sexta-feira, 9 de março de 2007

Resposta do INPE à coluna "Desastre climático e midiático", do jornalista Marcelo Leite

INPE reage ao desastre midiático

Recebi ontem, mas só vi hoje, a resposta de Gilberto Camara, diretor do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), diante da coluna "Desastre climático e midiático" (v. mais abaixo). Reproduzo-a com sua autorização, não sem antes anotar a sinceridade e a lisura da resposta:

No dia 04/03/2007 (domingo), a Folha publicou dois comentários críticos sobre a divulgação dos relatórios recentes sobre mudanças climáticas, produzidos por diferentes instituições brasileiras (inclusive o INPE), com suporte financeiro do Ministério do Meio Ambiente (MMA).

Os comentários foram publicados nas colunas do ombudsman ("O futuro, sem exageros") na coluna Mais Ciência ("Desastre climático e midiático"). As críticas são pertinentes e fundamentadas.

Quando falamos de cenários para daqui a 100 anos, é preciso ter muito cuidado sobre como apresentamos potenciais conseqüências.

Os estudos feitos pelo INPE apresentam vários resultados inéditos muito preocupantes e bem fundamentados científicamente, como a redução das chuvas na Amazônia e no Semi-Árido e o aumento da temperatura média no Brasil inteiro.

Infelizmente, a cobertura da imprensa destacou um dos aspectos mais incertos do relatório: a conexão entre um resultado do modelo (aumento do nível do mar) e a possibilidade de desalojar 42 milhões de brasileiros. Esta conexão não é um dos resultados científicos centrais e foi incluída apenas a título de exemplo potencial.

A relação entre projeções de aumento do nível do mar e migrações em massa não pode ser expressa de forma direta. Há enorme carência, no país, de estudos rigorosos sobre os impactos das mudanças climáticas, inclusive aquela da elevação do nível do mar nos ecossistemas costeiros, infra-estrutura, cidades e população. Ainda temos muitos anos de pesquisa até podermos estabelecer com rigor o que acontecerá na costa brasileira com a esperada subida do nível do mar.

Concordo com o Marcelo Leite quando afirma: "Uma coisa é produzir dados e projeções; empacotá-los e torná-los inteligíveis pelo público leigo são outros 500." Lição registrada e aprendida.

Destaco a vocês que este relatório é apenas o começo de uma nova fase do INPE. Estamos ampliando muito nossa pesquisa em Mudanças Globais. Nossa meta é relacionar os cenários de mudanças climáticas com as opções de políticas de desenvolvimento do País para o século 21.
Como se trata de um projeto de longo prazo, precisamos evitar que os problemas apontados por vocês se repitam. A compreensão pública da ciência é tarefa que se pratica todos os dias. Esta tarefa não pode ser reduzida a breves apresentações de relatórios que consumiram muitos anos de trabalho.

O INPE gostaria que suas pesquisas e seus serviços sejam acessíveis à sociedade brasileira com o máximo de precisão e sem exageros dispensáveis e perigosos. Para conseguir isto, pretendemos seguir três princípios:

(a) A sociedade e a imprensa devem ter acesso integral a todos os nossos resultados, e aos dados e modelos que os produziram.
(b) Os resultados devem ser apresentados com o máximo de detalhe, sem receio de apontar dúvidas ou lacunas na análise.
(c) Devemos reconhecer prontamente os erros para evita-los no futuro.
Uma interação honesta com a imprensa é essencial para construir na sociedade as forças que o Brasil precisa para enfrentar os desafios das mudanças globais.

Nenhum comentário: