sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Mudanças climáticas: os que lucram e os que resistem

por jpereira — Última modificação 11/12/2007 20:03

Contribuidores: Silvia Ribeiro As “soluções” da indústria para o aquecimento global que preservam o lucro, mas não combatem as causas

Silvia Ribeiro *


A 13ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática será realizada em Bali, Indonésia em um contexto no qual esse tema é cada vez mais crucial, tanto pela agudização dos impactos desta tragédia anunciada, como pelos fortes interesses comerciais que mobiliza.

Este ano, a polarização social global em torno do assunto expressou-se particularmente com a instalação, fora das reuniões oficiais, da "Aldeia de Solidariedade para um Planeta Sem Aquecimento", organizada por uma ampla coalizão de movimentos sociais e organizações civis indonésias e internacionais. Segundo os organizadores, trata-se de "um espaço aberto para reunir a todos que acreditam que o aquecimento global não pode ser abordado mediante soluções de mercado e neoliberais. Acreditamos que estas somente podem encontrar-se com mudanças fundamentais na maneira em que produzimos, comercializamos e consumimos".

Entre esses grupos, estão organizações internacionais – como Via Campesina, Amigos da Terra e Focus on the Global South – e locais, como a coalizão Movimento Popular de Indonésia contra o Neo-colonialismo e o Imperialismo, a Federação Indonésia de Sindicatos Campesinos (FSPI), organizações de direitos humanos, de pescadores, de mulheres, coalizões contra os acordos comerciais.

Este tipo de mobilização se opõe às soluções apresentadas pelas indústrias: promover, entre outros, os agrocombustíveis, os "desertos verdes" das monoculturas florestais, as grandes represas, a energia nuclear e outros arranjos tecnológicos que, longe de serem soluções, agregam novos problemas ambientais e sociais.

Causas do aquecimento O processo de mudança climática global é conhecido há décadas, mas Estados Unidos e as indústrias petroleiras e automobilísticas o negavam. Esses mesmos atores têm mudado de estratégia, não porque reconhecem sua vasta e danosa participação na produção das causas do aquecimento global e dos lucros obtidos a partir disso, mas porque aguardam cuidadosamente novas fontes de negócios para manter seus privilégios de lucro e contaminação.

Nesse sentido, destaca-se a agressiva promoção dos combustíveis agroindustriais em escala global, subvencionados com dinheiro público para o lucro das grandes empresas. Só que em lugar de mitigar o aquecimento global, vão aprofundá-lo, porque implicam em um aumento massivo de suas causas: mais agricultura industrial, mais consumo de petróleo para maquinaria agrícola e agroquímicos, mais deflorestação e mais erosão de sistemas naturais.

Se isso fosse pouco, são novas fontes de atropelos aos territórios e direitos dos camponeses que em todo o mundo são quem realmente provêm a base da alimentação e a sustentabilidade dos agroecosistemas para a maioria da população mundial.

“Fertilização dos oceanos” Outros tipos de empreendimentos de alto risco, menos conhecidos, são as empresas de "geoengenharia", ou seja, a modificação do ambiente voluntariamente e em grande grande escala.

Várias empresas têm saído, literalmente, a pescar lucros, com o que chamam de "fertilização" dos oceanos. Baseiam-se na teoria de que ao dispersar fertilizantes na superfície dos oceanos aumentará a quantidade de fitoplancton, que absorveria o dióxido de carbono e, portanto, funcionaria como um "eliminador de carbono", um dos principais gases cuja acumulação provoca o aquecimento global.

Porém, estes empreendimentos que se faz por lucro, não são inócuos. Pelo contrário, em novembro de 2007, o Convênio de Londres da Organização Marítima Internacional (que se ocupa da contaminação dos mares por derramamento de dejetos) declarou que este tipo de experimento "não se justifica", tanto pelos impactos negativos potenciais, como também porque não está claro se trazem algum benefício. Recomenda-se aos governos não aprová-los. Mas as empresas insistem e buscam governos dóceis, que não sejam signatários deste convênio.

Uma das iniciativas mais conhecidas é a de Planktos Inc., companhia que vende créditos de carbono a indivíduos e empresas, para logo derramar nanopartículas de ferro nos oceanos. A Planktos anunciou que se dirigia aos mares próximos às Ilhas Galápagos para fazer um derramamento, mas cancelou a viagem devido à denúncia de muitas organizações locais e internacionais, assim como a oposição oficial no Equador.

Outra empresa similar, também na mira de muitas organizações, é a Climos, com sede em São Francisco. Quer se legitimar como agente de "créditos de carbono" com estas atividades de derramamento nos oceanos e pretende ser admitida dentro do chamado Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) do Protocolo de Kyoto. Outra mostra fidedigna de que o MDL é um mecanismo a favor dos interesses comerciais, que legitimam a venda de "permissões de contaminação", aumentándo-a, e promove atividades de forte impacto social e ambiental.

A empresa australiana Ocean Nourishment Corporation (ONC) se propunha a verter 500 toneladas de uréia no mar de Sulu, próximo às Filipinas, mas teve que mudar seus planos após a oposição governo filipino, devido à denuncia de várias organizações da sociedade civil pelos impactos sobre os pescadores artesanais e o ambiente marinho. Assim mesmo, a ONC segue com o plano de verter mais de mil toneladas de uréia em águas malaias, e considera também fazer o mesmo no Chile, Emirados Árabes e, possivelmente, Marrocos.

Resistência Os piratas do clima seguem buscando portos vulneráveis e terras desprotegidas para seus lucros inescrupulosos, seja com geoengenharia, agrocombustíveis ou inclusive criando organismos vivos totalmente artificiais para produzir combustíveis comercialmente, como quer o genetista Craig Venter.

Que não lhes restem dúvidas: por todo o mundo se multiplica também a resistência das organizações da sociedade civil, assim como o alerta ativo dos campesinos e campesinas que, como disse a Via Campesina, desde sua luta e desde sua prática diária combatem o aquecimento global.

* Pesquisadora do Grupo ETC

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