação deverá ser com o custo da água. Com o crescimento populacional e a falta de condições sanitárias adequadas principalmente nos países em desenvolvimento, uma Crise Mundial da Água pode estar eminente, segundo alguns especialistas e, um mercado mundial de água potável já é visto como um caminho para minimizar as perdas.

“Por trás da crise alimentar está uma crise global por água potável, com expectativas de se tornar ainda pior com a intensificação dos impactos das mudanças climáticas”, disse o diretor geral da WWF, James Leape, que falará nesta terça-feira (19) na Semana Mundial da Água, evento que reúne, em Estocolmo, 2,5 mil especialistas em água de todo o mundo.

Cerca de 1,4 bilhões de pessoas vivem hoje em áreas que dependem de bacias hidrográficas que estão secando e outros um bilhão de indivíduos já sofrem com a falta de água potável para beber, o que diminui a expectativa de vida ou causa problemas de desenvolvimento imprevisíveis.

O evento foi aberto oficialmente nesta segunda-feira (18), com o pronunciamento do professor britânico Anthony John Allan, que recebeu o Prêmio da Água de Estocolmo 2008.

Durante estudos sobre a falta de água no Oriente Médio, o professor Allan, da Universidade King’s College de Londres (UK), desenvolveu o conceito “água virtual”, que seria o volume de água potável usada para produzir um produto, medida no lugar onde o produto foi realmente fabricado. Através desta concepção, o problema da água passa para o campo político e pode cair no comércio internacional.

Allan sugere a utilização da importação virtual da água, através dos produtos e alimentos, como uma alternativa de “fonte” de água potável para reduzir a pressão sobre bacias hidrográficas disponíveis em países que já lidam com a escassez.

Na palestra "Conhecendo a água e entendendo porque nós a usamos e consumimos deste modo" , proferida ontem, o professor Allan alertou para os padrões de consumo de água dos países do hemisfério norte, que desperdiçam água através do consumo de alimentos e poluição, e das nações do sul, onde é preciso melhorar a eficiência no uso da irrigação do solo.

"A água virtual é, evidentemente, uma questão muito política”, afirmou, destacando que, ambos, a água virtual e sua migração, são invisíveis e a sociedade precisa ter consciência deste processo para que sejam obtidos avanços com relação ao modo como a água é consumida.

Países como Estados Unidos, Argentina e Brasil “exportam” bilhões de litros de água por ano, segundo Allan; enquanto outros como Japão, Egito e Itália importam bilhões. Allan sugere que os produtos que necessitam uma maior quantidade de água sejam importados de países que possuem mais disponibilidade hídrica.

Comércio de água

Assim como para o clima, o mercado já desenvolveu também ferramentas para lidar com a questão da poluição da água, como nos Estados Unidos, onde em 2003 foi criado um comércio voluntário de créditos de redução de poluição.

Neste sistema, uma indústria ou empresa que tem um alto custo para controlar a poluição que produz pode comprar créditos de redução de poluição de outras que tenham um custo mais baixo para reduzi-la, diminuindo assim os custos para cumprir as obrigações ambientais.

A China também já experimenta a criação de um mercado de água para aliviar as diferenças de disponibilidade dentro do seu território. Em fevereiro deste ano, o país criou um esquema de alocação de direitos sobre a água de províncias, regiões autônomas e municípios que estejam diretamente sob a jurisdição do governo central.

“Enquanto a demanda por água se mantém alta, os resíduos líquidos se mantém perversos devido ao ‘livre acesso’ a recursos hídricos atualmente na China”, ressalta o gerente do programa chinês da ong Worldwatch Institute, Yingling Liu.

Ele explica que, de acordo com as estatísticas, o coeficiente de utilização do país para irrigação agrícola era de apenas 0,4 a 0,5 em 2003, comparado a 0,7 a 0,8 dos países industriais. O uso de água por unidade do produto interno bruto estava em 413 metros cúbicos, quatro vezes a média mundial, enquanto que o uso de água por valor adicionado pela indústria era de 218 metros cúbicos, 5 a 10 vezes o nível de países industriais.

Em 2000, o país teve uma primeira experiência de comércio de água, quando a cidade de Dongyang comprou 50 milhões de metros cúbicos de água anualmente de Yiwu, por US$ 0,57 por metro cúbico. Até 2005, ambos os lados foram beneficiados, até que uma forte seca atingiu Yiwu. A cidade evitou os custos significativos de ter que construir um reservatório próprio porque Dongyang passou a receber fundo para manter um reservatório existente.

Desde então o país lançou diversos testes em iniciativas locais para aliviar crises de água ou esforços do governo para promover economia. Segundo Liu, isto deu confiança para que os politicos exploraressem um esquema nacional, resultando nas regulamentações recentes.

“Se tornar-se efetivamente lei, poderá ser tão significativa quanto a reforma de terra largamente adotada nos anos 50, que liberou os trabalhadores rurais e tornou possível alimentar a nação de 1,3 bilhões de pessoas. Apesar de muito trabalho ainda ser necessário, uma regulamentação é um grande passo em direção ao gerenciamento hídrico na China”, disse.


(Envolverde/Carbono Brasil)

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Água tratada de forma natural

Por Thiago Romero, da Agência Fapesp

Agência FAPESP – O engenheiro civil Luciano Zanella desenvolveu um sistema de tratamento de esgoto doméstico que associa a beleza das plantas com o bom desempenho na purificação de efluentes de produtos naturais.


O sistema utiliza espécies ornamentais fixadas em pedra ou bambu colocados sobre uma camada de terra. No recipiente, a água passa pelos espaços entre as pedras (ou anéis de bambu), que, com a ajuda das raízes das plantas, fazem a filtração.

O estudo foi feito como trabalho de doutorado, defendido na Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Segundo Zanella, pesquisador do Laboratório de Instalações Prediais e Saneamento, vinculado ao Centro Tecnológico do Ambiente Construído do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), o dispositivo é indicado para o tratamento complementar ao esgoto doméstico, após esse ter passado por uma primeira etapa de purificação para remoção dos resíduos mais pesados.

Em testes realizados na Faculdade de Engenharia Agrícola da Unicamp, o engenheiro utilizou seis tanques de 2 mil litros cada. Os tanques receberam amostras de esgoto que já tinham passado por um primeiro tratamento na faculdade, sendo que em três recipientes foram adicionadas pedras brita nº 1 até a borda e, nos outros três, anéis de bambu.

"A eficiência média de remoção de sólidos em suspensão foi de cerca de 60% para os tanques com brita e de 33% para os tanques com bambu. Os valores médios de matéria orgânica foram de 22 miligramas por litro (mg/l), com 60% de eficiência de remoção, para os tanques de pedra brita, e de 36 mg/l, com 33% de eficiência de remoção, para os construídos com leito de bambu", disse Zanella à Agência FAPESP. O esgoto que saía da estação apresentava valor médio de matéria orgânica de 54 mg/l.

Os resultados médios obtidos para outro parâmetro de qualidade da água, demanda química de oxigênio (DQO), que mede indiretamente a carga de matéria orgânica contida na amostra, foram de 63,9% para os dispositivos com brita e plantas mistas e 55,8% sem o uso de plantas. No caso dos anéis de bambu, os índices foram de 29,7% e 20,4%, respectivamente.

Segundo o pesquisador, o sistema mantém o padrão estético dos jardins, diminuindo os níveis de rejeição da população para os dispositivos de tratamento de efluentes. Podem ser utilizadas diversas espécies de plantas, entre as quais copo-de-leite (Zantedeschia aethiopica), papiro (Cyperus papyrus) e biri (Canna edulis), que colaboram com o tratamento do esgoto ao mesmo tempo em que absorvem nutrientes como fósforo e nitrogênio para crescer com qualidade.

"A planta cresce em cima do esgoto, que serve como uma espécie de adubo natural para as espécies. O sistema lembra o processo de hidroponia acrescido da ação de microrganismos. Outra vantagem é que ele não necessita de nenhum tipo de produto químico ou eletricidade", disse Zanella.

Por ser considerado de baixo custo, o sistema é considerado ideal para pequenas propriedades. A água gerada pode ser utilizada para a irrigação de plantações e as plantas podem servir como uma fonte de renda extra pela exploração comercial das flores e fibras vegetais.

"Em uma população rural, por exemplo, seria possível plantar espécies ornamentais para venda. As fibras do caule do papiro, uma das plantas que melhor se adaptaram ao sistema, também podem ser usadas para artesanato na confecção de produtos como papel ou luminárias", disse.


(Envolverde/Agência Fapesp)