sexta-feira, 13 de junho de 2008

Emissões de CO2 na atmosfera impactam vida marinha

A absorção de CO2 em excesso pelos oceanos reduz o pH da água, tornando-a mais ácida. Resultado: ecossistema e seqüestro de carbono marinhos ameaçados.

O uso dos oceanos como sumidouro de carbono é descartado como uma boa alternativa para se enfrentar as mudanças climáticas. No último mês, representantes de quase 200 países presentes na Conferência de Biodiversidade da ONU concordaram em suspender o plano de fertilização dos oceanos. O projeto rejeitado pretendia combater o aquecimento global ao acrescentar nutrientes nas águas do mar e, com isso, incentivar o crescimento de algas que absorvem gás carbônico.

A decisão chega ao mesmo momento em que estudos comprovam os impactos que as emissões de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera podem causar aos ecossistemas marinhos. Uma pesquisa desenvolvida por cientistas de Reino Unido, França, Israel e Itália, coordenados por Jason Hall-Spencer, da universidade britânica de Plymouth, comprova o efeito devastador da redução do pH da água do mar, que fica mais ácida depois de absorver o excesso do gás.

A acidificação provoca várias alterações no ecossistema marinho. A principal delas, afirma Hall-Spencer, é a remoção de calcite e aragonite - minerais usados pela vida marinha na formação das conchas.

Os oceanos funcionam como uma esponja que absorve o CO2 emitido em excesso na atmosfera. Em contato com a água, o gás carbônico absorvido forma o ácido carbônico, que, por sua vez, dissolve o carbonato de cálcio - matéria-prima dos esqueletos dos corais, das conchas dos moluscos e das carapaças dos microrganismos do fitoplâncton.

Além de ameaçar as espécies marinhas, acidificação dos oceanos pode reduzir a capacidade do mar de absorver carbono e tornar o mundo ainda mais quente. Normalmente, quando as criaturas marinhas morrem, elas depositam no fundo do mar as suas carapaças calcárias (responsáveis por ‘seqüestrar’ o carbono), formando rocha calcária.

Acredita-se que os oceanos dissolvam 2 bilhões de toneladas de CO2 por ano, retardando os efeitos das alterações climáticas. Os limites de absorção de CO2 pelas águas do mar, no entanto, são motivos de controvérsia. As alterações comprovadas pela pesquisa elevam as preocupações com o aquecimento global, pois os oceanos (que cobrem 70% da superfície da Terra), em teoria, ajudam a equilibrar o clima do planeja seqüestrando o carbono emitido em excesso pelas atividades humanas.


Grande escala

Os efeitos da acidificação já eram conhecidos dos cientistas, mas, até então, eles só contavam com resultados de experiências de pequena escala, realizadas em aquários de laboratórios. A equipe da Universidade de Plymouth fez pela primeira vez observações em um ecossistema, aproveitando vulcões submarinos na costa da Itália. Os pesquisadores observaram o impacto do excesso de CO2 na vida marinha e publicaram as conclusões na revista científica Nature, apontando para um futuro preocupante.

O estudo se concentra em uma comunidade na costa da ilha de Ischia, no mar Mediterrâneo, onde as chaminés vulcânicas submarinas cospem CO2 e outros gases o tempo todo, tornando o pH mais baixo (entre 7,8 e 7,9 – enquanto o normal é entre 8,1 e 8,2).

Como resultado da observação, o grupo projetou mudanças na flora e fauna marinhas até o final deste século. As principais conseqüências previstas por eles serão o desaparecimento de corais, caracóis, ouriços-do-mar e de recifes (que impedem a erosão das costas); assim como a perturbação das cadeias alimentares e a proliferação de algas microscópicas invasivas que formam uma espécie de cimento quando estão em colônias.


Visível hoje

A água do mar está tão ácida que já é possível verificar a corrosão de conchas e esqueletos de estrelas-do-mar, corais, moluscos, mexilhões e outros grupos marinhos em águas rasas no Pacífico, afirmam cientistas da agência climática dos Estados Unidos.

Os pesquisadores já sabiam que a acidificação ocorria em águas profundas longe do litoral, mas se mostraram surpreendidos com o aparecimento do fenômeno em uma faixa entre o México e o Canadá.

"Isso significa que a acidificação do oceano pode estar impactando seriamente a vida marinha em nossa plataforma continental agora mesmo", avalia Richard Feely, do Laboratório Ambiental Marinho do Pacífico. Os dados sobre a corrosão que prejudica animais foram coletados num cruzeiro de pesquisa em 2007.


Mais perigo

Uma outra pesquisa, realizada por um centro de investigação australiano que estuda a ecologia e o impacto das alterações climáticas na Antártica, confirma que o aumento de acidez nos oceanos pode matar recifes de coral e deixar ilhas mais vulneráveis a tempestades marítimas e ciclones. De acordo com o relatório, por volta de 2100 o aumento de acidez vai expandir-se para norte a partir da Antártica.

“A acidificação dos oceanos torna os corais e as algas mais fracos e os sistemas tropicais ficarão mais vulneráveis ao impacto físico das tempestades e ciclones”, informa o documento. As ilhas Maldivas no Oceano Índico e o Kiribati no sul do Pacífico vão ficar menos protegidas contra tempestades marítimas.

O fenômeno também trará impactos negativos no comércio, tanto em nível pesqueiro quanto turístico, pois todo o ecossistema que depende dos recifes estará em perigo.

Por Sabrina Domingos, CarbonoBrasil

Fonte: CarbonoBrasil

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